2 de agosto de 2017

Braga tem? Guimarães merece.

Num texto anterior, escrevi:
É certo que, nos tempos que correm, como noutros, nem tudo é bonito no combate eleitoral. Em parte, já se faz nas chamadas redes sociais, que é território muitas vezes mal frequentado e pouco recomendável, povoado de jagunços e de perfis falsos ou ocultos que desempenham a missão de fazer o trabalho sujo a que outros se escusam a meter as mãos.
A propósito do modo como a batalha autárquica se vai travando nas chamadas redes sociais, poderia dar vários exemplos do que transcrevi acima, mas dou só um. Trata-se de uma página do Facebook que se diz dedicada aos vimaranenses zelosos da sua cidade, do seu concelho e da sua identidade, e que afirma “uma visão de futuro ancorada no orgulho do nosso passado e na vivência do nosso presente”. Não se sabe quem são os seus autores, que usam como imagem de perfil uma fotografia do monumento de D. Afonso Henriques e como foto de capa a legenda da Torre da Alfândega, Aqui Nasceu Portugal. Tem cerca de 3700 seguidores.
Não é preciso construir um algoritmo muito complexo para se perceber por onde alinham os seus mentores (basta seguir o rasto das partilhas dos artigos que ali se publicam e a frequência das partilhas pelos mesmos utilizadores). É, manifestamente, um instrumento de comunicação politicamente orientado com o propósito de promover uma das candidaturas às próximas eleições autárquicas em Guimarães. Embora algo tosco, porventura intencionalmente, é dado a algumas subtilezas, como dedicar uns textos elogiosos a figuras com orientações políticas distintas das dos seus mentores, mas só das que, nas actuais circunstâncias, não aquentam, ou partilhar alguns textos que não arrefentam de pessoas não conotadas com a sua linha “editorial” (inclusive textos meus). As caixas de comentários são o que seria de esperar num espaço com esta natureza: não raras vezes, fazem lembrar um recipiente que existia nos velhos cafés, o escarrador. Nada de inesperado, nada de ilegítimo. Tudo nos conformes. Muitos dos textos que ali se publicam acabam com uma proclamação: Guimarães merece melhor. E eu até estou de acordo com ela.
Uma breve análise ao que ali se escreve permite concluir que tudo gira em torno de ideias básicas: em Guimarães, tudo o que é feito pela administração municipal é mal feito, o concelho vai de mal a pior em todos os rankings e devia pôr os olhos em Braga, onde se faz tudo bem (mesmo quando o que por ali se faz não é mais do que a continuação ou a reprodução do que fazia o dinossauro que, durante décadas, presidiu à Câmara de lá, de orientação política contrária à actual maioria).
A crer no que se publica naquele espaço, Braga é o padrão da administração autárquica, a candeia luminosa que deveria guiar os passos deste concelho pequenito, mísero e atrasado, rumo a um  futuro radioso - a bracarização de Guimarães como caminho.
Eu só estranho ainda não ter encontrado por ali qualquer referência à última grande obra braguesa: o César Augusto tintado, a escultura garrida do imperador da Bracalândia, recentemente inaugurada, com pompa e circunstância à altura dos melhores carnavais e com uma monumental saudação em forma de pateada da parte dos arqueólogos e dos historiadores de arte, que adjectivaram a coisa de kitsch, que é um modo abreviado de lhe chamar parola por parte de pai e mãe. Muito me admira ainda não ter lido, na página de que falo, o lamento-reivindicação que proclamaria que, se Braga tem, Guimarães também merece uma estátua pintada e que, não havendo por cá imperador, até poderia ser o Guimarães das duas caras que, tal como as estátuas romanas que o renascimento descoloriu, também era pintado de origem. Andam distraídos, os Vimaranenses?

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