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Mensagens

Da falta de estacionamento em Guimarães

Ao que se vê por aí, parece que está interiorizada a ideia de que Guimarães tem um problema de falta de estacionamento, que urge resolver. No entanto, não conheço qualquer estudo objectivo e sistemático que demonstre e quantifique tal necessidade. Na falta de estudos de natureza técnica, resta-nos acreditar no que nos dizem. Ou então, podemos tentar verificar a realidade no terreno. A experiência é simples, já que Guimarães é uma cidade maneirinha, que se percorre relativamente depressa a caminhar. Foi o que fiz hoje, dia normal de trabalho, ao princípio da tarde. Iniciei a minha digressão um pouco antes das 15 horas e, pouco depois das 16 dava-a por concluída, tendo visitado 14 parques de estacionamento, dos quais 13 são pagos. Os parques que visitei estão assinalados na fotografia aérea que acompanha este texto, obtida no Google Earth. Pelo caminho, fui deitando o olho aos estacionamentos de rua com parquímetros.

A minha intenção era assinalar a verde no mapa os parques que tinham a …
Mensagens recentes

Como uma viola em enterro

De vez em quando, volta a discutir-se a questão do estacionamento na cidade de Guimarães. Que faz muita falta e é muito urgente a construção de novos parques, dizem-nos. De preferência no Toural, asseveram-nos. E subterrâneos, pois claro, juram a pés juntos. Ouço dizer que a Câmara se prepara para construir um desses “equipamentos”, em tamanho a puxar para o grandote, no miolo entre as ruas Caldeiroa e de Camões, ao mesmo tempo que encomenda um estudo para saber da viabilidade de um parque subterrâneo entre a Alameda e o Campo da Feira (e eu pasmo com tal ideia que, a concretizar-se, implicaria que fosse perpetrado o mais extenso arboricídio de que haveria memória nesta cidade). Agora, ouço falar num projecto de uma candidatura à Câmara nas próximas eleições autárquicas que recupera uma ideia que ficou pelo caminho há poucos anos: um túnel e um parque a esventrar o Toural.
Perdoem-me, a culpa é seguramente minha: deve estar a falhar-me algo, já que não encontro justificação racional pa…

Pedras que falam (Aqui Nasceu Portugal) - parte II

Quantas brisas, quantas ventanias, quantas tempestades não têm bafejado ou chicoteado as pedras do vosso castelo, e vede se a linguagem delas se calou, ou se, pelo contrário, não é cada vez mais forte, cada vez mais retumbante, cada vez mais solene, a voz com que essas pedras vos dizem e nos dizem: Aqui nasceu Portugal!Agostinho de Campos, 1927
Se descontarmos as fotografias tiradas pelos turistas das visitas apressadas, que são despejados dos autocarros junto ao Castelo e que apenas ficam a conhecer as ruas de Guimarães que fazem o caminho mais rápido desde ali até ao Campo da Feira, onde os mesmos autocarros os aguardam para seguirem viagem, a Torre da Alfândega é, seguramente, o monumento mais fotografado de Guimarães, por força da inscrição que nela está cravada: Aqui Nasceu Portugal.Resolvida o ponto da paternidade da expressão que, como vimos, não é obra de António de Oliveira Salazar, nem do Estado Novo (que, quando Agostinho de Campos a pronunciou pela primeira vez, na véspera …

Pedras que falam (Aqui Nasceu Portugal)

Há algum tempo, a cidade percebeu que estava desaparecida a inscrição “Aqui Nasceu Portugal” que estava afixada na face visível da Torre da Alfândega da antiga cerca muralhada de Guimarães. Tal desaparecimento, como facilmente se concluía, apesar da estranheza inicial, não tinha em si qualquer mistério: tratava-se de uma simples operação de limpeza e de substituição do sistema de iluminação por outro mais eficaz e mais moderno. Porém, uma pequena ‘provocação’ que publiquei, acompanhando uma fotografia da torre sem a frase emblemática, deu origem a uma curiosa discussão no Facebook, de que resultou perceber-se que, afinal, havia ali um mistério. Aliás, dois mistérios: quando foi que se colocou o letreiro naquele muro secular e quem inventou aquela frase.Dos muitos intervenientes da discussão, nenhum tinha resposta certa para tais perguntas que, aliás, já me tinham sido colocadas há um par de anos, quando a câmara de Guimarães reunia o argumentário para contestar o registo, por uma enti…

As banhistas deliciosas

O arqueólogo Mário Cardoso fez carreira como militar. Em 1913, com 24 anos, completou o curso da arma de infantaria na antiga Escola de Guerra. No ano seguinte era alferes. Atingiria o ponto mais alto da sua carreira militar em 1946 quando, já no posto de coronel, assumiu o comando do Regimento de Infantaria 8, aquartelado em Braga. Pelo caminho, prestou serviço no Regimento de Infantaria 20, em Guimarães, no Batalhão de Caçadores 9, em Braga e no Batalhão de Caçadores 3, em Chaves. Durante a I Guerra Mundial, esteve mobilizado nas campanhas de África, primeiro no Sul de Angola e, depois, em Moçambique, onde esteve entre 1916 e 1918. É aí que o encontrámos no início de Dezembro de 1916, provavelmente num período de licença, a gozar do Sol de Verão do hemisfério Sul, e a contemplar, na praia de Polana, em Lourenço Marques, o mar “dum tom azul muito escuro e diferente, o céu onde flutuam gaivotas, planando em curvas serenas, inalteravelmente claro e fluído”, os navios e a admirar as ban…

"Raul Brandão Existiu?": uma pergunta de Santos Simões em 1980

No dia 5 de Dezembro de 1980 passaram cinquenta anos sobre a morte do escritor Raul Brandão. Praticamente não houve comemorações dignas desse nome, a não ser uma grande exposição biblio-iconográfica em Lisboa, na Biblioteca Nacional. Em Guimarães, a homenagem a Brandão resumiu-se a uma romagem ao túmulo do escritor no cemitério da Atouguia, promovida pelo Centro de Arte e Recreio e pelo Teatro de Ensaio Raul Brandão. Por essa altura, Santos Simões publicava no jornal O Povo de Guimarães um texto em que reflectia sobre os “contorcionismos hepáticos” dos que presidiam aos destinos da coisa da cultura em Portugal para “evitar actos de consagração nacional” ao escritor da Casa do Alto, tal como acontecera, três anos antes, aquando do centenário do nascimento do seu companheiro Teixeira de Pascoais.
Aqui fica.

No cinquentenário da morte do autor de HúmusRaul Brandão existiu?
por Santos Simões
Será que este país merece os seus escritores e artistas?A pergunta não é uma provocação, mas a respost…

Assim se fazem as coisas...

Por estes dias, numa busca que fiz na internet a propósito de Raul Brandão, fui ter a um artigo duma revista chamada Delphica — letras e artes, com o título "Uma grande figura desaparece: morreu o genial escritor Raul Brandão", que está disponível no site www.digitalis.uc.pt, uma muito útil plataforma da Universidade de Coimbra que agrega e difunde conteúdos digitais. O artigo vem precedido de um aviso em que se informa que “todas as obras da UC Digitalis se encontram protegidas pelo Código do Direito de Autor e Direitos Conexos e demais legislação aplicável” e se indicam as respectivas condições de utilização.Ao abrir o pdf, verifico que o artigo em questão reproduz uma entrevista de Américo Durão a Raul Brandão, que o jornal republicano vimaranense Velha Guarda reproduziu na sua edição de 7 de Dezembro de 1930, dois dias após a morte do autor de Húmus. Acontece que o tal artigo da tal revista é uma cópia de um texto que publiquei aqui em 11 de Maio de 2010. Cópia integral,…

O irmão de Raul Brandão que também escrevia

Embora não seja fácil encontrar-lhe o rasto, Raul Brandão tinha um irmão que também escrevia. Chamava-se Armando e consta da lista de testemunhas do casamento de Raul Brandão com Maria Angelina, sendo identificado como negociante.
Raul Brandão refere-se-lhe numa carta que dirigiu à sua noiva, Maria Angelina, datada de 5 de Setembro de 1896. Esta carta fez parte dos lotes do leilão da Livraria Luís Burnay, que foi a leilão em Lisboa em Junho de 1910. No verbete do catálogo leilão que se lhe refere, encontrámos uma transcrição parcial do autógrafo, onde se lê:
Em primeiro lugar desculpa o papel. Estou-te a escrever do Porto, do escritório de meu irmão, À ultima hora, para que te não falte carta minha. […] se o dia estiver bonito saio de Matosinhos às 7 e 25 minutos da manhã, com a minha irmã, minha cunhada e meu irmão. Ficamos em Vila do Conde onde almoçamos e depois partimos para a Povoa. Aí deixo-os e vou procurar-te, minha querida. Estou contentíssimo só com a ideia de que amanhã te he…

Raul Brandão e Guimarães, por Santos Simões

Em 1967, a alma mater das celebrações do centenário do nascimento de Raul Brandão em Guimarães, que tiveram o Círculo de Arte e Recreio como epicentro, foi Santos Simões. Sobre as comemorações de 1967, falaremos um destes dias. Hoje deixamos aqui um texto que saiu no número especial do suplemento Artes e Letras que acompanhou a edição de 19 de Março de 1967 do jornal Notícias de Guimarães, de que Santos Simões é autor.

RAUL BRANDÃO E GUIMARÃES
A importância de uma cidade ou região, ou de um país, se se mede pelo grau de prosperidade dos seus habitantes e pelo seu global potencial económico, só alcança, no entanto, verdadeiro prestígio e natural projecção para além dos respectivos limites geográficos, à custa de uma irrefragável e dominante valia histórica, das constantes morais e tradicionais que constituem o seu bragal e dos valores culturais enraizados na terra e nas gentes, reveladores dum alto poder criador bem embebido em húmus e sangue, sua vida e carácter.
Guimarães constitui um e…

Há 150 anos: nasce Raul Brandão, filho e neto de pescadores (?)

1867 — 12 de Março — Nasce Raul Brandão, de seu nome completo Raul Germano Brandão, na freguesia da Foz do Douro, Bairro Ocidental, Porto. Filho de José Germano Brandão, pescador, e de Laurentina Ferreira de Almeida.Guilherme de Castilho, Vida e Obra de Raul Brandão, p. 497
Uma pesquisa no Google aos termos “Raul Brandão” e “filho e neto de” devolve bem mais de 4.000 resultados, desde a omniscienteWikipedia ao novo portal dedicado ao escritor da Casa do Alto, em boa hora criado no âmbito das comemorações dos 150 anos do seu nascimento, que recomendo vivamente, passando por inúmeras páginas institucionais, literárias e de órgãos de informação. Todas elas atestam que Raul Brandão era filho e neto de pescadores, ou de homens do mar, ou de gente do mar, ou de marítimos. Seria assim?***Passam hoje 150 anos sobre o nascimento de um dos autores mais marcantes da literatura de língua portuguesa do século XX, Raul Brandão. A sua obra, profundamente inovadora, tem sido objecto do interesse de in…