24 de novembro de 2017

As artes dos fingidos.


Já os gregos usavam destas artes, há quase dois mil e quinhentos anos. Os romanos aprimoraram-nas. O barroco deu-lhes um novo fulgor. São as artes dos fingidos, imitações pintadas de materiais nobres (mármores, madeiras, lacas, etc.) aplicadas sobre rebocos, estuques, madeira. Em Guimarães, os fingidos foram extensamente utilizados no restauro da Colegiada da Oliveira da década de 1830, quando o rude granito do interior da igreja foi recoberto com madeiras e estuques decorados com marmoreados fingidos e douraduras. O restauro o início da década de 1970 removeu-os.
No Toural, há um edifício onde podemos observar os primores destas artes do engano, que nos fazem ver o que não existe. É o edifício que faz esquina com a Rua de D. João I, onde antes funcionou o Banco Nacional Ultramarino e, lá mais para trás, a conceituada Confeitaria Parisiense, de Domingos Vinagreiro & Filhos. Hoje é um hotel. Quem o encara, vê uma fachada de pedra lavrada, que lhe dá uma certa nobreza. Granito fino. Afinal, vendo mais de perto, percebe-se que, no revestimento da fachada, o granito genuíno apenas chegou para o rés-do-chão (e nem todo). Daí para cima, não é granito: dá-se ares. É uma obra, de boa feitura, da antiquíssima arte dos fingidos. Custa a crer que seja mentira.
As obras de arte dos fingidos são como as profissões de fé ecológica dos nossos responsáveis políticos. Fazem juras de amor eterno ao verde, ao mesmo tempo que permitem a destruição de importantes mancha verdes, como em Pencelo, para instalar uma fábrica que nenhum benefício traria à terra, ou no quarteirão da Caldeiroa-Camões, para encher de betão e acomodar automóveis. Custa a crer que seja verdade.

A Confeitaria Parisiense, de Domingos Vinagreiro & Filhos, no início do séc. XX. Note-se a fachada revestida a azulejos.
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23 de novembro de 2017

Museu Industrial de Guimarães (5)

Mostra da Fábrica de Tecidos a Vapor do Castanheiro na Exposição Industrial das Festas da Cidade de 1908.


A propósito do projecto de instalação de um museu industrial nas instalações da Sociedade Martins Sarmento, muito se falou e escreveu acerca do estado da organização industrial e comercial vimaranense. É no contexto deste debate que o jornal Ecos de Guimarães, na sua edição de 14 de Janeiro de 1900, dá destaque a um artigo (não assinado, mas, muito provavelmente, do seu colaborador Avelino da  Silva Guimarães), com o título A exposição industrial permanente e a Sociedade Martins Sarmento, onde se tecem considerações muito interessantes acerca da economia de Guimarães na viragem do século XIX para ao século XX.

A EXPOSIÇÃO INDUSTRIAL PERMANENTE
e a Sociedade Martins Sarmento
Recentemente, o presidente da república francesa, mr. Loubet, referindo-se à grande exposição de 1900, afirmou que as nações do presente período histórico lutam principalmente pelas suas indústrias, pelo seu comércio. A nação, que melhor encaminha no progresso da sua indústria e comércio, é vencedora.
Excepção feita da Inglaterra, que ainda prolonga o período da conquista pela conquista[1], que ainda alimenta a vanglória do predomínio da força, todas as nações cultas da Europa, as semicultas de outros continentes, lutam todas pelo respectivo progresso interno das suas indústrias, na mais ampla significação do termo — agrícola e fabril. Entre as vencedoras, avulta a Alemanha, no desenvolvimento gigantesco das suas indústrias, na expansão internacional do seu poderoso comércio.
Nestas pugnas de paz, avulta no ardor a Rússia, este país enorme, mas ainda com numerosas populações, não simplesmente barbaras, mas nómadas, como os kirghis; e é sempre merecedor de louvores o grande imperante, que ilustra o seu reinado pela iniciativa e empenho em conciliar as nações no congresso da paz, e não cessa de promover e activar os benefícios da paz para o progresso e civilização dos milhões de homens, que governa superiormente.
E se as grandes nações se distinguem e rivalizam nestes progressivos combates de paz, as nações pequenas, como a nossa, não tem outro recurso, para que se isentem da qualificação de moribundas, na concepção deprimente e cruelmente mordaz dos orgulhosos estadistas britânicos, senão o de — progredir na sua economia interna, para pelo menos dispensar quanto possam os produtos das indústrias externas.
Por isso aplaudimos, com todo o calor da nossa alma de vimaranense, e de português, a iniciativa tomada pela Sociedade Martins Sarmento, pela sua muito activa e patriótica direcção, convidando os industriais deste populoso concelho para concorrerem para o desenvolvimento dum museu ou exposição permanente fabril e comercial.
A exposição industrial de Guimarães, em 1884, uma das empresas levadas a cabo com tanto brilho pela benemérita Sociedade, empresa que levantou Guimarães perante todo o país, pedia este complemento; houve em 1884, ou 1885, uma tentativa; agora a Sociedade emprega novo esforço, e talvez mais oportunamente, porque desde 1884 até hoje as indústrias do concelho de Guimarães, mesmo a agrícola na viticultura e vinicultura, têm operado uma transformação radical, e um progresso sensível.
Há ramos ou classes estacionárias; outras, acusando já em 1884 visível decadência; mas há classes, especialmente de tecidos de linho, algodão, e auxiliares, que não revelam só o incremento avultado, mas sensível aperfeiçoamento nos produtos. Invoquemos para exemplo os produtos de duas classes — a de pentes como a fabricados snrs. Dias, a de atoalhado e outras manufacturas dos snrs. Pedro Guimarães & C.ª, além da já antiga dos snrs. Costas.
Mais duas do snr. Teixeira de Abreu, e do snr. Alves, estão em adiantada construção.
Na agrícola é digno de mencionar-se, pelos seus persistentes esforços, e pelo exemplo que benemeritamente deu aos seus colegas, que já tem seguido a mesma rota transformadora em viticultura, o snr. Manuel Baptista Sampaio.
E cremos que, se as reclamações e queixas da Sociedade Martins Sarmento para que a escola industrial Francisco de Holanda tenha o complemento que deve ter (e não é mui difícil dar-lho) as indústrias vimaranenses teriam já conquistado maiores progressos, mais avantajados aperfeiçoamentos nas suas manufacturas.
Com a definitiva organização do museu industrial e comercial a Sociedade Martins Sarmento vai prestar mais um relevante serviço à economia e progresso deste concelho; e cria uma instituição nova, a que dava tamanho apreço o falecido iniciador conselheiro António Augusto de Aguiar na sua curta, mas produtiva existência de ministro de obras publicas. Os interessados directamente, comerciantes e industriais, obtêm fácil e gratuita a exposição, e o anúncio permanente das suas produções fabris, ou da excelência dos seus sortidos comerciais, que é a grande vantagem, por toda a parte reconhecida, no estrangeiro, como no país, da existência dos museus comerciais.
A Sociedade também aufere vantagens: cria mais um elemento de instrução e educação popular. E sobre tudo concorre para não arrefecer este santo amor da pátria, este calor e inquietação tão louvável como útil, que a animou desde 1881, — a iniciar e radicar uma época de renascimento da vitalidade escolar, e económica, da cidade e concelho de Guimarães.
Correspondendo a este salutar pensamento, a exemplar direcção tem gerido com inexcedível zelo.
Oxalá que não arrefeça.
Os assuntos que abraçou, na complexidade do seu estudo e na intensidade do seu zelo e brio patriótico, são vitais para a prosperidade deste concelho; e, se não for bastante (e decerto não é) este final de gerência, desde já lhe pedimos que continue sacrificando o seu tempo, o seu trabalho, a sua ilustrada actividade mental, n esta santa cruzada do bem.
E aos industriais e comerciantes de Guimarães, da cidade e concelho, dirigimos os nossos parabéns pela actividade que revelam para manter este concelho na categoria honrosa de Manchester portuguesa.
Faz já gosto, enche a alma de prazer, ao contemplar as fábricas que se erguem em próspera laboração, as que surgem em adiantada construção para dentro de pouco concorrerem honesta e briosamente ao aumento da riqueza concelhia: é obra que oferece aos empresários o próprio bem-estar, e a satisfação moral de concorrerem para a sustentação legitima e honrosa de muitas dezenas de famílias de artistas, de honrados trabalhadores, que aí se abriguem em busca do pão para os seus filhos!
E para que uma excessiva concentração dos esforços não prejudique intenções tão beneméritas, lembramos que é da máxima conveniência variar as empresas industriais, porque ainda que possa manter-se o sistema proteccionista por mais anos, ainda que não possam realizar-se as ambições de nos tomarem (vamos a dizer — roubarem...) as nossas possessões de África, convém a um povo, convém portanto a um concelho, que as actividades se dividam, que as empresas se variem, e correspondam às nossas antigas e numerosas classes de indústria fabril, aproveitando relíquias, aptidões operárias, da nossa passada grandeza.
Óptimas por isso foram a iniciativa dos snrs. comendador João Dias, Cunha, e Vilaça, metendo ombros à empresa duma fábrica de cutelaria, já felizmente em adiantada construção, a empresa do snr. Barbosa e Oliveira, e a do snr. Vicente.
Nem tudo tecidos, nem tudo linho ou algodão, aliás, perdida a África, a crise será fatal.
E se, apesar dos erros, fontistas, apesar dos erros de todos os governos e de todos os partidos (não obstante a pletora de conselheiros com que se decoram...), conservarmos a África, e o regime proteccionista, da variedade das empresas resultará para todos mais seguros lucros e muito menores contingências, seja qual for a evolução futura na economia geral do país.
Quanto à Sociedade Martins Sarmento, continue ela, a prestante e gloriosa corporação, na senda encetada, que há de merecer cada vez mais o que afirmou o digno presidente da Câmara na sua eloquente alocução de 9 de Março de 1899 — que paira sobre ela o espírito de Deus —, como paira sobre todas as empresas de caridade, e a Sociedade, na mais ampla acepção do termo, é uma das mais distintas associações de caridade cristã da moderna Guimarães.
Com o presidente da Câmara, e connosco, o testemunham e afirmam dezenas de consciências, que encontraram, nos inícios da sua vida de luta honesta, estímulo eficaz, protecção desinteressada.
Nesta época de sindicatos, como é consolador, como refrigera a alma queimada e como que insulada no ardor do egoísmo e das ambições insofridas, deparar e acolher-se naquele oásis viçoso de benemerências sociais!


[1] É todavia certo que essa mesma alega — que pretende civilizar os povos, e garantir a igualdade dos direitos das raças brancas...
[Continua]
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22 de novembro de 2017

Museu Industrial de Guimarães (4)

Galerias do Museu da Sociedade Martins Sarmento, onde foi instalado, em 1900, o Museu Industrial.
Tendo colhido a adesão dos industriais e comerciantes de Guimarães à ideia da criação e um museu industrial, na reunião realizada no dia 7 de Janeiro de 1900, logo no dia seguinte a direcção da Sociedade Martins Sarmento tratou de pôr em marcha o processo que tinha um objectivo ambicioso e um calendário apertado: instalar o museu para o inaugurar no dia da festa da instituição, a 9 de Março. Aprovou o respectivo regulamento e designou o seu segundo secretário, João Gualdino Pereira para o cargo de director do novo museu. Na mesma reunião, aceitou e agradeceu a oferta de Albano Pires de Sousa, proprietário da tipografia “Silva Caldas”, que se prontificara a produzir “gratuitamente todos os impressos necessários para o museu industrial” e decidiu mandar construir as vitrinas necessárias para a exposição que se iria montar, seguindo o modelo das já existentes.
Pela leitura do regulamento do museu, que foi mandado imprimir para distribuição aos industriais interessados, percebe-se que o projecto da Sociedade Martins Sarmento não era o de exibir um repositório de equipamentos, materiais ou de técnicas de fabrico mais ou menos obsoletos, que permitissem perceber o passado e o presente das indústrias locais vimaranenses. Este museu estava, acima de tudo, virado para o presente e para o futuro: iria mostrar os produtos que, por aqueles dias, saíam das fábricas e das oficinas de Guimarães, promovendo-os e divulgando-os.

Regulamento do Museu Industrial
(aprovado pela direcção da Sociedade Martins Sarmento em de 8 de Janeiro de 1900)
Artigo 1.º E criado pela Sociedade Martins Sarmento um museu industrial, destinado à exposição permanente dos produtos da indústria do concelho de Guimarães.
Art. 2.º Os serviços deste museu ficarão especialmente a cargo do vogal da direcção da Sociedade que por ela for designado.
Art. 3.º Todo o industrial ou artífice residente neste concelho poderá figurar como expositor dos produtos da sua indústria, uma vez que se conforme com estas disposições regulamentares.
Art. 4.º Os produtos que se destinem a este museu serão enviados para a casa da Sociedade e deverão constar duma relação, em duplicado, assinada pelo expositor, a qual depois de conferida será, arquivada, devolvendo-se o duplicado ao remetente com o competente recibo.
Art. 5.º A colocação e disposição dos artefactos na casa do museu poderá ser feita ou dirigida pelo próprio expositor, mas sempre de acordo e sob a inspecção do respectivo director.
Art. 6.º Além do nome do expositor poderá indicar-se, por escrito, o local em que os produtos são fabricados e se acham à venda, seus preços, bem como dar-se qualquer outro esclarecimento que se entenda conveniente.
Art. 7.º Os produtos em exposição continuam sendo propriedade do expositor, mas este não poderá retirá-los do museu antes de findo um trimestre, salvo por motivo de venda ou outro igualmente atendível, depois de ouvido o director respectivo.
Art. 8.º Para que haja a maior regularidade no serviço de renovação ou alteração no museu será especialmente destinada à entrega dos produtos expostos, recebimento de outros e sua instalação a primeira quinzena dos meses de Janeiro, Abril, Julho e Outubro.
Art. 9.º Dos produtos que sejam retirados do museu passará o proprietário recibo na relação arquivada.
Art. 10.º Este museu será instalado, provisoriamente, na parte disponível da galeria da casa da Sociedade e estará patente ao público nos dias e horas em que podem ser visitados os mais museus da Sociedade.



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Eis a questão: ser ou não ser (grátis).


Entre as muitas dúvidas que me suscita o tão mal explicado parque de quatro pisos que vai descaracterizar o interior do quarteirão Caldeiroa-Camões, há uma que, desde há algum tempo, tem vindo a aumentar: afinal, o parque vai ser pago ou vai ser gratuito?
Tinha como adquirido que o estacionamento num parque com aquelas características implicaria pagamento. Dentro da lógica da política de estacionamento que, desde há muito, se desenvolve na cidade de Guimarães (como em qualquer outra cidade) não ousaria cogitar outra hipótese. No entanto, um comentário colocado há alguns dias num texto meu, por um amigo que tenho por bem informado, levantou a ponta de um véu cuja existência desconhecia. Dizia esse meu amigo que “os moradores do quarteirão e arredores vão ter parque gratuito”.
Para mim, era novidade. Fui procurar informar-me melhor. O que encontrei deixou-me como o rei do Gonzalo Torrente Ballester: pasmado. Percebi que tenho andado distraído. E que não sou o único.
Na informação que a Câmara Municipal divulgou em 20 de Outubro de 2017, anunciando que as obras do para a construção do parque se iriam iniciar, anuncia que o mesmo iria “permitir a gradual pedonalização do Centro Histórico, disponibilidade de aparcamento gratuito aos seus moradores”. Ou seja, a crer nesta informação, uma parte dos moradores de Guimarães, os do Centro Histórico, teriam direito a usufruir, sem custos, de lugares de aparcamento na Caldeiroa, o que não bate certo com informações que me chegam de amigos que moram na rua de Camões que já teriam sido sondados para manifestarem o seu interesse na subscrição de lugares de aparcamento no mesmo parque, a troco de uma mensalidade módica (especialmente módica, se atendermos aos milhões que vão ser enterrados na construção daquele parque).
Procurando um pouco mais, chego ao mais ostensivo instrumento de manipulação política em tempo de campanha eleitoral de que tenho memória em Guimarães, e que já foi desmontado no blogue Não deixem matar a Caldeiroa: um vídeo, com recurso a imagens colhidas com um drone e a realidade virtual, que promete mostrar “como vai ficar” o “futuro Parque de Estacionamento Camões”, apresentado nas vésperas das últimas eleições autárquicas  pelo partido cujo primeiro candidato era o presidente, entretanto reeleito, da Câmara Municipal de Guimarães. No texto que apresentava aquela peça, leio que o parque será:
E pergunto:
Em que ficamos? o parque será pago, como seria suposto, será “gratuito aos moradores do Centro Histórico”, como disse a Câmara, ou, simplesmente, gratuito para todos, como prometeu o Partido Socialista na campanha eleitoral?
Se for gratuito só para os moradores do Centro Histórico, será justo perguntar: e então os moradores da cidade que não habitam o Centro Histórico e que também não têm onde estacionar? E os que vivem espalhados pelas freguesias do concelho e que se têm que deslocar à cidade? Será que vamos ter cidadãos de primeira e cidadãos de segunda?
E se este parque for gratuito, seja para todos ou apenas para os moradores do Centro Histórico, ficará tudo como até aqui, nos restantes espaços de aparcamento da cidade, cobertos ou a céu aberto?
Em que momento é que foi decidida a gratuitidade do parque?
Para quando a divulgação do tal modelo de gestão” que tem em conta a prioridade a dar aos moradores”?

Informação da Câmara Municipal de Guimarães de 20 de Outubro de 2017

Publicação do PS Guimarães no Facebook em 19 de Setembro de 2017.


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21 de novembro de 2017

À espera que chova.

O fontanário da Oliveira, numa estereoscópia de Antero Frederico de Seabra (1858)
Vai muito seco este Outono. Dizem que estamos em seca estrema e que, felizmente, amanhã voltará a chover, talvez. Não fosse o tanto se falar no assunto, quase não teríamos percebido que a situação existe, persiste e é grave. É que a água não nos falta nas torneiras. Secas, com todas as classificações (fracas, suaves, moderadas, graves, extremas ou excepcionais), sempre as houve. Noutros tempos, as consequências da escassez de chuva como a deste ano seriam muito graves. O que agora nos vale, é termos um sistema de abastecimento público de água muito eficiente. Bendito seja.
Sobre a falta (e o excesso) de chuva e de água, escrevi, há uma dúzia de anos, para o que comemora o centenário do abastecimento público em Guimarães, um texto que, pela actualidade que torna a ter, agora aqui volto a partilhar.

A água do Céu
Tendemos a acreditar que, no passado, a meteorologia teria, na sucessão das estações do ano, uma regularidade aproximada da constância do tempo cronológico. Ao Verão quente e seco, sucedia o Outono, mais fresco e chuvoso, que acabava no Inverno, que era frio e molhado, a que se seguia a Primavera, de tempo mais ameno, se bem que húmido. O ritmo da vida dos homens seguiria a marcha do tempo cronológico e meteorológico e o calendário agrário ajustava-se a essa regularidade. Esta visão idealizada do clima de outrora está longe de corresponder a realidade vivida pelos nossos antepassados.
A verdade é que as inconstâncias meteorológicas não são, longe disso, apenas uma realidade dos nossos dias. Aliás, no passado, os seus efeitos eram bem mais nefastos do que nos nossos dias. Olhando para os registos de que dispomos do passado, facilmente se conclui que a tal irregularidade dos elementos que compõem o clima era, afinal, bastante normal.
No passado, o maior problema que afectava a população da região de Guimarães, como a de qualquer outro lugar, no que respeita aos elementos meteorológicos, prendia- se com a água, ou seja, com a pluviosidade: muitas vezes, a chuva faltava, secando a terra e impedindo que frutificasse; outras caía em excesso, inundando os campos, destruindo sementeiras e dificultando a recolha dos frutos.
Para o passado remoto, não possuímos registos meteorológicos quantitativos precisos. Não obstante, dispomos de outros elementos que nos permitem perceber até que ponto as variações climáticas afectavam a vida das gentes. É possível compilar, por exemplo, nos registos existentes nos nossos arquivos, informação acerca das procissões de preces e das penitências a que as populações recorriam para intercederem para que chovesse ou para que fizesse sol. Partindo destes registos, podemos construir um exemplo esclarecedor: um homem que tivesse nascido em Guimarães em 1821 e que tivesse gozado uma longevidade excepcional, para o tempo, sobrevivendo até ao último dia do século em que nasceu, dos oitenta anos que teria durado a sua existência, em trinta e dois registaram-se crises meteorológicas. Ao longo da sua vida, teria sido testemunha, porventura participante, de inúmeras manifestações em que as gentes se apegavam ao seu último recurso, a fé, para implorarem chuva, em tempo de seca, ou rogarem por sol, em tempo em que a chuva não parava de cair. Algumas dessas crises, pelas suas consequências, deveriam ter ficado profundamente gravadas na sua memória.
Assim teria sucedido, muito provavelmente, com as inclemências meteorológicas do ano de 1838. O Inverno iniciado em 1837 foi marcado por muitas chuvas, que começaram a cair com particular inclemência no início de Dezembro. No final de Fevereiro, um grande temporal provocaria cheias nos rios da região, havendo então notícia de um acidente com um caixeiro que foi arrastado pelas águas, quando atravessava o rio Ave, no pontilhão das Taipas. O homem salvou-se, a custo, mas perdeu-se o macho em que viajava. Pelos dias que se seguiram, continuou a chuva, acompanhada por trovoadas e quedas de granizo. No dia 16 de Maio, como consequência da chuva e da água que se acumulava no solo, aluiu parte da ponte de Santa Luzia. No final desse mês, o cónego José Pereira Lopes, que deixou um precioso registo da vida em Guimarães ao longo de várias décadas do século XIX, anotaria no seu diário:
Até ao fim deste mês, houve grandes e copiosas chuvas, de maneira que as chuvas que houve desde a Primavera até este tempo, juntas com as que houve antes da Primavera, fizeram que este ano fosse um ano de tanta chuva, como não havia exemplo há muitos anos.66
O mau tempo continuaria, até que, no dia 3 de Julho, Pereira Lopes registou no seu diário: foi o primeiro dia em que não esteve tanto frio. Os estragos da longa invernia tinham sido enormes. Mas aquele terá sido sol de pouca dura, já que, em meados de Novembro, se realizaram preces na Colegiada e em outras igrejas da vila, pedindo sol, para se poder fazer as colheitas, que estavam uma grande parte por fazer, por causa das muitas e continuadas chuvas que tinham havido em todo o Outono, não se tendo recolhido uma terça parte do pão.
Esta crise iria prolongar-se até ao pino do Verão de 1839. No dia 1 de Agosto, Pereira Lopes escreveu no seu diário que aquele foi o primeiro dia de calor que houve neste ano (apenas tinha havido um ou outro dia mais quente) tendo havido na primavera e parte do estio chuvas e bastante frio.
O ano de 1847 foi igualmente terrível, mas, desta vez, por causa da falta de chuva. Por essa altura, ainda o cónego Pereira Lopes escrevia o seu diário. No mês de Julho, sucederam-se na vila as preces ad petendam pluviam, implorando-se por chuva, pois a seca e o calor tinham impedido que nascessem os restivos, não havendo esperanças de que as terras secas dessem fruto algum.
No dia 3 de Agosto, uma procissão correu as ruas, com algumas irmandades e bastante povo, pedindo que Deus Nosso Senhor desse chuva. Todos os dias havia orações nas igrejas, porque a seca era grande, a ponto de se recear uma grande falta de pão. Novas procissões percorreram as ruas da cidade no dia 5 e no dia 11. No dia 12, ao princípio da tarde, entrou em Guimarães a imagem do Senhor de Ínfias, acompanhada de muitas irmandades da aldeia e imenso povo, até das Caldas de Vizela e outras povoações, aos quais se lhe reuniu muita gente da vila. No dia 20, voltou a chover em Guimarães. No dia 25, a milagrosa imagem do Senhor de Ínfias, que tinha estado recolhida na igreja das Dominicas, regressaria à sua ermida, pelo mesmo caminho que percorrera quando viera para Guimarães, indo acompanhada por imenso povo, tanto da vila, como da aldeia, assim como com as mesmas Irmandades que a tinham acompanhado para a vila. Mas a inclemência do tempo ainda não tinha terminado: só no início de Outubro é que voltaria a chover em Guimarães, pondo termo a uma seca como já há muito tempo não lembrava.
As consequências tinham sido terríveis. Durante o mês de Agosto, tinha morrido, segundo Pereira Lopes, uma imensidade de crianças de bexigas e diarreias, havendo dias que morriam oito e dez. No dia 3 de Setembro, foram sepultadas três crianças, das muitas que tinham sido vítimas das moléstias da quadra, bexigas e diarreia. O cronista daqueles dias de desastre acrescentava que pessoas adultas tinham morrido algumas, mas não foram muitas, mas crianças não havia um só dia que não morressem muitas. As crianças eram, de facto, as mais vulneráveis às afecções de carácter infeccioso que facilmente se propagavam nos períodos de calor e de seca, em que as águas escasseavam e em que se recorria, muitas vezes, ao abastecimento com águas impróprias para consumo humano.
As contingências meteorológicas, especialmente as secas cíclicas que devastaram esta região em finais do século XIX, contribuíram significativamente para que se procurassem novas soluções de captação, condução, tratamento e distribuição de água susceptíveis de assegurarem o abastecimento público sem descontinuidades, minimizando os efeitos de crises que, no futuro, poderiam ter efeitos catastróficos.

In Mãe-d’Água — Centenário do abastecimento público de Guimarães, Vimágua EIM, Guimarães, 2007, pp. 74-76
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Museu Industrial de Guimarães (3)

Máquina da Fábrica de Tecidos a Vapor do Castanheiro, numa estereoscópia de 1908.
Ao final da tarde de 7 de Janeiro de 1900, domingo, acorreram à casa da Sociedade Martins Sarmento sete dezenas de industriais e comerciantes vimaranenses, para serem consultados sobre a conveniência da criação de um museu para exposição permanente dos produtos industriais do concelho de Guimarães. Por impedimento do presidente da direcção, Joaquim José de Meira, o encontro foi dirigido pelo vice-presidente, Domingos de Sousa Júnior, que, numa breve intervenção inicial, apresentou os objectivos da reunião e solicitou aos presentes que se pronunciassem sobre o projecto da criação e do museu e a sua disponibilidade de nele colaborarem.
A primeira intervenção coube a um dos fundadores da Sociedade Martins Sarmento, o advogado Avelino da Silva Guimarães que, em 1884, tinha lançado a ideia da criação de um museu das indústrias de Guimarães. O seu discurso, emotivo e esclarecedor, está resumida no jornal Ecos de Guimarães de 14 de Janeiro de 1900:
Treme-lhe a voz, quando fala da Sociedade Martins Sarmento. Não porque o atemorize o auditório — está muito habituado a falar em público; não porque lhe faltem palavras para exprimir os seus pensamentos — a frase sai-lhe sempre correctíssima; não porque esteja velho ou doente — rejuvenesce e avigora-se, quando está naquela casa; mas porque o entusiasmo do seu coração de patriota põe-lhe tremuras na sua voz de orador de raça. Deixemos, porém, estas considerações, filhas da verdade, que não da muita veneração, que temos pelo distinto cidadão, e vamos à súmula do seu belo discurso:
Depois de mostrar qual é o plano da direcção da S. M. Sarmento, começa por considerar que na muito numerosa reunião de pessoas presentes há muitas testemunhas dos motivos, que imperaram para se levar a efeito a exposição industrial de 1884. Em 1881 organizou-se no país um inquérito industrial, nomeando-se uma comissão no Porto, de que fazia parte o falecido estadista Oliveira Martins, a quem a indústria de Guimarães e do país muito deve pelo seu sistema proteccionista, pois é certo que desde então é que principiou esse grandíssimo desenvolvimento, especialmente, da indústria de tecidos de linho e algodão, o que não se leria dado, se continuassem a entrar os produtos da indústria estrangeira. Todos devem trabalhar por conservar este sistema de protecção das alfandegas à indústria nacional.
A tal comissão de inquérito, porém, foi nimiamente injusta para Guimarães. Do seu relatório chegava-se a concluir até que nesta cidade não havia um padeiro! (riso).
Era preciso responder às injustiças dessa comissão e daí a necessidade moral e económica da exposição industrial que a S. M. Sarmento, com o auxílio dos industriais da cidade e concelho, levou a cabo.
E foi honrosíssimo esse certame. Nele viu-se que Guimarães não só conservava as suas indústrias tradicionais, mas até que as aptidões dos artistas vimaranenses eram dignas de toda a protecção. Refere-se especialmente a exposição de cotins, feita pelo snr. António Guimarães, da Fábrica de Caneiros, e a um relógio, obra do falecido relojoeiro, José Jácome.
Graças a essa exposição, o concelho de Guimarães é considerado no país como um dos mais trabalhadores, e os nossos industriais, ouvindo o que se disse dela, criaram mais amor à sua indústria e trataram de a aperfeiçoar e desenvolver.
Acha muito bem o plano da criação da exposição-museu. António Augusto de Aguiar, quando ministro das obras públicas, foi o iniciador dos museus industriais no país. São um reclamo, um anúncio permanente, e um estímulo ao progresso industrial. Parece-lhe, portanto, que nenhum snr. comerciante ou industrial deve hesitar em aderir à proposta da digna direcção, e aplaudi-la, pois quem trabalha pelo público, sem remuneração, tem jus aos aplausos de todos.
Seguiu-se-lhe o médico Avelino Germano da Costa Freitas, também um dos iniciadores da Sociedade Martins Sarmento, que recordou a extinção dos museus industriais do Porto e de Lisboa, notando as vantagens na concretização da proposta da SMS, que teria, entre as suas principais vantagens, “o estímulo para o aperfeiçoamento dos produtos, que deve ser o motivo mais ponderoso para a criação do museu”.
Na intervenção que se seguem o industrial Eduardo de Almeida segue na mesma linha. Explica que, na sua opinião, os museus industriais oficiais “terminaram porque tinham à sua frente mercenários”, mas que o que agora se propunha para Guimarães se conservaria, por ser “instituído por uma sociedade benemérita”. Deu conta do seu entusiasmo em relação a este projecto, a “que ninguém deixará de aderir” e descreveu as vantagens que lhe encontra: “a do anúncio, a do estímulo e a da criação de um núcleo para se concorrer às exposições periódicas do país e, até, às exposições internacionais”. Seguidamente, enviou para a mesa uma moção, que recebeu aplauso geral e aprovação unânime, com o seguinte teor:
Os industriais do concelho de Guimarães, reunidos na casa da Sociedade Martins Sarmento a convite da sua direcção, aderem à resolução que a mesma tomou do promover a criação nesta cidade dum museu industrial, para a exposição permanente de produtos da indústria local, desejando auxiliá-la quanto possível na realização deste útil e importante empreendimento e concorrer à exposição com os produtos da sua indústria nos termos do regulamento que for elaborado; e por último manifestam o seu desejo de que se possa inaugurar o novo museu no próximo dia 9 de Março.

Por fim, falaram os industriais Simão da Costa Guimarães e José Pinto Teixeira de Abreu, o primeiro para dizer que achava que havia pouco tempo para se instalar o museu até ao dia da festa da Sociedade Martins Sarmento, a 9 de Março, e o segundo para dizer que não era contra a criação do museu, mas que “julgava melhor que se tratasse de realizar uma exposição industrial como a de 1884”. Em resposta, o vice-presidente da Sociedade, Domingos de Sousa Júnior, informou que “a direcção já havia pensado nesse importante assunto, sendo este museu o primeiro passo dado para esse empreendimento”.
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20 de novembro de 2017

O Museu Industrial de Guimarães (2)

Anúncio publicado no jornal Ecos de Guimarães de 6 de Janeiro de 1900.
A ideia de criar em Guimarães um Museu Industrial foi retomada pela Sociedade Martins Sarmento em meados de 1899. Em reunião da direcção realizada no dia 5 de Maio, um dos seus directores, Domingos José de Sousa Júnior, apresentou duas propostas: a primeira propunha a criação de um museu industrial, a segunda a organização de um museu colonial. Na primeira proposta, o autor começava por remeter para a ideia original, apresentada em 1884 por Avelino da Silva Guimarães, que lançou as bases para a criação de um embrião de museu das indústrias locais, com a exposição dos objectos que tinham sido oferecidos à Sociedade por industriais vimaranenses, após o encerramento da primeira exposição industrial concelhia. Depois de citar o relatório de actividades da SMS referente ao ano de 1885, que dava conta de que aqueles objectos já estavam expostos e de que se mantinha a aspiração da criação de um museu industrial, perguntava se aquele não seria já o tempo de concretizar aquele projecto:

São decorridos quinze anos desde a apresentação desta proposta e o diminuto pecúlio de produtos industriais do concelho é conservado na casa da Sociedade, sem que se tenha procurado levar por diante a realização de tão benéfica iniciativa.
E, todavia, se a importância da indústria vimaranense em 1884 era tal que permitia levar a efeito a exposição industrial concelhia, um dos maiores títulos de glória desta Sociedade que a promoveu, e fazia pensar na criação dum museu industrial, cuja falta já então era reconhecida, é certo que posteriormente essa falta tem sido notada cada vez mais o representa já hoje uma verdadeira e inadiável necessidade, em razão do desenvolvimento sucessivo dos diversos ramos da indústria local, principalmente nos últimos tempos, em que acompanhando o movimento geral do país procuram passar por uma completa transformação que lhes proporcionará um largo e esperançoso futuro.
Não será, pois, ainda oportuna a ocasião de tentarmos realizar esta antiga aspiração da Sociedade?
Na resposta a esta pergunta não poderá haver hesitação. Por isso proponho que para tratar deste assunto seja nomeada uma comissão de sócios, na qual tenham representação os principais ramos da indústria local.

A proposta de Sousa Júnior seria aprovada em reunião extraordinária da direcção da SMS, realizada no dia 19 de Junho daquele ano. Foi acolhida favoravelmente na cidade, nomeadamente pela Associação Comercial de Guimarães que, em 22 de Julho, enviou um ofício ao presidente da direcção da SMS, em que o felicitava “por tão louvável resolução, que a ser levada a efeito, como é de esperar, muito beneficiará esta terra, principalmente na parte respeitante ao museu industrial, por vir preencher uma importante lacuna, há muito tempo por todos reconhecida, no nosso activo e desenvolvido centro industrial”.
Nos meses que se seguiram, foi-se preparando uma reunião com os possíveis interessados na instalação do museu das indústrias vimaranenses, que seria definitivamente convocada para o dia 7 de Janeiro de 1900, e foi anunciada no jornal Ecos de Guimarães que se publicou na véspera da sua realização:

Reunião de industriais

A digna direcção da benemérita Sociedade Martins Sarmento convida hoje, em anúncio, que inserimos na secção competente, todos os comerciantes e industriais desta cidade a comparecer amanhã, pelas 5 horas da tarde, no edifício da Sociedade, a fim de se tratar da criação dum museu industrial.
Achamos acertadíssima esta resolução dos ilustrados directores.
Guimarães é, incontestavelmente, um dos centros industriais mais importantes do norte do país. E, diga-se, para honra dos seus promotores, é à exposição concelhia de 1884, que se deve em grande parte o assombroso desenvolvimento industrial da nossa terra.
As fábricas de tecidos do Castanheiro e da Avenida, a fábrica de Ilação de Campelos. as fábricas de pentes da Medroa e Caldeiroa, as fábricas de tecidos e de cutelaria, em construção, constituem uma grande riqueza para Guimarães. Mas é preciso que o viajante possa encontrar reunidos numa casa todos os produtos da indústria vimaranense, que tanto honram a iniciativa dos comerciantes e industriais desta cidade.
É, pois, de esperar que seja concorridíssima a reunião, que deve realizar-se amanhã.
Parabéns à direcção da Sociedade Martins Sarmento, a que preside o ilustre clínico vimaranense, snr. dr. Joaquim José de Meira, pela sua iniciativa, que, certamente, será coroada de bom êxito.
Ecos de Guimarães, 6 de Janeiro de 1900

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19 de novembro de 2017

O Museu Industrial de Guimarães (1)

Avelino da Silva Guimarães
Em 1881, o Estado português promoveu um inquérito industrial que teve como objectivo fazer o ponto da situação das indústrias portuguesas. Dos resultados do trabalho das comissões designadas para inventariarem o estado das indústrias do país, pode-se dizer que ficaram muito aquém do pretendido, traçando um retrato muito incompleto e irregular do estado das indústrias nacionais. Aliás, não seria de esperar outro resultado, já que os inquiridores apenas tiveram três meses para proceder às inquirições e apresentar as suas conclusões. No que toca ao concelho de Guimarães, a informação que se encontra no relatório é particularmente escassa e pouco sistemática, fazendo um retrato das indústrias vimaranenses que estava muito longe de corresponder à realidade já então existente. Foi para mostrar a verdadeira face do tecido industrial vimaranense que a Sociedade Martins Sarmento promoveu, em 1884, uma grande exposição industrial concelhia que ficaria a marcar um ponto de viragem no panorama económico, social e cultural de Guimarães.
Em de 1884, sob impulso da Sociedade Martins Sarmento, Guimarães começa a transpor, finalmente, os muros que a apartavam da modernidade. A indústria local entra na sua fase mais florescente, com fortíssimos investimentos em novos ramos de actividade e na modernização dos já existentes. É neste contexto que, ainda naquele ano, surge a ideia de criar um museu das indústrias locais, cujo conceito não encaixa bem na ideia que hoje temos dum espaço museológico, enquanto repositório de monumentos de existências extintas ou em vias de extinção. Este museu, em vez de um repositório de ferramentas e de produtos de modos de produção obsoletos, deveria assumir-se como uma exposição industrial permanente, onde se fosse mostrando o que de mais importante e de mais avançado se produzisse em Guimarães, em cada momento.
Encerrada a Exposição Industrial de 1884, diversos industriais que nela exibiram os seus produtos ofereceram à Sociedade Martins Sarmento diversos objectos que tinham estado expostos. No dia 4 de Julho daquele ano, o presidente da direcção daquela instituição, Avelino da Silva Guimarães, propôs que aquelas ofertas fossem conservadas, constituindo-se com elas o núcleo inicial dum futuro museu de indústrias de Guimarães. A proposta ficou registada na acta da reunião em que foi apresentada, e que foi publicada na Revista de Guimarães daquele ano (páginas 204-205), de onde a transcrevemos: 
Vários e mui distintos expositores têm prestado a sua espontânea homenagem à Sociedade Martins Sarmento, oferecendo-lhe alguns dos objectos expostos no palacete de Vila Flor. Decerto que a Sociedade os aceita com vivo reconhecimento, porque, se a homenagem traduz as simpatias dos expositores pela corporação que tem empregado todos os possíveis esforços para o melhoramento da indústria vimaranense, por uma série ininterrupta de medidas, de iniciativas mais ou menos arrojadas, até à abertura da Exposição, que pareceu a mais arrojada de todas, a oferta, reveladora das simpatias e do motivo que as provoca, é o melhor prémio aos esforços colectivos desta corporação.
A jornada da Sociedade não terminou ainda: é longo o caminho a percorrer, que no capítulo de instrução popular a satisfação duma aspiração logo cria outra, um aperfeiçoamento produz novas aspirações. Entre estas, virá a da criação de um museu industrial, onde a exposição permanente seja uma escola de largo ensinamento para as diversas classes de indústria. Sendo assim, e sendo aquelas ofertas a expressão de homenagem, os brindes valiosíssimos dos expositores parece-me que é absolutamente indispensável conservá-los, considerando-os como o primeiro núcleo, o primeiro e valioso pecúlio de futuro museu. Sobre isto, acresce que conservar na casa da Sociedade os objectos oferecidos é conservar o troféu desta última campanha, que condensa tantíssimos esforços, tão assíduos estudos, tantos serviços, trabalhos e despesas, prestados por esta colectividade no curto período da sua existência em prol do melhoramento das classes industriais de Guimarães.
Sendo, pois, não só o mais levantado e digno, como o mais conveniente aos fins legais da Sociedade, a conservação dos objectos oferecidos, tenho a honra de propor que assim se delibere, e se participe, agradecendo, aos mui dignos oferentes.

Os objectos entregues pelos industriais vimaranenses à Sociedade Martins Sarmento em 1884 foram colocados numa das salas da casa da instituição, como informa o relatório da direcção referente ao ano de 1885, onde se lê:
Noutra sala encontrareis também o pequeno pecúlio de produtos e amostras industriais do concelho, ofertas de alguns expositores de Vila Flor, negociantes e industriais deste concelho. Este depósito não constitui nem sequer um começo de museu; constitui apenas um convite a futura criação de museu industrial, revela somente uma aspiração desta Sociedade.
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18 de novembro de 2017

Guimarães na Exposição internacional do Rio de Janeiro de 1922-1923

O Pavilhão das Indústrias Portuguesas na Exposição Internacional do Centenário da Independência, Rio de Janeiro, 1923

A grande Exposição Internacional do Centenário da Independência, Rio de Janeiro, 1922, abriu as suas portas no dia 7 de Setembro de 1922. Naquela data, dos catorze países participantes, apenas cinco tinham os seus pavilhões concluídos. Entre estes estava Portugal, que marcaria presença com dois pavilhões. O principal, o Pavilhão das Indústrias Portuguesas, desenhado pelos arquitectos Guilherme Rebelo de Andrade, Carlos Rebelo de Andrade e Alfredo Assunção Santos, foi implantado no princípio da actual Avenida Churchill, fazendo esquina com a Avenida Presidente António Carlos. Os principais elementos que foram utilizados na sua construção foram preparados em Portugal, sendo transportados de barco até ao Rio de Janeiro. O encerramento da exposição estava inicialmente previsto para o final de Março de 1923, mas foi adiado para Julho, por força do atraso da abertura de boa parte dos pavilhões que estavam previstos. A inauguração do Pavilhão das Indústrias Portuguesas teve lugar no dia 21 de Maio de 1923. seria desmontado em 1929 e voltaria a atravessar o oceano, fazendo a viagem de regresso a Lisboa, onde foi reconstruído para acolher a Grande Exposição industrial Portuguesa de 1932. Em meados da década de 1940, passou a receber espectáculos desportivos, com a designação de Pavilhão dos Desportos. Em 1984 foi rebaptizado com o nome do primeiro atleta português que alcançou uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos. É o Pavilhão Carlos Lopes.
A indústria vimaranense marcou presença a Exposição Internacional do Rio de Janeiro de 1922, com destaque para quatro produções de Guimarães que foram distinguidas com medalhas de ouro: as fotografias artísticas da Foto-Eléctrica-Moderna, de Domingos Alves Machado, da Avenida Cândido dos Reis (actual D. Afonso Henriques), as fábricas de cutelaria Silva 5, de José Francisco da Silva, do Miradouro, e Moura 35, de José Ribeiro Moura, de Creixomil, e os couros e curtumes de José António de Castro, da rua de Couros.
Páginas da Ilustração Portuguesa n.º 905, sobre a inauguração do Pavilhão da Indústria Portuguesa na Exposição do Rio de Janeiro.
Da presença vimaranense na grande Exposição Internacional do Rio de Janeiro   de 1922-1923 encontrámos notícia no jornal vimaranense Gil Vicente, de 21 de Outubro de 1923:

As indústrias vimaranenses na Exposição do Rio de Janeiro — Prémios de honra 
No grandioso certame que foi a Exposição Internacional do Rio de Janeiro, realizada por ocasião do centenário da Independência e a que concorreram as indústrias da nossa terra foram premiados os seguintes expositores vimaranenses. 
Domingos Alves Machado, proprietário da Foto-Eléctrica-Moderna, classificado fotografia artística, —medalha de ouro.
José Francisco da Silva, cutelaria marca 5, com fábrica no Miradouro, —medalha de ouro.
Joaquim Ribeiro Moura, cutelaria marca 35, — medalha de ouro.
José António de Castro Guimarães, couros e pedes curtidas —medalha de ouro.
Estas justíssimas classificações são o orgulho maior dos nossos Industriais que, na Exposição Industrial e Agrícola Concelhia, mostraram ao país o valor da nossa terra de nobres tradições históricas e de trabalho.
Dove ser um estímulo a prosseguir na obra encetada, para bom nome de Guimarães e para maior expansão das nossas indústrias.
O “Gil Vicente” saúda os industriais premiados.
Gil Vicente, Guimarães, 21 de Outubro de 1923

No seu estudo sobre Guimarães nas Exposições Nacionais e Internacionais ("Curiosidades de Guimarães", XV, Revista de Guimarães, n.º 63, 1953, p. 428), apenas indica os prémios atribuídos aos industriais de cutelarias (registando que a medalha atribuída à firma Silva 5 seria de prata, e não de ouro, o que está conforme com o que se lê no Jornal das Taipas, de 25 de Outubro de 1923), nada dizendo acerca da restante representação vimaranense no certame do Rio de Janeiro de 1922-1923.
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17 de novembro de 2017

As árvores morrem de tristeza?

A fotografia de cima foi tirada no dia 19 de Abril deste ano; a de baixo é de hoje. As diferenças ferem o olhar. Do verde intenso da mancha de arvoredo que cobria o lado esquerdo da paisagem, quase nada se salvou — sobrou (até ver?) um par de árvores que, aparentemente, tiveram a fortuna de crescer fora da área de recreio da lagarta amarela que está a destruir o interior do quarteirão da Caldeiroa. Mas o que mais impressiona é a majestosa palmeira que compete em altura com a torre da Basílica de S. Pedro e espreita o Toural por cima de uma casa que, respeitosamente, se inibiu de crescer para não lhe tapar a vista. Viçosa na Primavera, está doente neste Outono. A morrer. Será que as árvores também morrem de tristeza?

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Cidade Super Bock.

Trecho da Avenida D. Afonso Henriques, Guimarães, às 11 horas da manhã do dia 17 de Novembro de 2017.
Nos últimos tempos, por força das sucessivas notícias de títulos, prémios, medalhas e distinções que a cidade tem recebido, tenho lido e ouvido associações de Guimarães à Super Bock, a cerveja que já não tem gargalo para tantas medalhas. A fotografia que acompanha este texto trouxe-me à memória essa associação, embora aqui ela seja menos simbólica e mais literal. A fotografia tirei-a agora mesmo, mas podia ter sido tirada ontem ou no dia anterior. Retrata um pequeno trecho da avenida Afonso Henriques e o que mostra pode ser visto por qualquer um, incluindo os muitos visitantes e turistas que descem dos hotéis ou da estação do caminho-de-ferro em direcção ao relicário onde se guarda o Centro Histórico, Património Mundial.
Já várias vezes, por diferentes vias, chamei a atenção para a falta de zelo na limpeza de ruas que ficam fora da redoma que protege o Centro Histórico. Outros têm feito o mesmo. Até porque várias dessas chamadas de atenção foram feitas de viva voz a quem tem responsabilidade nesta área, sei que chegaram ao conhecimento de quem as deveria conhecer. Infelizmente, tenho a registar que não produziram qualquer efeito.
Noto que nesta rua, todas as madrugadas, em hora incerta, se fazem escutar os famigerados sopradores, dos quais muito me tenho queixado, tendo mesmo formalizado uma queixa, que ficou registada na Polícia Municipal, da qual, passados dois anos, continuo à espera de resposta. Acordaram-me esta madrugada e nas madrugadas anteriores. A eficácia da limpeza que realizam é a que está patente na fotografia. Tanto barulho para nada.

(E não me venham dizer que não há outra maneira de limpar esta rua, 
onde há muito tempo que não passa a vassoura que, agora mesmo, varria a rua da Liberdade.)
Na campanha eleitoral, o presidente-candidato, agora reeleito, fez demonstrações solenes do seu comprometimento com as questões ambientais e apelou ao envolvimento dos cidadãos na construção de um futuro mais verde. Disse:
Desejo muito que cada vimaranense seja em Ecocidadão. Cidadãos de pleno direito, participativos, interventivos, críticos e com uma forte sensibilidade ambiental. Um defensor do ambiente é um defensor da sua terra, da sua identidade e da sua história.

Já vai sendo tempo de demonstrar que esse comprometimento é consequente e não apenas uma expressão da vã retórica tão frequente em tempo de caçar votos.

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