22 de maio de 2017

Dos parques de estacionamento e da sua necessidade


Há tempos, foi solicitada por um grupo de cidadãos a realização de um debate sobre o parque de estacionamento previsto para o miolo do quarteirão das ruas de Camões, da Liberdade e da Caldeiroa e da travessa que liga as duas últimas. Anuncia-se para hoje uma “sessão informativa sobre o projecto de execução do parque de estacionamento adjacente às ruas da Caldeiroa, Liberdade e Camões”, promovida pela Câmara Municipal. Não estou seguro de que essa sessão seja resposta àquela solicitação de cidadãos. ‘Sessão informativa’ afigura-se-me como algo diferente de ‘debate público’, parecendo revelar uma menor predisposição para uma discussão aberta e franca. Pode ser que esteja enganado. A ver vamos.
Em boa verdade, continuando a tomar pelas aparências, parece que esta iniciativa se configura para ser mais uma sessão de divulgação e propaganda do que debate esclarecedor e capaz de dissipar as muitas dúvidas que andam no ar. Como não estou certo de que os cidadãos tenham a possibilidade de colocar todas as questões que entendam dever ser esclarecidas, aqui deixo algumas.
Antes de mais, notarei que a disponibilidade para apresentar publicamente este projecto (divulgação que deveria ser assumida como obrigação da autarquia, sempre que estivessem em causa projectos susceptíveis interferirem com a vida dos cidadãos — e antes que estes produzam efeitos dificilmente reversíveis) chega tarde. Demasiado tarde para não ser confundida com uma iniciativa no âmbito de uma campanha eleitoral que já vai no adro. Ninguém pode ignorar que a maior força da oposição já apresentou uma proposta eleitoral que conflitua com este projecto e que teve significativa ressonância pública e mediática. Assumo que esta inquietação pode ser injusta, mas parece-me que não serei o único a alimentá-la. Se se trata de uma acção de resposta à proposta da oposição, e não ao pedido de um grupo de cidadãos, que lhe é anterior, é natural que se questione a mobilização de recursos da autarquia para essa iniciativa.
Estou seguro de que a apresentação do projecto, quanto à natureza do que se pretende construir, será competente e esclarecedora. Assim o garantem os nomes anunciados para a sessão que são pessoas cuja competência técnica ninguém de boa-fé colocará em causa. No entanto, confesso que, antes de quaisquer esclarecimentos sobre o projecto em causa, há questões que carecem de esclarecimento prévio que afaste todas as dúvidas.
A primeira será, obviamente, a da necessidade de mais parques de estacionamento pagos na cidade de Guimarães.
Julgo que esta questão será a mais fácil de responder. Basta para isso que se divulguem os estudos técnicos que sustentem tal necessidade, assim como as informações acerca das taxas de utilização dos parques já existentes.
Uma tão assertiva convicção, como a que por aí vai, de que há falta de oferta de estacionamento em Guimarães estará, necessariamente, fundamentada em estudos e dados quantificáveis. Não se percebe porque é que esses dados não são públicos.
Os únicos números que conheço, referentes à utilização da oferta de estacionamento disponível foram divulgados pelo jornal Mais Guimarães, cingindo-se, exclusivamente, ao estacionamento de rua, regulado por parcómetros. Esses dados, à falta de outros, autorizam que se conclua que a oferta de estacionamento disponível supera substancialmente a procura efectiva.
Desconhece-se qualquer informação quanto ao grau de utilização do estacionamento nos parques cobertos. Assim sendo, a única conhecimento de que dispomos é o que resulta do que os nossos olhos vêem. É certo que não será o mais objectivo, mas não temos outro. E o que nos mostra, com a força da evidência, é que, também aqui, a oferta supera largamente a procura. Note-se que estamos a falar de parques que ficam, no máximo, a uma confortável meia dúzia de minutos, a pé, do Toural ou do Centro Histórico.
Um dos argumentos que têm sido esgrimidos para justificar a necessidade de mais estacionamento no centro urbano de Guimarães prende-se com as tão propaladas fragilidades do comércio local, cuja solução seria mais, e mais próximo, estacionamento. Esta ideia de fragilidade resulta de simples observação empírica ou já foram feitos estudos que demonstrem a relação de causa-efeito entre a suposta falta de estacionamento e a tão afirmada debilidade do comércio local?
É que, mais uma vez, não obstante velhas ideias feitas, o que vemos não nos dá assim tantas certezas quanto à natureza da moléstia e à eficácia da panaceia receitada. Olhemos para o que aí está. Se há locais onde o comércio exibe sinais de decadência são os centros comerciais Santo António, Palmeiras e Triângulo. Porém, nos três casos, o que não falta por lá é onde estacionar. Todos têm parques de estacionamento próprios. Maior proximidade deve ser difícil conseguir em qualquer outro local da cidade. E, no entanto…
Outra questão que era importante ser esclarecida é a que resulta de um anúncio recente. Num tempo em que o parque da Caldeiroa já era dado como irreversível, foi anunciado que a Câmara tinha encomendado um estudo de viabilidade da construção de novo(s) parque(s) de estacionamento na Alameda e no Campo da Feira. Tal anúncio gerou perplexidade, instalando uma dúvida: será que se equaciona construir mais estacionamentos, para além do parque da Caldeiroa, ou será que o estudo encomendado visa tentar encontrar uma melhor alternativa para ele?
Há muito que esclarecer, portanto. A começar pelas prioridades de investimento no nosso concelho. Provavelmente, já vai sendo tempo de começar a pensar, de um modo mais consistente e articulado, Guimarães como um todo.
Vivemos um concelho onde há jovens que têm que recusar estágios profissionais por falta de transportes que lhes permitam chegar em tempo útil aos locais onde essa oferta existe. Um concelho onde, pela mesma razão, há pessoas que se vêem obrigadas a recusar ofertas de emprego. Salta aos olhos que Guimarães tem um sério problema de mobilidade em transportes públicos. Não obstante, dispõe-se a investir, na construção de parques de estacionamento, dinheiro público afecto a programas de mobilidade. Ora, salvo melhor opinião, estamos perante um contra-senso gritante. Mobilidade não é sinónimo de estacionamento. É o contrário.
Até que me demonstrem algo diverso, continuarei a defender que Guimarães não carece de investir em mais estacionamento no centro da cidade. Em Guimarães urge pensar o concelho como um todo e a definir políticas e projectos que favoreçam a sua coesão territorial.


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Os padrões de Guimarães, por Jerónimo de Almeida

Padrão da Vitória, numa estereoscópia de Antero Frederico de Seabra (1858)

Aos monumentos por onde já passaram as suas Breves considerações arqueológicas (Castelo, Muralha, Paço dos Duques e Igreja da Oliveira), Jerónimo de Almeida ainda acrescentou dois “de somenos importância arqueológica”, na sua opinião: os padrões (Senhora da Vitória e D. João I) e a antiga Casa da Câmara. Reproduzimos agora o primeiro artigo, publicado no jornal Alvorada de 1 de Abril de 1911, dedicado aos padrões. Aí trata do Padrão de D. João I (também conhecido por Padrão de S. Lázaro e Padrão dos Pombais) e do Padrão de Nossa Senhora da Vitória, que celebra a vitória em Aljubarrota, ao qual, apesar dos esforços do historiador de Guimarães Fernando Teixeira, se persistem, erradamente, em chamar de Padrão do Salado. Jerónimo de Almeida não incorre nesse erro, que no tempo dele ainda não tinha sido perpetrado.

Breves considerações arqueológicas — V

Padrões

Dois padrões se admiram em Guimarães e que são igualmente considerados monumentos nacionais, — o de Nossa Senhora da Vitória e o de D. João I.
O de Nossa Senhora da Vitória, situado junto do adro da igreja de Nossa Senhora da Oliveira, fora mandado ali erigir no reinado de D. Afonso IV. É composto de quatro arcos ogivais pousados em colunas com capitéis de folhas e figuras grotescamente esculpidas, encostadas a grossos pilares de cantaria que, em cada ângulo, suportam a abóboda do padrão, tendo no vértice de cada arco o brasão de armas usado por aquele rei. Posteriormente à sua construção colocou-se no arco do fundo, a partir dos capitéis, um altar de estuque, envidraçado, consagrado à imagem da Senhora da Vitória e que comemora também, como a gótica restauração do templo, a famosa vitória de Aljubarrota. Dentro do padrão ergue-se um elegante cruzeiro, para ali transferido no ano de i38o, como se lê numa inscrição gravada na sua haste (M.CC.LXXX), (pois que até então estava fora, junto da antiga oliveira), com o Crucificado e várias estátuas de santos: na frente, de Nossa Senhora, de S. João Evangelista, de S. Dâmaso e S. Torcato; no verso, de Nossa Senhora do Rosário, de S. Filipe Apóstolo e S. Gualter. Tem ainda este cruzeiro na base um escudo de armas portuguesas. Aos lados do altar vêem-se dois baixos-relevos alusivos um à visita de D. João I a este padrão, outro a um milagre atribuído à Virgem e que naquele lugar se dera.
Padrão de D. João I, numa estereoscópia de Antero Frederico de Seabra (1858).
O de D. João I acha-se ao fim da rua deste nome, em frente à capela de S. Lázaro, evocando uma das piedosas romagens que, segundo a tradição, este devoto monarca fizera a Nossa Senhora da Oliveira. É formado de quatro pilares quadrados, sem lavores arquitectónicos, em que assenta a abóbada de pedra também e dentro levanta-se o cruzeiro de alvo mármore, com a cruz rendilhada. Este padrão, depois de ter já sido restaurado, foi mudado da pequena distância de alguns metros para o local que actualmente ocupa, em 1863, com o fim de melhorar o alinhamento da rua.
São estes dois históricos padrões, incomparavelmente mais valiosos que quaisquer outros que por aí se ergam, merecedores da nossa desvelada conservação, não pelo significado religioso que representam, mas porque são outros tantos documentos históricos de que honrosamente falam os velhos arquivos desta terra. A luz bruxuleante e mortiça que de noite os alumia parece querer ressuscitar os tempos místicos e românticos da meia-idade, prenhes de crenças, de superstições e tiranias!
Jerónimo de Almeida.

Alvorada, 1 de Abril de 1911
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21 de maio de 2017

A Igreja da Oliveira, por Jerónimo de Almeida (conclusão)

Fachada da igreja da Oliveira (pormenor), numa estereoscópia de Antero Frederico de Seabra (1858).

Na conclusão das Breves considerações arqueológicas que dedicou à Igreja da Colegiada, Jerónimo de Almeida trata, essencialmente, do pórtico e do janelão que o encima, onde, segundo sustenta, faltaria uma “rosácea central de coloridos vitrais, que foi despedaçada e substituída por uma parede de cantaria com quatro óculos de tamanho desigual”. Sobre tal rosácea e os seus vitrais, já muito se escreveu. Ramalho Ortigão, por exemplo, que, tal como Herculano, desancou o restauro da década de 1830, fala numa “flamante janela gótica, que por cima da porta, na fachada do templo, fazia explodir em apoteose a policromia do espelho, emoldurado na sua larga cercadura esculpida de silvados, historiada de estatuetas de santos em fantasiosos ressaltos de mísulas, sob rendilhados baldaquinos”. Ora, até hoje, ainda não tenho nenhuma evidência de que essa “flamante janela gótica”, com “coloridos vitrais”, tenha algum dia existido.

Breves considerações arqueológicas — IV (Conclusão)

Nossa Senhora da Oliveira

Existe num dos lados da porta lateral da esquerda um túmulo antigo assente em dois leões de pedra, com uma inscrição na caixa, como também um outro se oculta atrás do órgão, servindo de base à janela sobre a porta principal, e que representa uma figura deitada sobre almofadas (parecendo esculpido em pedra Ançã) com vestígios muito apagados de incrustações de tinta e ouro, e uma inscrição.
Abandonando, consequentemente, o interior do corpo da igreja, sob cujas guarnições e relevos correctamente dourados não imaginaríamos sequer, se o não soubéssemos de antemão, que se ocultam tantos primorosos lavores arquitectónicos, apenas nos resta analisar a fachada da mesma igreja, que nem essa! escapou à vandálica reforma.
Num relance de vista geral notar-se-á logo a deformação do cunhal do lado sul, que fora rematado com uma pilastra jónica, modificando assim exteriormente a estrutura primitiva dessa fachada.
O pórtico é composto de esbeltas colunas fechadas em arcos ogivais, coroado por uma grande e delicadíssima janela toda rendilhada, com esculturas, mísulas e baldaquinos, servindo de caixilho à rosácea central de coloridos vitrais, que foi despedaçada e substituída por uma parede de cantaria com quatro óculos de tamanho desigual. Eis um dos maiores crimes praticados naquele monumento, sendo o primeiro que resulta aos olhos de quem , e um dos que cava mais fundo desgosto. Dessas janelas, que são um dos primores ornamentais da arte gótica, tínhamos ali um raro exemplar que se poderia equiparar aos dos templos portugueses, nesse estilo (como alguns que nomeei), ou ainda às formosíssimas rosáceas de Notre Dame, de Amiens, de Chartres e de Reims (França), de Estrasburgo, de Colónia (Alemanha), e outras mais. Interiormente foi atrancada com o pesado órgão.
As portas laterais são encimadas por janelas de sacada, que igualmente não são da restauração de D. João I, sendo as do sul as mais modernas.
Adulterada completamente a antiga construção na harmonia subtil das suas linhas de conjunto, ficou unicamente para a... decepção de vindouros a desastrosa e nunca assaz deplorada reconstrução do século XVIII [aliás, século XIX - AAN].
Resta, somente, falar da torre que se ergue a noroeste da igreja e que fora mandada edificar por Pedro Esteves Cogominho e sua mulher (1513), não sendo a do tempo de D. João, pois que essa caíra em ruínas. É nos baixos dela que sob uma abóboda de pedra se encontram os túmulos de seus fundadores, lavrados em pedra de Ançã, com duas características estátuas jacentes, em trajes de gala, no costume da época, tendo à cabeceira um altar. Hoje acha-se escorada a abobada desta capela, que já se desmoronou em grande parte, destruindo os preciosos mausoléus!
Ao ilustre cabido da Colegiada, a quem certamente cabe velar pela conservação destas relíquias antigas, aproveito o ensejo de dirigir aqui as minhas palavras de magoado protesto pelo irreparável desleixo cometido, causa de que dentro em pouco não reste mais dessa capela do que um montão de entulho! É necessário que nem todos os olhos sejam cegos diante deste solene desprezo por obras de arte de valor histórico, chegadas ao mais adiantado estado de ruina.
Não é a minha erudição, sem dúvida, (seria desvanecimento), que vem lamentar este enorme desastre, mas a minha veneração por essas interessantes jóias do passado.
E para terminar este sucinto e ligeiro trabalho de tão minguado préstimo, exclusivamente inspirado no amor à minha terra, devo repetir e de novo esclarecer que não foi meu intento mais que despertar o sentimento de apreço e dedicação por estas relíquias antigas, como são as de que vim tratando, e que um crime e condená-las ao esquecimento e abandono de que resulta a ruína.
O meu desejo seria poder antever, ainda que num futuro distante, o ressurgimento artístico de Nossa Senhora da Oliveira; mas em vez de palavras de entusiasmo eu não encontro senão palavras de descrença e desilusão, e amarguradamente penso que isso — era uma verdadeira utopia...
Jerónimo de Almeida.
Alvorada, 18 de Março de 1911


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20 de maio de 2017

A Igreja da Oliveira, por Jerónimo de Almeida

A igreja da Senhora da Oliveira de Guimarães no início do séc. XX. Na parede da torre, ainda são visíveis as marcas do antigo fontanário, desmontado em 1904.

Prosseguindo com as suas Breves considerações arqueológicas, Jerónimo Sampaio dedicou dois textos à igreja de Nossa Senhora da Oliveira, a Colegiada. No primeiro, que agora reproduzimos, publicado no jornal Alvorada de 11 de Março de 1911, aborda a história do monumento e das reconstruções e restauros de que foi objecto ao longo dos séculos, dando especial ênfase ao seu desamor pela “vandálica reforma” a que o Cabido mandara proceder na década de 1830, e que Alexandre Herculano disse ser obra da “torrente de barbária que alaga este país tão rico de recordações, recordações que tantos ânimos envilecidos pretendem fazer esquecer”, que tinha emparedado a identidade gótica da igreja, recobrindo-a com mármores fingidos e dourados, de que se livrou no restauro do início da década de 1970.

Breves considerações arqueológicas — IV

Nossa Senhora da Oliveira

O vetustíssimo templo erguido pela condessa Mumadona no ano de 919, proximamente, anterior, portanto, à fundação da nacionalidade portuguesa, foi sucessivamente reconstruído e beneficiado elo conde D. Henrique e seu filho D. Afonso, apesar das vicissitudes por que passou com os assaltos guerreiros de sarracenos e muçulmanos que, por duas vezes, o despojaram de preciosas relíquias, até ao reinado de D. Joao I, o qual, em comemoração da celebrada batalha de Aljubarrota, o mandou restaurar com sumptuosidade não inferior à do mosteiro da Batalha, em 1387. Assinala esta grandiosa restauração do monarca uma inscrição em pedra mármore, com caracteres góticos, no frontal da igreja, ao lado da porta principal e que está traduzida em caracteres latinos numa outra pedra sobreposta, ambas coroadas pelo escudo desse rei, sustentado por dois anjos.
Este templo que primitivamente era conhecido por Santa Maria de Guimarães foi lhe alterado o nome para Santa Maria da Oliveira, no ano de 1031, sendo tradição que a derivação deste título proveio de que nos começos do século XIV fora trazida de S. Torcato uma oliveira que se plantara junto da igreja e que secando a princípio, subitamente reverdecera, copando se de novas folhas, o que foi tido como um milagre, ligando-se assim o nome da árvore ao do Senhora a quem era consagrado o templo.
Conquanto a obra ordenada por D. João não atingisse o esplendor artístico da Batalha, antes fosse muito inferior, o certo é que a igreja por ele restaurada gozou dum grande prestígio entre as demais do país, constituindo mais uma bela manifestação desse primoroso estilo gótico, que na Idade Média levou ao apogeu a arquitectura ocidental.
Antes de entrar no estudo e apreciação da obra desse glorioso fundador, convém elucidar da vandálica reforma a que nos anos de 1830 mandou proceder o cabido, alegando que a fábrica da igreja ameaçava ruína.
Estava no espírito da época destruir o gracioso e rico estilo gótico — considerado bárbaro desde o período da renascença, até princípios do século passado, como o significa o próprio Rafael ao Papa Leão X — substituindo-o pelo clássico Luís XVI. Só posteriormente se reconheceu o merecimento artístico desse formoso estilo, que também se denominou ogival, pela forma lanceolada de seus arcos árabes, mas quando já enormes desastres, como este, se haviam cometido.
Vista parcial da nave central da igreja da Oliveira. À esquerda, como ficou depois do restauro da década de 1830. À direita, após o restauro de 1970-71, que devolveu o monumento à sua traça original. 

Procurando, pois, com o olhar torturado, destrinçar a obra arquitectónica do século XIV, da desastrosa restauração dos fins do século XVIII [aliás, década de 1830 - AAN], ir-se-ão pouco a pouco desvendando os irremediáveis e profundos golpes que o templo sofreu externamente, porque internamente não nos é dado sequer entrever as mutilações selvagens que lhe infligiram com o camartelo, para o cobrirem de madeira e cal!
Começando, assim, pela análise do claustro românico que corre ao lado da igreja, de nascente a sul, e que data do século XIII. anterior ainda à reedificação do Mestre de Avis, notar-se-á que se compõe de elegantes, embora pequenas, colunas, de curiosos e variadíssimos capitéis, com estilizações de folhas, espigas e carrancas. No grosso das paredes são abertos vários túmulos, entre os quais um maior tendo uma estátua jacente, com o hábito talar em que costumavam ser esculpidas. Existem ali duas capelas, uma de S. Brás, com o tecto abobadado e dois mausoléus também com estátuas de pedra (estando um deles tapado pelo altar!); e a de S. Pedro com porta e janelas de cada lado, formadas em arco, sendo estas de graciosos colunelos geminados.
A ligeira reparação que há poucos anos realizaram nesses claustros foi não só incompleta mas imperfeita, — pois que deixaram toda a cal que cobre as paredes, como também um friso de madeira imitando pedra que as guarnecem; um retábulo de madeira num dos túmulos que servira de altar; e cimentaram, enfim, o pavimento que devia ser lajeado!
Passando daqui ao interior da igreja, vê-se que é formada de três espaçosas naves divididas por altas colunas que deveriam ser lindos espécimes góticos, na folhagem de seus capitéis e elegância de suas ogivas, o que tudo foi mascarado e mutilado, sem dúvida, pela infeliz restauração no estilo da época, que, aliás, obedeceu a uma correcta factura. São-nos vedados, portanto, todos esses primores de arte, de que pelo país existem alguns exemplares como o mosteiro da Batalha e de Alcobaça, a Sé de Évora, etc., entre os quais estava incluída a nossa Colegiada. Também devem ter desaparecido os azulejos, representando milagres da Virgem, que revestiam as paredes porque, enfim, a obra de reconstrução foi completa, transformando o precioso templo medieval na igreja modernizada e dourada, que é a amargurada decepção dc todos aqueles que admiram e veneram as coisas de arte.
Jerónimo de Almeida

Alvorada, 11 de Março de 1911
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19 de maio de 2017

O Paço dos Duques, por Jerónimo de Almeida

Fachada  do lado do Poente do Paço dos Duques (à direita), no início do século XX


O terceiro capítulo das Breves considerações arqueológicas de Jerónimo de Almeida trata do Paço dos Duques de Bragança, tal com o ele o conhecia no início da segunda década de 1920: as ruínas de um palácio que nunca acabou de ser construído e que ia servindo de aquartelamento militar, cujo corpo voltado para o lado do nascente, com os seus magníficos janelões góticos, permanecia como a memória do que aquele edifício poderia ter sido, mas que nunca chegou a ser. As fotografias que escolhemos para ilustrar esta incursão arqueológico ajudam a perceber a realidade que Jerónimo de Almeida descreve.

Outra vista da fachada  do lado do Poente do Paço dos Duques, no início do século XX


Breves considerações arqueológicas — III

Paço dos duques de Bragança

Data do século XIV este agigantado e sólido edifício que fora mandado construir pelo primeiro duque de Bragança D. Afonso, filho do rei D. João I, e que em diversas gerações foi a nobre residência desses legítimos fidalgos.
Tendo servido de aquartelamento a vários corpos militares desde o ano de 1807, deu este facto origem a sucessivas e, por vezes, profundas reformas no vasto edifício, lesando assim quase totalmente a primitiva construção, restando, todavia, intacta e em estado de ruínas a mais bela parte dele.
A geral crueza de linhas e o aspecto desataviado de arquitectura que reveste as suas paredes não traduz, certamente, o luxo interno de que se deviam cercar esses grandes senhores da meia-idade.
Este palácio formado em quatro corpos, tendo ao centro um largo pátio, apresenta no frontal interior do corpo que olha para nascente um lindo pórtico composto de oito colunatas de mármore branco, sob graciosos capitéis em que assentam os respectivos arcos de ogiva, e ligava outrora com outras dependências que foram destruídas e ocupavam esse pátio. Dentro e logo defronte deparam-se os formosos janelões que, como o pórtico, representam uma delicada manifestação de estilo gótico.
Era ali a casa nobre desses paços, onde se davam brilhantes recepções a soberanos portugueses. Não é de estranhar, portanto, que fosse ordenado no artífice estilizar a frieza do granito em contornos floridos e esbeltos naquelas janelas, através de cujos vidros se coariam ondas claras e aniladas de luz que banhariam esses ricos aposentos.
A fachada exterior desta parte do edifício é constituída de três corpos salientes e dois reentrantes, rematando os das extremidades grandes cachorros que sustentavam largas varandas. Coroam estas paredes quatro chaminés de tijolos bem conservadas ainda e dispostas simetricamente.
Fachada do lado do Nascente do Paço dos Duques, no início do século XX. Em primeiro plano, casas da antiga rua de Santa Cruz.
Por dentro da parede que defronta com o pátio sobem estreitas escadas que davam acesso aos diversos andares (cujos pavimentos deixaram escritos vestígios nessas paredes) estando hoje, em parte, obstruídas. Na fachada para nordeste restam também algumas janelas que deviam ser o modelo das restantes de todo o edifício e que foram alteradas.
Porque esta é, realmente, a parte mais interessante e artística do velho palácio, para ela dirigi de preferência a minha atenção e aqui manifesto o meu desejo, por amor da arqueologia desta terra, — de que se poupe às reformas utilitárias e de lesa-arte, porque é um documento raro, entre nós, do florescente estilo gótico.
Essas contínuas e sensíveis modificações que sofreu este edifício, como já referi, não nos permitem actualmente fazer uma nítida ideia do que fosse primitivamente, na sua completa estrutura, apenas nos deixam entrever que ele era de proporções mais grandiosas do que se encontra. As esguias escadas em espiral do corpo de sudoeste são mais um curioso motivo de interesse. Pouco resta de original dentro deste; as necessidades da vida de caserna transmudaram inteiramente todo aquele enorme interior, aproveitando lhe unicamente as paredes de robusta espessura.
Contudo, a sobriedade, que era o característico deste palácio, patenteia-se perfeitamente e não será fácil mesmo apear pedra a pedra tão sólida construção!
Jerónimo de Almeida.

Alvorada, 4 de Março de 1911
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18 de maio de 2017

A muralha, por Jerónimo de Almeida

A muralha de Guimarães no início do século XX.

No segundo texto das suas Leves considerações arqueológicas, publicadas no jornal Alvorada, no início de 1911, quando a República portuguesa ainda estava a dar os seus primeiros passos, Jerónimo de Almeida debruça-se sobre o que ainda sobrava da muralha dionísia, que se ergueu para cercar e proteger o burgo medieval vimaranense. Um texto que é um precioso testemunho da consciência da importância da preservação do património histórico, que já naquele tempo prevalecia em Guimarães, e que não dava grandes concessões ao advento da mentalidade supostamente modernizadora que, noutras paragens, ia dando uso ao camartelo para derrubar tudo que era velho e inútil.

Breves considerações arqueológicas — II

Os muros da cidade

Desse antigo cinto de muralhas erguidas pelo rei D. Dinis e que outrora apertavam o casario do burgo de Guimarães, raros vestígios existem hoje de pé que nos possam descrever a linha que seguiam. O único trecho visível delas ainda, ladeia a estrada de Fafe desde o campo da Feira à ura de Santa Cruz, e é digna de notar-se a sua bela conservação. A porta que há tempos lhe abriram foi um sinal de alarme para a velha construção, estimulando novos vandalismos! Poupe-nos o município de Guimarães, lembrando-se que do passado é um nobre dever conservar memórias; compreendo que esses muros não têm utilidade prática, mas utilidade histórica, e em nada prejudicam o moderno aformoseamento da cidade, antes são um contraste pitoresco. Arrasem aqui o que de antigo e curioso perdura e veremos a cidade reduzida a meia dúzia de casas sem arquitectura nem elegância, numa esquadria monótona. De moderno só possuímos, que se recomende e de subido valor — o edifício da Sociedade Martins sarmento. Nada mais.
E esta forte razão vem secundar ainda a primordial — que é a razão arqueológica de se proceder a uma desvelada conservação e restauração da arte antiga nos monumentos ou qualquer padrão menos valioso, mas igualmente testemunho duma época histórica. Cumpre, portanto, como sagrada devoção de patriotismo, não derrubar esse curto trecho de muralha que aí ressurge [de] lutas heróicas e sangrentas.
Idêntica reconstrução àquela que aconselhei falando do castelo, devia efectuar-se nestes muros, desnudando as suas ameias da caliça e pedra que encobrem muitas delas, e assim melhor ressalte a sua beleza, quando à distância essas ameias de granito semelham o gume dentado duma serra.
Para fazer se uma vaga ideia do que outrora fosse, completamente intacta, essa arrogante defesa da vila, basta lembrar a área que percorria o pano dos seus muros, partindo do lado sul do castelo pela rua de Santa Cruz abaixo, estrada de Fafe, Trás-o-Muro até ao Toural (onde no alto dos quais o povo desfrutava as corridas de toiros que fora se exibiam, então), rua de Santo António, estrada dos Palheiros acima até se ligarem de novo pelo lado do poente com o castelo. Tinham umas nove portas e vários torrilhões e de dentro deles se fazia a defesa da vila, como tão heroicamente o provaram esses portugueses coevos do princípio da nacionalidade, na Idade Média.
E para que se ateste sempre ufanosamente — berço da pátria portuguesa, esta linda terra — é necessário e indispensável que esses raros documentos ancestrais ainda hoje vigentes, embora em estado de ruína, se conservem e se venerem, porque Guimarães, mesmo com verdejantes jardins e airosas ruas, terá sempre que considerar-se, pelo seu carácter predominante, não uma cidade moderna geometricamente delineada, — mas uma cidade caracteristicamente medieval, do tempo dos grandes senhores do feudalismo, descendentes directos dos cruzados, com o seu alcácer, o seu templo gótico, as suas casas brasonadas e os seus alpendres...
E não se depreenda que eu sou um amante de velharias, um ingénuo bricabraquista armazenador de alfarrábios com capa de pergaminho, loiça barata da Índia e jóias falsas de filigrana... Pretendo unicamente que se respeite a arqueologia da minha terra, no culto da Arte, como este povo amava e ama ainda os seus ídolos e os seus santos...
Jerónimo de Almeida.
Alvorada, 18 de Fevereiro de 1911

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17 de maio de 2017

O Castelo, por Jerónimo de Almeida

O Castelo de Guimarães no início do século XX
 No início de 1911, Jerónimo de Almeida publicou no jornal republicano vimaranense Alvorada, uma série de textos com o título genérico Breves Considerações Arqueológicas, em que descreveu diversos monumentos de Guimarães, dando diversas sugestões para os procedimentos a aplicar para a sua preservação. Estas estas prosas do poeta das Estrelas que se apagaram são muito interessantes. No entanto, se outro interesse não tivessem, são bons retratos do estado em que se encontravam no início do século XX os documentos de que trata.
O primeiro monumento sobre o qual Jerónimo de Almeida se debruçou foi, naturalmente, o castelo de Guimarães. Aqui fica.

Breves considerações arqueológicas — I

Castelo

O vetusto castelo de Mumadona, que sendo depois propriedade do Conde D. Henrique o herdara o nosso 1.º rei, no estado actual em que se encontra assim tem atravessado longos anos de vigorosa existência, sob as agrestes inclemências atmosféricas.
A sua ruína, portanto, é relativamente pequena visando a sua antiguidade.
Contudo, encontrá-lo-íamos mais conservado e completo se (como diz o Padre Caldas no Guimarães) grande porção de pedra que fazia parte do paço não fosse aplicada na construção do convento dos Capuchos, nos anos de 166..., por vandalismo dos seus frades. Este facto profundamente deplorável ainda nos deixou, para memória, a parede exterior que liga com as muralhas e onde existem as simples janelas romanas, com uma coluna ao centro e assentos de pedra interiores.
O estado do mais, conforme se encontra, não parece ameaçar derrocada, tão extraordinariamente sólida era aquela monumental construção de pesado granito! A sua original beleza perdura e perdurará através de muitas gerações, se o nosso desvelo e amor pelas preciosas relíquias do passado nos não abandonar. Elias encarnam um feixe de tradições e são um símbolo de glórias, e à face delas conseguimos desvendar os mistérios que obscurecem, por vezes, o heroísmo de nossos antepassados. Conservá-las, por isso, é, além dum dever patriótico, uma revelação de apreço à arte e à história, ou, sintetizando — à arqueologia.
Mas não devemos apenas contentar-nos em contemplar a graciosa silhueta das suas torres esbatidas nos cambiantes de fogo dum crepúsculo outonal, e sim devemos visitar temporariamente esse castelo roqueiro, como quem se interessa pela saúde duma pessoa idosa. Amemo-lo como berço do fundador da nossa querida Pátria e como a mais rara preciosidade da nossa terra, porque é o maior titulo de orgulho que nós indicamos aos visitantes, o melhor brasão de nobreza da heráldica de Guimarães.
E eu não pretendo mais que atear na alma de todos os meus patrícios esse afecto e esse carinho pelo que nos legou o passado épico. Não basta conhecer a História, é necessário amá-la; como? — cuidando dos padrões que ela imortalizou. Se deixássemos desmoronar-se esse velho alcácer num montão de escombros silenciosos, todo esse período longínquo se ofuscaria na nossa memória e em breve duvidaríamos das afirmações históricas que lhe dizem respeito. Até a letra da mesma história apenas narraria, aos nossos olhos, uma vaga lenda de inacreditáveis proezas guerreiras, e o próprio D. Afonso passaria talvez a ser uma espécie de D. Quixote, mais corajoso e menos fantasista...
Evocar, nessas ruínas pitorescas, uma época remota, é receber uma lição emocionante dos tempos medievais, dando-nos a conhecer, cronologicamente, esta intensa e constante evolução social — material e moral.
Eu simplesmente quero frisar, de passagem, (tão pouco permite-o bem a minha erudição) quais as reparações ou reconstruções que há a realizar naqueles muros que, pelo andar dos tempos, vários arquitectos têm adulterado. Basta-me, para isso, uma fácil percepção que indica o seguinte:
— Tirar dos vãos das ameias, sobre as muralhas, a argamassa que as encobrem em parte, desvanecendo-lhes a graça; destruir uma pequena casa contigua ao paço e edificada sobre o adarve, que a alguém pode suscitar dúvidas na sua origem, pois que tentaram imprimir-lhe o carácter da antiga construção, nas portas em arco; mudar o paiol da pólvora dali para fora, alagando igualmente a casa que a guardava; limpar, finalmente, tudo o que esteja mascarando o antigo monumento na sua primitiva forma.


O paiol do antigo Regimento de Infantaria 20, no Castelo.
Seria ingenuidade desejar uma nova vida ao que o tempo enrugou; isto equivaleria a querer infiltrar o vigor dos 20 anos a um velho de 80. Restitua-se-lhe unicamente a sua originalidade, sem profanar o mais, e esta é uma obra bem singela.
A escada interior da torre de menagem foi renovada completamente, podendo-se, portanto, subir ao alto dela e desfrutar o soberbo panorama.
Conquanto isto se não prenda com estas leves considerações, não me posso esquivar à tentação de repetir uma vez mais, o que por outros tem sido proclamado, de que um belo melhoramento da Câmara seria arrasar esses míseros casebres que circundam o castelo, fazendo assim com que ele ressaltasse em toda a sua esplêndida nudez, sobre as rochas que lhe servem de poderosos alicerces. Esta obra exterior viria completar a interior que eu venho aconselhando, impondo-se desde logo. Não desespero, contudo. Mas quando este melhoramento se realize, inste a nossa Câmara junto do Ministério da Guerra para que este outro, dentro do monumento, se efectue a par e, assim, a obra seja completa. É questão de um pouco mais de amor à terra. E porque esses monumentos são a documentação viva da história e a factura artística dum povo, esta demonstração de acrisolado culto será apenas uma justa prova de patriotismo, num novo aspecto.
Como esses cacos e inscrições lapidares que sábios, escavando no solo, descobrem e que vêm aclarar os espíritos nas investigações das eras romanas, quando esses povos atravessavam a península espalhando as sementes duma civilização que brilhara na Guerra, na Conquista e no Direito, — assim em tempos posteriores, que as cruzadas à Terra-santa precederam, essas ruinas, ainda tão expressivas, nos vêm renascer o século XII do princípio da nossa nacionalidade, com o seu aspecto denegrido, como bronze, e a sua hera ramalhetando-o.
Têm aparecido nos terrenos adjacentes ao castelo, no sítio dos fossos, várias moedas que eu tive ocasião de ver, e nalgumas das quais se distingue o escudo das quinas, uma cruz, e numa delas apenas os algarismos 80, de que se pode deduzir o ano 1080. Devia-se, por este motivo, proceder a uma cuidadosa escavação nesses fossos hoje soterrados, e as moedas ou utensílios descobertos entregá-los à Sociedade Martins Sarmento.
Jerónimo de Almeida.
Alvorada, 11 de Fevereiro de 1911
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16 de maio de 2017

Grandes melhoramentos municipais, por Jerónimo de Almeida

Jerónimo de Almeida, jovem. Caricatura de José de Meira, da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento.

O poeta vimaranense Jerónimo de Almeida, irmão de Eduardo de Almeida, publicou em Fevereiro de 1932, no então muito jovem Notícias de Guimarães (ainda mal completara um mês de existência), uma crónica “sem monóculo” em que descreve uma descida à cidade, pela avenida que desce da estação, num dia em que estavam a ser abatidos os velhos plátanos que davam sombra à avenida, com o propósito de a modernizar. Entusiasmado com tal afã modernizador, o poeta imagina mais umas quantas que poderiam ser feitas, a avenida com bananeiras e o rio de Couros convertido num Grande Canal à veneziana, onde não faltariam as gôndolas...

Aqui se deixa.


SEM MONÓCULO

Grandes melhoramentos municipais!


Vinha eu talvez a meio da Avenida (que, para não faltar a esta insípida mania de vulgaridade, se chama Cândido dos Reis), quando os meus passos se detiveram em frente dum montão de árvores que se encontravam estendidas no seu leito, neste caso mortuário, visto tratar-se de as inutilizar. Perguntei que azáfama era aquela em deitar os velhos plátanos abaixo, ao que logo me responderam com ar de satisfação — que era para modernizar a mesma Avenida com nova disposição de passeios e outros atavios, que muito a haviam de aformosear.
Como justamente o meu fraco é ver tudo em desordem na casa dos outros, isto é, dar-se que fazer ao operariado e remexer em tudo cuja estética nos não satisfaz — esfreguei as mãos de contente e dei os parabéns ao meu interpelado, como quem o fazia à própria vereação municipal. Ali mesmo indaguei quem era o actual camarista do pelouro das obras, para com ele me entrevistar, logo que oportuno fosse. Então a minha fantasia começou a idealizar uma autêntica Avenida do Barão de Rio Branco (sem prédios, é claro) tendo, em vez dos plátanos, altas bananeiras, donde penderiam formosas cachos de deliciosas bananas para os vimaranenses saborearem nas suas sobremesas! Grandes globos modernos jorrariam luz em todo o seu percurso, enquanto por baixo do arco românico que sustém o pavimento da Avenida, o pequeno ribeiro que lá corre se transformaria em Grande Canal, com românticas gôndolas venezianas para as noites de luar...
Foi assim, meio abstracto em minhas divagações, que meus olhos deram com uns míseros pardieiros à esquerda, logo ao descer do passeio, a que se encostava uma pequena fonte sem água, para os animais se dessedentarem... Para quem vinha a sonhar palácios e maravilhas, hão-de concordar que é um pouco forte! Deixei aquelas misérias e segui, vagarosamente, por entre uma estranha malta de gente, que, como num bairro judeu, se catava ao sol, enquanto um bando de crianças sujas descascava laranjas sobre o passeio. Estive para chamar um polícia, mas não vendo nenhum, prossegui o meu caminho.
Ao alto duma parede branca — em que julguei vislumbrar um vestígio da histórica muralha — berrantes letras de reclame gritavam, em cores vivas, “Vacuum Oil” e cartazes ambulantes estacionavam por ali, atraindo os frequentadores do Cinema. Os engraxadores regalavam-se a ver quem passava, fitando-me o calçado como os alfaiates contemplam o nosso fato e os chapeleiros o chapéu. Como nunca me preocuparam estes pormenores — a não ser pelo seu lado cómico, pois se levo o calçado sujo sei que ninguém me paga para o mandar limpar e se o fato está coçado ninguém me dá outro — relanceei um olhar indiferente à minha volta e encarei com o D. Afonso. “Então por aqui!” estive eu para murmurar, usando do cumprimento que mais propriamente deveria partir de seus brônzeos lábios cerrados em muda, mas eloquente expressão de altivez. É que estranhei não ir encontrá-lo para as bandas do Castelo, do seu Alcácer fortificado, erguido no topo da colina que se avistava da estação do C.º de Ferro. Com franqueza, não estava no seu lugar numa praça com toda a feição moderna, todo o ar civilizado de hoje. Os monumentos devem ter um ambiente próprio, um cenário adequado que lhes não amesquinhe nem o aspecto nem a significação. Em meu entender — e deve ser este, sem vaidade, o mais criterioso — se o Toural tinha uma Fonte decorativa, que foi deslocada há bastantes anos para outro largo da cidade, era essa Fonte ou Chafariz que devia ostentar-se naquela praça, embora actualmente ajardinada, pois muito bem lá ficariam as suas bicas a jorrar água, sendo um motivo de beleza ouvi-la a cair — além de que se respeitava a tradição. Dizem-me que o D. Afonso já dera um pequeno passeio doutro lugar para ali; pois foi pena que o não desse maior, para junto do Castelo, porque era lá onde devia estar.
A propósito lembrou-me que, suponho na maioria das cidades do país, existem hoje Comissões de Estética, devendo ser elas unicamente que devem orientar toda a realização de obras públicas, evitando deste modo se cometam os mais deploráveis erros em toda a casta de empreendimentos municipais, particularmente no que respeita a aformoseamentos. É preciso ter sempre em vista, uma Câmara que procura embelezar a sua terra, não faltar nem ao respeito que se deve aos monumentos históricos, nem à boa plástica das suas novas construções; destruir apenas aquilo que se tornou inútil ou cujo estado ruinoso e pobre carece de demolição. Mas as linhas características duma cidade antiga não devem ser substituídas com novidades quase sempre péssimas em valor arquitectónico. Não modernizemos, aperfeiçoemos, o que é coisa muito diferente. Uma relíquia restaura-se e não se adorna com enfeites impróprios da época que representa. É assim que se faz hoje em dia nos países mais civilizados e eu podia recordar aqui algumas cidades no norte da França e outros países, que tão comovedoramente falam do passado, e onde a cada canto há uma curiosidade que nos atrai nos prende e faz meditar.

Jerónimo de Almeida
Notícias de Guimarães, 22 de Fevereiro de 1932
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15 de maio de 2017

Querer ganhar na secretaria

A selecção portuguesa de futebol em 1935

Recentemente, alguém se lembrou de refazer as contas dos títulos de campeão nacional de futebol, passando reivindicar, para o seu clube, mais quatro títulos do que aqueles que as estatísticas oficiais lhe atribuem. Mais recentemente ainda, houve sinais de que um outro clube teria aderido a essa tese que, a confirmar-se, obrigaria a refazer todas as contas, incluindo aquelas que nós aqui fizemos acerca da história do Vitória Sport Clube enquanto primeiro clube do Minho a competir na primeira divisão do futebol lusitano. Ora aí está algo que precisa de ser conferido.
O argumento que pretende sustentar esta revisão da estatística e da história do futebol nacional baseia-se na afirmação de que o campeonato nacional de futebol, a que hoje se chama Primeira Liga, terá começado a disputar-se em 1921-22, e não em 1934-35 como, até aqui tem sido universalmente assumido — até pelos clubes que agora defendem a revisão do palmarés.
Para tentar aclarar a questão, folheemos a história do futebol nacional.
Até à década de 1940, a organização do futebol nacional era, a todos os níveis, muito incipiente. Em 1921 (aliás, em rigor, em 1922) começou a ser disputada uma competição designada “Campeonato de Portugal” que, ao contrário do que o seu nome pode sugerir, estava muito longe de ser um torneio nacional: no primeiro ano, a prova resumiu-se a um jogo, que foi disputado entre os campeões distritais de Lisboa e do Porto. Nos anos seguintes, o número de clubes e, consequentemente, de eliminatórias da prova, variou. A partir de 1934-35, o figurino estava consolidado: a taça era disputada por 14 clubes, repartindo-se quatro fases (oitavos, quartos, meias, final).
Na época de 1934-35, começou a disputar-se uma outra competição: o Campeonato da Liga (aliás, a designação mais utilizada era a de “Campeonato das Ligas" — e nunca ninguém a chamou de “Campeonato da I Liga Experimental”, como agora corre por aí, vá-se lá perceber porquê). Esta competição repartia-se por duas ligas. A primeira tinha carácter fechado, sendo disputada, a duas voltas, por oito clubes de quatro distritos (4 de Lisboa, 2 do Porto, 1 de Coimbra, 1 de Setúbal). A segunda, mais aberta, começou por ser disputada por 32 clubes, repartidos por 4 zonas e 8 grupos. A organização deste campeonato era assumida pela Federação Portuguesa de Foot-ball Association.
Na altura, o modelo da prova foi criticado, pelo seu carácter fechado, que impedia que clubes “da província” nela competissem. No final da primeira edição da prova, o crítico desportivo Salazar Carreira escrevia na edição de 16 de Maio de 1936 revista Ilustração, a propósito deste campeonato:
Quanto a nós, o regulamento que o rege apresenta, sob o ponto de vista desportivo, um único defeito: não estabelecer dum ano para o seguinte o direito de ascensão à 1.ª Liga ao vencedor da 2.ª Liga.
Por se tratar duma experiência, aceita-se que no primeiro campeonato se estabelecesse taxativamente quais os competidores admitidos à prova máxima; depois, porém, de verificado o interesse que a prova despertou no meio, a liberdade de acesso a quem a conquistasse por valor próprio seria um novo atractivo para o público e um estímulo para os clubes que lutam no desejo de afirmar a sua classe.
Por aqueles dias, a época desportiva começava em Janeiro, com os jogos do Campeonato da Liga, que se estendiam até Maio, seguindo-se-lhe, em eliminatórias disputadas em semanas sucessivas, o Campeonato de Portugal.
Com o tempo, a Liga transformou-se na competição futebolística nacional que despertava mais interesse e paixão. Em 1938, eram recorrentes as sugestões de que em Portugal se deveria assumir formalmente o modelo já adoptado em países onde o futebol ia um pouco mais à frente: uma prova a duas voltas, o campeonato nacional, em que todos jogavam contra todos, e outra, uma taça disputada por eliminatórias. É o que defende, por exemplo, Salazar Carreira, na Ilustração de 1 de Julho de 1938:
Desde a criação do Torneio da Liga, o interesse da temporada dividiu-se pelas duas competições e têm surgido opiniões de que deveria ser àquela prova atribuído o título de campeonato nacional, ficando para o actual campeonato a designação de Taça de Portugal, seguindo se assim a norma adoptada nos principais países europeus.
Achamos o critério muito razoável e bem poderiam modificar-se nesse sentido as disposições da regulamentação oficial; isto, com vistas ao futuro e sem qualquer influência presente. Desta simples hipótese ao facto de considerar já campeão de Portugal o vencedor da Liga, vai uma distância que só se justifica pela razão de fazer do desejo realidade.
Este modelo passou a aplicar-se a partir de 1939, sem que nada de relevante se tenha alterado na orgânica competitiva até aí adoptada — à excepção do nome das provas, claro. Num congresso federativo realizado em 1938, foi decidido, como se lê no primeiro número de 1939 da revista Ilustração, “a transformação do Torneio da Liga em Campeonato Nacional, mantendo-se os antigos preceitos que o regiam”.
No dia 8 de Janeiro daquele ano, data em que começaram os jogos da “nova” I Divisão do Campeonato Nacional, Silva Tavares deixava claro, na sua crónica no Diário de Lisboa, que não havia nenhuma novidade na nova prova:
A prova que hoje começou a disputar-se, organizada pela Federação Portuguesa de Football, com a denominação de “Campeonato Nacional — I Divisão” só difere do antigo campeonato da I Liga... no nome. Em tudo o mais, ela é idêntica ao torneio que se disputou durante quatro épocas, com princípio em 1934-1935, e que veio valorizar, sem dúvida, o nosso “football”.
Se o modelo da prova continuava a ser o que fora adoptado em 1934-35, as críticas também o eram, como escreverá o mesmo Tavares da Silva no dia seguinte:
Campeonato nacional—aquilo que começou ontem? Será designação de aceitar?
Já o dissemos. Já argumentámos como convinha. Não, e não. Nacional? Porquê, se o torneio é fechado a oito clubes — os oito felizes — representando quatro Associações, as quais, ainda que mais importantes, não gozam do monopólio da prática do “football-associativo”?
Assumida a alteração do nome do antigo Campeonato da Liga, em Março de 1939 a Federação decidiu alterar a designação da competição por eliminatórias que se realizava desde 1922, até aí conhecida como Campeonato de Portugal. Passou a chamar-se Taça de Portugal. No mais, nada se mudou: continuou a ser a prova que encerrava o calendário futebolístico anual, antecedendo o defeso, disputada por 14 clubes e repartida por quatro fases (oitavos, quartos, meias, final).
A primeira alteração no modelo competitivo verdadeiramente relevante apenas aconteceu na época de 1945-46, em que passou a haver subidas e descidas de divisão, deixando a I divisão do campeonato nacional de ser uma prova fechada.
Do que fica dito, facilmente se conclui que, entre 1934-35 e 1945-46, a única mudança relevante que afectou o modelo organizativo do futebol português foi de natureza meramente cosmética. Apenas se mudaram os nomes das competições. O Campeonato da Liga passou a chamar-se Campeonato Nacional de Futebol e o até a, designado Campeonato de Portugal assumiu o nome que ainda hoje mantém: Taça de Portugal.
Assim sendo, nada há a mudar na história do Vitória Sport Clube. Foi o primeiro clube do Minho a competir na primeira divisão do futebol nacional. Ponto final.
Quanto aos que agora pretendem conquistar quatro títulos na secretaria, o melhor é tratarem de os ganhar em campo. Ao ritmo a que têm andado nestes últimos 35 anos, pode ser que lá cheguem no século XXII...

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14 de maio de 2017

O Vitória, no tempo do foot-ball (1927-1932)

Em tempos recentes, tem havido uma tentativa de revisão da história do futebol em Portugal, com um clube, o Sporting, a reivindicar que lhe sejam atribuídos mais quatro títulos de campeão nacional, e, aparentemente, com um outro, o F. C. Porto, a aderir aos seus argumentos. Como esta revisão, a ser assumida, implicaria alterações em cascata na história do ludopédio nacional, que afectariam muitos clubes, nomeadamente o Vitória Sport Clube, que deixaria de ser o primeiro clube do Minho a participar no campeonato nacional de futebol (sendo ultrapassado pelo Braga, pelo Vianense e pelo Fafe) fui em busca de informações que possam esclarecer a questão, tendo verificado que não tinha publicado nestas Memórias a segunda parte de um trabalho sobre o nascimento e os primeiros passos do Vitória Sport Clube que escrevi, respondendo a um desafio do meu amigo Miguel Salazar, que ilustrou os textos com cartoons magníficos. A primeira parte está aqui: O Vitória, no tempo do foot-ball (1922-1927). A segunda, fica aí abaixo.

Cartoon de Miguel Salazar
Criado no Outono de 1922, no início de 1927 o Vitória Sport Clube era uma agremiação desportiva em vias de consolidação e em condições de começar a disputar a hegemonia do seu principal rival no distrito, o Sporting Clube de Braga. Tinha resolvido o problema das instalações, ganhara “músculo” após a fusão com o Atlético Sport Clube, acabara de vencer o campeonato distrital de infantis. O futuro apresentava-se promissor. Todavia, os tempos que se seguiram foram, em tudo, o contrário do que seria previsível: durante cinco longos anos, o Vitória entrou num processo de declínio que parecia anunciar a sua extinção e o futebol, enquanto modalidade de competição, deixou de ser praticado em Guimarães. 
António Macedo Guimarães, fundador e primeiro presidente do Vitória.

Os sinais da crise já eram visíveis nos primeiros dias de 1927 e estão descritos na página de desporto de A Razão, o jornal republicano onde colaborava Heitor da Silva Campos, fundador e presidente do então já extinto Atlético Sport Clube, de quem falaremos mais à frente. Essa secção desportiva aparecia com uma ambição declarada: fazer prevalecer o desporto em Guimarães, suster-lhe o declínio e erguê-lo de novo à culminância a que tem direito. Num texto programático, assinado por um tal Siul, em que se procurava responder à pergunta: como compreender o constante progresso do “Desporto” em todo o nosso país e como permitir a sua decadência em Guimarães?. Aí ficaram registadas as dificuldades que estrangulavam o desenvolvimento do desporto vimaranense, contrariando “os enormes sacrifícios de meia dúzia de rapazes cheios de boa vontade”, como Afonso da Costa Guimarães, Heitor da Silva Campos, Gualberto Pereira, Eduardo Passos e António Macedo Guimarães”, e se apontaram as causas daquela “quase decadência”: a apatia e as dificuldades financeiras, “o problema que a todos assusta e faz medo”. Segundo o articulista, não bastava que a direcção do Vitória se desse por satisfeita em pôr dinheiro do seu bolso. Impunha-se o apoio dos poderes públicos, nomeadamente da Câmara Municipal, à imagem do que se via acontecer noutras terras. Para tanto, seria necessário que os directores do clube fossem mais lestos e mais “fura-paredes” na busca de soluções para os problemas com que se confrontavam. Mas, ao que se percebe, também eles já estariam contaminados pela apatia geral.
Num segundo artigo, no mesmo número da A Razão, o comentador desportivo que assinava com o pseudónimo de Penalty, batia na mesma tecla: “que o sport em Guimarães atravessa uma crise acentuada, e entrou em franca decadência” era uma verdade reconhecida e incontestável. Segundo o jornalista, 1926 marcou, indiscutivelmente, o declínio desportivo no meio vimaranense, a contracorrente do que se via acontecer por todo o lado:
Quando em toda-a-parte, no país como no estrangeiro, nos grandes centros como nas mais humildes terreolas, o sport avança e progride, embora à custa de sacrifícios por vezes bem pesados, Guimarães que teve também já um período de relativo progresso desportivo, recua, cede terreno, e entra numa fase regressiva inexplicável.
O autor apontava dois motivos principais para a situação a que se tinha chegado: “a apatia dos dirigentes desportivos e a falta de apoio e de auxílio da massa do público”, sendo que o primeiro motivo era a razão de ser do segundo (o desmazelo da Direcção do Vitória acarretou também, e em larga escala, o desinteresse, o arrefecimento, o desânimo da massa popular pelas coisas desportivas).
E era impiedoso em relação à actuação da direcção do clube:
No dia em que os dirigentes desportivos desta terra, que se encontram à frente da Direcção, encarem a sério e com vontade o seu papel de dirigentes e não de comparsas, trabalhando a valer e com ânimo, o sport em Guimarães tornará aos seus dias de esplendor.
Nada disto se tem feito, porém. Lamentámos até que criaturas tão respeitáveis como as que se encontram à frente daquele clube não reconheçam a triste e inglória figura que estão fazendo e que nada depõe em seu favor. Tendo por eles uma consideração ilimitada, esta não nos desobriga, antes pelo contrário, do dever que temos de falar a direito, por forma a que nos ouçam e atendam as reclamações e os queixumes daqueles que, como nós, não compreendem a razão deste marasmo, deste desmazelo desportivo em que se vai vivendo uma vida artificial, sem finalidade, sem grandeza.
A Direcção do Vitória tem o dever de trabalhar, e não de fingir que trabalha. Quem aceita cargos da natureza daqueles que os membros do Vitória aceitaram, sem coacções, antes por livre e espontânea vontade, ou trabalha a valer dando satisfação à confiança que outros neles depositaram e correspondendo ao compromisso moral que contraíram para com o Club ao aceitarem o encargo, ou então recolhem-se a casa, a tratar doutros assuntos em que sejam mais diligentes.
Na edição do Pro-Vimarane da primeira quinzena de Maio de 1927, o cronista desportivo, que assinava com o pseudónimo Luar, lançava um apelo: “abandonemos, pois, a inércia, a indolência, a preguiça, o sono — e mãos à obra. Vamos fazer saber de Norte a Sul, que Guimarães dentro em pouco, vai educar fisicamente os seus compatriotas”.
Notícia do último jogo de futebol no Campo da Perdiz (Jornal Conquistador, 1 de Março de 1928).

 

O último jogo no campo da Perdiz

Por aqueles dias, o Vitória recuperara a designação de Sport Club de Guimarães e era administrado por uma direcção provisória, que parecia empenhada em arrumar a casa, chegando a anunciar que tinha riscado de sócios todos os que tinham quotas atrasadas há mais de quatro meses, os quais seriam readmitidos se regularizassem a sua situação na Chapelaria Macedo até ao final do mês de Maio. Porém, nem os apelos ao despertar desportivo vimaranense, nem a acção dos directores do Vitória produziriam os efeitos desejados.
Outras causas eram apontadas para a decadência do futebol em Guimarães. Uma delas tinha a ver com a falta de organização e de disciplina dos jogadores do Vitória dentro das quatro linhas. Numa crónica de A. S. Lobo, publicada na Velha Guarda em Outubro de 1928, notava-se que a receita para o sucesso dentro do campo era a figura do capitão, “um homem a quem se obedece, para haver, em campo, ou fora dele, o máximo respeito. Porém, em Guimarães não era assim. Em vez de mandar um, mandavam todos. Da ausência de uma voz de comando que se fizesse ouvir e respeitar teria resultado a decadência do desporto favorito dos vimaranenses. O que faltava ao Vitória era a figura tutelar do treinador.
A direcção do Vitória Sport Clube tivera, a seu tempo, consciência dessa deficiência, tendo sido noticiado, em Março de 1927, que iria encetar negociações a fim de conseguir um entraineur experimentado para o seu clube. A notícia está no Ecos de Guimarães, com o seguinte comentário:
Há muito que esta necessidade se impõe. Havendo, como há, entre nós, rapazes de boa vontade, com indiscutíveis aptidões, chega a causar mágoa vê-los jogar sem uma orientação definida, à mercê do capricho de cada um. Creia a direcção do Vitória que o conseguir-se esse entraineur será o primeiro e mais seguro passo para o sport em Guimarães tornar a ter uma época de esplendor e de grandeza.
Porém, não seria ainda nessa altura que o Vitória encontraria o seu primeiro treinador. As tentativas de ressurgimento do clube desenvolvidas pela direcção do Vitória não tiveram qualquer sucesso. Longo seria o ocaso que se seguiria. Extinto o fulgor dos primeiros anos, Guimarães deixou de ter representante nos campeonatos distritais e o futebol foi-se apagando das páginas dos jornais da terra.
O último jogo no Campo da Perdiz de que temos notícia aconteceu no dia 19 de Fevereiro de 1928. Era Domingo Gordo, mas a assistência, o jogo desenvolvido e o resultado foram magros. Defrontaram-se, em desafio amigável, as primeiras equipas do Sport Clube de Guimarães e do Estrela Sport Clube, de Braga. A equipa vimaranense, que não pode contar com três dos seus melhores elementos (Constantino, Ferreira e Abílio), jogou remendada com reforços de Vizela, alinhando com Zeferino; F. Ribeiro e Benjamim (cap.); Mário, Fernandes e Costa; Salgado, M. Ribeiro, Oliveira, Silvério, Albano. O jornal O Conquistador publicou um curioso relato do jogo, onde avaliava a prestação das equipas. Sobre a performance dos vimaranenses, escreveu o cronista:
Zeferino nada teve de extraordinário; a bola que deixou entrar não tem desculpa possível. Chutada com pouca força, mergulhou tardiamente e de barriga para baixo, o que é um erro. F. Ribeiro, um elemento de Vizela que jogou aqui pela primeira vez, agradou plenamente no seu lugar de back. Benjamim bem no princípio, decaiu no final. Mário e Costa bem. O primeiro precisa de variar o seu jogo, não se limitando só a passar jogo à sua ponta. Para o final os de Braga já lhe conheciam essa maneira de jogar. Fernandes, fraco. Salgado bem, só com o defeito de jogar muito atrasado. M. Ribeiro, o melhor de todos os jogadores em campo. Oliveira, deslocado do seu lugar, não conseguiu brilhar. Silvério outro elemento de Vizela, fraco, muito fraco mesmo, fazendo-se notar só pela maneira como se coloca. Albano, mal. 


Automobilismo, ciclismo e gincanas de jericos

Daí para a frente, só teremos notícia do Campo da Perdiz enquanto palco de torneios de tiro aos pombos que, com a nova moda das gincanas, as corridas de bicicletas e o automobilismo viriam preencher o espaço deixado vago pelos jogos de futebol nas tardes de domingo. Por aqueles dias, as gincanas na parada das novas instalações dos Bombeiros, recentemente inauguradas no Proposto, eram a coqueluche da moda no que toca a espectáculos desportivos. Com percursos e obstáculos cuidadosamente preparados, havia-as de automóveis, de bicicletas, de motocicletas, de patins e, até, de jericos. Funcionavam como meio de distracção pública e fonte de receita para a corporação dos Bombeiros Voluntários. A primeira gincana, para veículos automóveis, teve como vencedores Belmiro Jordão, na categoria masculina, e a sua irmã Júlia Jordão, na categoria feminina. Belmiro Jordão viria a destacar-se como piloto desportivo, o que levaria o jornal Velha Guarda a vaticinar, no seu número de 14 de Setembro de 1930, que o seu nome ficará gravado nos anais desportivos da nossa terra e marcará acentuadas honrarias para a velha Vimaranis”. Como curiosidade, registe-se que a primeira gincana de jericos de Guimarães aconteceu no dia 2 de Junho de 1929 e teve como vencedor um jumento montado por José Gilberto Pereira. Os restantes lugares no pódio foram ocupados por José António Martins Sequeira Braga e António Freitas.
No Outono de 1928, anunciou-se em Guimarães a fundação de um novo clube desportivo que nascia para despertar as energias mortas, colocando Guimarães, em matéria de desporto, a par das cidades congéneres. Ao dar a notícia, o Ecos de Guimarães de 3 de Novembro, testemunhava que devido à boa vontade que vemos pulsar no coração moço desses rapazes cheios de boa vontade e entusiasmo, que não se pouparão a sacrifícios para levarem por diante tão simpática iniciativa. Nascia o Grupo Desportivo Atlético Português, liderado por Humberto Guimarães Pinheiro. Quando se anunciava que procurava uma casa para instalar a sua sede, Rui Lencastre sugeria, nas páginas dos Ecos de Guimarães de 10 de Novembro de 1928, que a prioridade deveria ser outra: o primeiro passo a dar seria antes o arrendamento do campo de jogos da Perdiz, que é relativamente barato, e que está sem arrendatário desde há tempos pela liquidação infeliz do grupo desportivo existente nesta cidade. Note-se que, naquela altura, o Vitória era dado como “liquidado”.
O Grupo Desportivo Atlético Português encontraria a sua sede, mas não seguiria o conselho de Rui Lencastre, que afirmara que “não se pode compreender um grupo com esta finalidade sem um campo de jogos: é o mesmo que um corpo sem pernas, ou um livro sem folhas”. O Campo da Perdiz não seria arrendado e a esperança do ressurgimento do desporto em Guimarães, por obra desta agremiação, seria gorada. O Desportivo Atlético não seria mais que um fogo-fátuo: a única iniciativa que lhe conhecemos é a da festa da inauguração do retrato do seu presidente, descerrado na sua sede, com um copo-de-água e entre brindes entusiásticos, no dia 21 de Maio de 1929
Entretanto, o futebol voltara à sua anterior condição de divertimento do rapazio. Durante anos, as únicas notícias sobre o ludopédio que encontrámos nos jornais vimaranenses são pequenas notas de protesto contra grupos de rapazes acusados de perturbarem o sossego público com jogos de futebol, ora no Toural, ora noutros largos da cidade. Coisa de mariolões, a quem o trabalho não enobrece, como um dia se leu nas páginas do Comércio de Guimarães. A partida de Bernardino Faria Martins para o Congo Belga, em finais de 1928, para se dedicar à carreira comercial, também ajuda a explicar o apagamento do futebol das páginas dos nossos jornais. Assinando na crónica desportiva com o pseudónimo Sérgio Vidal, tinha sido, desde 1922, um dos principais promotores da causa do desporto, em geral, e do futebol, em particular, em terras de Guimarães.
Carlos Machado, principal entusiasta da instalação do Campo do Benlhevai.


Ressurgimento no Benlhevai

1932 seria o ano do renascimento do futebol em Guimarães. Em meados de Janeiro, a recém-criada Sociedade de Defesa e Propaganda de Guimarães, dirigiu à Comissão Administrativa da Câmara Municipal um documento, subscrita por várias instituições culturais, desportivas e de ensino, em que se demonstrava a conveniência da criação de um campo destinado ao desenvolvimento dos desportos, reputados úteis à educação física da juventude. A localização sugerida era a do Campo do Salvador, que nós hoje conhecemos por Campo de S. Mamede, não implicando mais do que pequenas obras de adaptação (uma ligeira terraplanagem e o levantamento de um parapeito, pouco mais que à altura do solo, marginando a estrada). O aparelhamento do campo, que o dotaria de balneário, vestiário, mictórios e bancadas, ficaria a cargo de uma empresa que nasceria para o efeito. Assim se criariam condições adequadas à prática de diferentes modalidades desportivas, ao mesmo tempo que se daria aos referidos terrenos uma aplicação inteligente, tirando-lhe aquele ar tão destoantemente maninho que oferecem, dada a sua incorporação nas balizas da cidade. 

Notícia do jogo inaugural do Campo do Benlhevai (Notícias de Guimarães, 1 de Fevereiro de 1932).
No entanto, por aqueles dias já algo se movia em Guimarães. O Vitória Sport Clube, renascia das cinzas. A sua direcção, constituída por meia dúzia de rapazes que, segundo o recém-nascido Notícias de Guimarães, não nadavam em dinheiro, tendo em Carlos Machado o principal impulsionador, metia mãos a um grande empreendimento, e dotava Guimarães com um campo de jogos apto para a prática de várias modalidades desportivas. Situava-se dentro da cidade, a curta distância do Toural, num terreno arrendado entre a Casa do Proposto e a Escola Industrial, e seria o palco da recomposição do Vitória Sport Clube enquanto elemento central a identidade vimaranense. Esse seria o palco do ressurgimento do Vitória, que aí iria celebrar uma impressionante série de títulos de campeão distrital e tornar-se no primeiro representante do Minho no campeonato nacional de futebol.
Equipas do Vitória (de preto) e do Académico do Porto, que alinharam no Benlhevai no dia 29 de Maio de 1932 (resultado 0-1).
O desafio inaugural do campo do Benlhevai aconteceu na tarde de 24 de Janeiro de 1932, sendo apadrinhado pelo Sport Comércio e Salgueiros, do Porto, e abrilhantado pela Banda da Oficina de S. José. O pontapé de saída simbólico, testemunhado por uma multidão de três mil espectadores entusiastas, foi desferido pela menina Crisanta Moura Machado. Das incidências do jogo encontrámos relato detalhado no Notícias de Guimarães. O Vitória alinhou com Adélio; Benjamim e Manuel Rita; Armando, Mário e António; Antunes, Velha, Constantino Lameiras, Camilo e Virgílio. Para a história ficou um resultado desequilibrado: Vitória, 1 – Salgueiros, 6. Apesar do desfecho desfavorável ao clube da terra, o desafio terminaria no meio da geral satisfação do público. Havia motivo para celebração: o futebol estava de regresso a Guimarães.
Dali para a frente, praticamente não haveria domingo sem futebol. Até ao final de 1932, o Vitória disputou quarenta jogos, 32 no Benlhevai, 8 fora de portas. Averbou 17 vitórias, 14 derrotas e 9 empates, marcou 75 golos e encaixou 85. Começava a ganhar balanço para o grande salto em frente que estava para acontecer.
No final da época futebolística de 1931-1932 (que, em Guimarães, foi pouco mais do que meia época, uma vez que tinha começado a 24 de Janeiro), o comentador desportivo de O Comércio de Guimarães, Francisco Formiga, fez o seu balanço dos 29 jogos realizados até 30 de Junho, produzindo estatísticas muito curiosas.
Embora a época de foot-ball fosse um pouco curta, motivada pelo pouco tempo que aqui o sport produz, não deixou de ser verdadeiramente interessante, escreveu o comentador. O Vitória realizou 21 jogos em Guimarães e 4 fora, contando 9 vitórias, 3 empates e 9 derrotas em casa e 2 vitórias, 1 empate e 1 derrota fora, contando-se 53 golos marcados e 2 sofridos. Por aqueles dias, o avançado Constantino Lameiras era o artilheiro mais eficaz da equipa, tendo marcado 29 golos, mais de metade dos golos somados pelo Vitória.
Jogo de futebol no Benlhevai.
Mas o número mais revelador que ressalta da estatística do Comércio de Guimarães refere-se ao número de jogadores utilizados, que o cronista revela, com alguma ironia de permeio:
O Vitória desta cidade, embora durante a época tivesse conseguido resultados lisonjeiros para o seu nome e para a sua região, também alcançou um record brilhantíssimo, que, no meu entender, não pode ser igualado por qualquer Clube português, pois durante a época finda conseguiu que alinhasse pela sua primeira categoria 40 jogadores!
Eis o rol dos jogadores que alinharam pelo Vitória entre Janeiro e Junho de 1932: Ricoca, Elísio, Tintalão, Benjamim, Manecas, Martinho, Zeca Gaiteiro, Machado Reu; Médios: André, Cunha, A. Secândido, Constantino Lameiras, Mário, Hernâni, Mateiro, António Freitas, Camilo, Virgílio, Chico, Ferreira Labita, Neca Machado, Zeca das Taipas, Faria, Rita, Pina, Velha, Costa, Macedo, Queirós, Armindo, Elísio Carvalho, António Adelaide, Pantaleão, S. Braz, Paredes, Almeida Santos, Camisseiro, Sampaio, Fouces e Pepe. Para que se perceba a verdadeira dimensão deste número, convirá recordar que naquele tempo ainda não havia lugar a substituições durante os jogos de futebol, sendo as equipas constituídas por não mais do que os onze elementos que entravam em campo no início de cada jogo.
Segundo a contabilidade do cronista de O Comércio de Guimarães¸ naquele meio ano o Vitória nunca repetiu a mesma equipa, tendo alinhado com o seu equipamento alvinegro nada mais de 3 guarda-redes, 6 defesas, 9 médios e 22 avançados, o que daria para formar três “teams” com idêntico valor. Esta inconstância era reveladora de que ainda resistia um dos obstáculos que estiveram na base do longo ocaso do Vitória, que se estendeu entre 1927 e 1932: a ausência de uma voz de comando com força e conhecimentos suficientes para se fazer respeitar. O Vitória ainda não encontrara a figura do treinador.
Concluía o jornalista:
Diante do Vitória vejo um futuro que, não só o honrando, honrará a terra de Afonso Henriques. Mas, para isso é preciso que sejam eliminadas algumas deficiências.
Os célebres irmãos Plácido: Camilo, Adélio ‘Ricoca’ (guarda-redes) e Mário.


Futebol e identidade local

Por aqueles dias, ia em crescendo o entusiasmo com o futebol. O campeonato de Portugal foi particularmente renhido e a final, realizada a 3 de Julho, entre o Belenenses e o Futebol Clube do Porto, terminou com um empate a quatro bolas. Houve necessidade de uma finalíssima, que aconteceria duas semanas depois, em Coimbra. Este jogo, mais do que um encontro entre duas equipas de futebol, uma do Porto, outra de Lisboa, foi assumido como um confronto entre o Norte e o Sul do país. E as terras do Norte estavam do lado do F. C. Porto. De Guimarães partiram muitas dezenas de aficionados, boa parte deles numa camioneta alugada, representando a sua cidade numa vibrante manifestação de apoio aos representantes da sua região. Entusiastas, defensores acérrimos do Porto, que o mesmo é que dizer do Norte, eles lá foram levar-lhes com a sua presença e entusiasmo, o apoio moral que encoraja e torna heróis os mais pusilânimes, noticiava O Comércio de Guimarães. Segundo as notícias, naquele dia em Guimarães viveram-se horas de ansiedade, aguardando por notícias, que chegariam por telegrama, desencadeando manifestações de regozijo e entusiasmo. O Futebol Clube do Porto vencera o campeonato de Portugal, derrotando o Belenenses por 2-1.
Os jogos de futebol começavam a afirmar-se como algo mais do que simples disputas desportivas, para se tornarem também em manifestações de afirmação local e regional.
A componente “patriótica” dos desafios de futebol viria ao de cima quando, menos de dois meses depois, o Vitória enfrentou o Futebol Clube do Porto pela primeira vez. O jogo foi marcado para 11 de Setembro e teve lugar no parque das Fontainhas, na Vila das Aves. Gerou grande mobilização entre os vimaranenses, a ponto de se organizarem comboios especiais entre as estações de Guimarães e de Negrelos. Dizem os relatos dos jornais locais que o jogo se pautou por certo equilíbrio, e que o Vitória acabaria vencido pela sorte e pela arbitragem. O cronista de O Comércio de Guimarães confidenciaria: cheguei a ter a impressão que o Vitória iria regressar à sua fidalga cidade como vencedor, visto o seu esplêndido jogo nos primeiros 20 minutos. Mas essa impressão não se confirmou e os de “calções de seda” venceram com um contundente score de sete bolas sem resposta.
Este jogo faria correr alguma tinta nos jornais vimaranenses, não tanto pelo resultado, mas pelo comportamento de parte dos espectadores vimaranenses, que cuidaram mais  de apoiar o adversário do que o clube da sua terra. O cronista F. Formiga lavrou o seu protesto contra esta atitude, notando que se é certo que quando da luta “pró campeonato” o Norte se uniu para apoiar o F. C. do Porto, é porque nessa altura ele era o legítimo representante do Norte, e hoje era nosso inimigo, e que que do apoio de todos os seus conterrâneos dependia uma parte da vitória, que encheria de honra a terra de Afonso Henriques. Era o futebol a afirmar-se como esteio fundamental da identidade local. Já não era só o virtuosismo dos jogadores e a qualidade do jogo de equipa que entrava em campo em cada jogo de futebol. Era também a honra e a glória de toda uma cidade. 
Heitor da Silva Campos, primeiro responsável pela reorganização do Vitória em 1932.


O primeiro clube “da província”

O processo de reconstrução do Vitória e da sua afirmação como o principal clube da província não estaria isento de acidentes. Faltava-lhe, além de treinador, estabilidade directiva. O mais activo dos membros da sua comissão administrativa na construção do campo do Benlhevai, Carlos Machado, afastara-se e, com António Andrade, fundara um novo clube, o Sporting Clube de Guimarães, que teria uma existência efémera. O seu baptismo em campo aconteceu em Esposende, no dia 30 de Julho de 1932. Para a pequena história ficou um resultado volumoso: o Sporting vimaranense foi derrotado pelo clube da casa por 16-1 e, ao que parece, por aí se ficou.
Em Outubro de 1932 foi designada uma nova comissão administrativa do Vitória, presidida por Heitor da Silva Campos, de que faziam parte Isaías Vieira de Castro, Francisco Pinto Rodrigues, Amadeu da Costa Carvalho e Eduardo Pereira do Santos. Heitor Campos, que tinha sido presidente do Atlético Sport Clube, seria o responsável pela estabilidade do clube e pela sua caminhada ascendente nos tempos que se seguiriam. Não foi por acaso que os responsáveis pelo Suplemento Desportivo do Notícias de Guimarães o homenagearam logo no seu primeiro número, de 27 de Novembro de 1932, apelidando-o de salvador do Vitória Sport Clube.
A bem da justiça, tal título deveria ser repartido com Carlos Machado e com outros vimaranenses de condição humilde. Foi graças ao seu esforço e ao seu sacrifício que Guimarães voltou a ter condições para a prática de futebol de competição, com a instalação do campo do Benlhevai. Criadas essas condições, o passo seguinte seria a recomposição institucional do Vitória, dotando-o duma estrutura organizativa que lhe permitisse afirmar-se no contexto desportivo regional e nacional. Este processo seria tomado em mãos por personalidades oriundas de uma certa elite social vimaranense que então acompanharam Heitor Campos.
Para que o Vitória funcionasse como uma verdadeira equipa, faltava-lhe um capitão-geral que fosse escutado e se fizesse respeitar pelos jogadores. Em Novembro, Eduardo M. Cunha, que na crónica desportiva assinava com o pseudónimo de Unhaca, lembrava à comissão Administrativa do Vitória a necessidade absoluta de um entraineur, porque só assim poderá existir nesta cidade, um forte núcleo de futebol, que poderá defender galhardamente não só as cores do V. S. C., como também desportivamente, o bom nome desta linda, velha e nobre cidade de Guimarães. Era um treinador que faltava ao Vitória, para que pudesse enfrentar de igual para igual com as equipas de Lisboa e do Porto e afirmar-se como o primeiro entre os clubes de província. 1932 não chegaria ao fim sem que esta lacuna fosse preenchida, com a contratação de Genecy, o primeiro dos treinadores de origem húngara que fariam história no principal clube de Guimarães.
Depois, foi o que se viu. O Vitória entrou num processo imparável de afirmação regional e nacional. Logo na época de 1933-1934, retomava a sua participação em competições oficiais e quebrava a hegemonia do Sporting de Braga, conquistando o seu primeiro título de campeão distrital. Enquanto se disputou este campeonato, o Vitória ainda o venceria onze vezes, em treze possíveis. Em 1941, entrou para a História como o primeiro clube do Minho a competir no campeonato nacional de futebol. Com o tempo, iria consumar o destino que lhe estava traçado desde o início, tornando-se no clube de fora de Lisboa e do Porto com mais participações no campeonato maior do futebol nacional. O primeiro entre os clubes “de província”. Cumpriu-se o sonho dos homens da fundação de 1922 e do ressurgimento de 1932.
Primeiro emblema do Vitória Sport Clube, que se distingue do actual pela posição de D. Afonso Henriques (aqui aparece a olhar de frente) e pela sigla inscrita do lado direito, son fundo brando, de onde haveria de cair a letra V. Em 1972, aquando da celebração do cinquentenário vitoriano, foi revelado que o seu autor era o arqueólogo Coronel Mário Cardoso, durante várias décadas presidente da Sociedade Martins Sarmento, que explicou assim a sua criação: "com a sugestão das palavras Vitória e Guimarães vinha logo ao pensamento o fundador da nacionalidade Afonso Henriques, “ex-libris” de Guimarães, em atitude serena mas destemida da imagem que o grande estatuário Soares dos Reis modelou. Acerca das cores preta e branca parece que os fundadores do clube já pressentiam o que essas cores simbólicas viriam a significar, a admissão no clube de todos sem distinção que nele se quisessem associar tanto africanos de cor como os brancos europeus.”

(texto e cartoon originalmente publicados na revista Mais Guimarães)

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