23 de outubro de 2017

A mulher minhota, por João da Rocha (5)

Prosseguindo com a publicação do texto sobre a mulher minhota, de João da Rocha, damos agora o capítulo sobre a indumentária feminina tradicional do Minho.

Monografias regionais portuguesas

A mulher minhota (5)
AS HABITAÇÕES — VIDA FAMILIAR — O NATAL
O VESTUÁRIO
Às romarias minhotas, que de Janeiro a Setembro continuadamente se sucedem, moças e velhas levam as suas melhores roupas e as suas jóias. Os tipos característicos da indumentária feminina tendem a desaparecer, em vista da descentralização da vida social, das modificações introduzidas nos processos regionais de tecelagem e fiação, da concorrência das indústrias e das facilidades de viação e transporte. A cultura do linho, que existe desde que Portugal e reino, vai em decadência, e teares domésticos, desse velho tipo grego dos tempos de Penélope tecedeira, cedem o lugar aos teares mecânicos e a essa máquina de costura universalmente espalhada, que poupam tempo e trabalho e habituam às modas as raparigas. Nas povoações pouco afastadas das sedes dos concelhos já as aldeãs se vestem à moda da vila ou da cidade. Mas os velhos apegam-se ainda às antigas usanças e nas serras principalmente as tradições mantêm-se. A serrana não deixou, pois, de usar o linho, mesmo nas suas fases mais grosseiras, que são a estopa e os tomentos. As faldas das camisas são por lá de estopa; o peito, as costas e os braços de linho mais fino para mais durar. Em saias usa-se também no Soajo ainda o linho, mas já são de algodão as camisolas e as baetas. Empregam-se grosseiras e pouco cuidadas na serra as roupas brancas, as ribeirinhas, porém, apreciam o luxo das camisas e das meias. Trazem estas nos grandes dias camisas de linho branco, bordadas na gola, nas ombreiras e nos punhos, que põem à mostra sobre os vistosos coletes de casimira vermelha, apertados à frente por um cordão de sirguilha e guarnecidos de veludo preto com soutache e lantejoulas, ou missanga. Entre o colete e a saia refega-se a camisa, na cintura. Para outras bandas, usam-se os coletes de riscado ou de cotim, tendendo a desaparecer os de linho bordado, de cores vistosas. Já passaram de moda, mesmo em Castro Laboreiro, as faixas de lã vermelha que, à laia das peitorais gregas, sustentavam sob o colete os seios erectos. As meias são também de linho branco, feitas a agulha e entreabertas ou bordadas à frente. No auge do Inverno as da Ribeira e em quase todo o ano as da Serra usam as piúcas, meias sem pés, em malha de lã, cobrindo a perna do joelho ao tornozelo. Há-as com peito-de-pé, à maneira de polainas, e com presilha ou cabrestilho. Os jalecos e os casacos agaloados, com filas de botões, usam-se por todo o Minho, além do litoral entre Montedor e o Neiva.
Como sobrevivência dos antigos vestuários de lã trazem as mulheres e crianças castrenhas (de Castro Laboreiro) os buréis de rascadilho e o amantezado de lã e algodão. A lã tecida com a estopa produz a sirguilha de Lindoso e Suajo e a fraldilha da serra de Arga. E todos esses buréis são tingidos em riscas longitudinais, mas à medida que se vai descendo da serra para a beira-mar as cores multiplicam-se e o listrado mistura-se com o enxadrezado. As raparigas da Areosa (cujo costume é também adoptado nas freguesias das margens do Lima, entre Ponte do Lima e Viana) usam saia às riscas, de lã vermelha (na Afife e em Carreço é azul) com fios azuis ou verdes, urdida com algodão branco. Tal saia é curta, graças a Deus, deixando ver o tornozelo e a meia, e às vezes a curva duma linda perna. Tem o cós às pregas e na fímbria uma larga barra de pano escarlate ou, se o fundo e azul, azul. As castrenhas usam sobre a saia de pano escuro um avental típico, o sanguidalho, tendo o aspecto de um triângulo isósceles com o vértice para os pés. O avental, na serra pouco usado ou curto, vai crescendo e vai-se generalizando até ao litoral; e é feito de chita grossa, agasalho, riscado, lã, e até de veludo nas vilas e cidades. As da Areosa ostentam-no, de lã ou sirguilha, com barras enxaquetadas em cores alacres. Sobre o fundo, em pregas como o cós da saia bordam-se a vermelho as iniciais da possuidora pentagramas ou hexagramas (signos de Salomão), cruzes, corações, âncoras, ou a palavra amor, em grandes e carinhosas letras. Por cima do avental põe-se a algibeira, simples ou com lavores, de uma ou mais cores. É de estopa, burel, casimira, cotim, saragoça e até algodão, conforme os lugares. Tem o corte de um coração. E na beira-mar vianesa guarnecem-na de lantejoulas e missanga e com os mesmos motivos do avental.

Como cobertura para a cabeça adoptam as ribeirinhas do Lima o lenço franjado, em fundo azul ou vermelho, atado no alto e com as pontas caindo para os lados. Os mantéus estão em desuso, revivendo ainda na capa castrenha, sem mangas nem gola.
João da Rocha, Ilustração Portuguesa, n. 216, Lisboa, 11 de Abril de 1910
Fotografias de Emílio Biel  C.ª
[continua]

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22 de outubro de 2017

A mulher minhota, por João da Rocha (4)

[continua daqui]

Continua a "monografia regional" sobre a mulher minhota que João da Rocha publicou em 1910 na Ilustração portuguesa. No capítulo que agora se publica, trata das crenças religiosas e supersticiosas, de que nos dá diversos exemplos curiosos.

Monografias regionais portuguesas

A mulher minhota (4)
RELIGIÃO E SUPERSTIÇÃO
Deus é para esta gente o pai supremo e bondoso, que a seu alvedrio dispõe dos frutos da terra e dirige as tormentas do céu. Tudo se fará “se Deus quiser”. A terra cansa, o gado morre, a colheita é escassa... Paciência! Será o que Deus quiser! O espírito da mulher minhota volta-se acanhado para a Providencia, mesmo nos transes mais usuais da vida. Por toda a parte, mormente  nos montes e outeiros, há capelinhas, nichos, ermidas, que a piedade dos fiéis mantém através de ritos pagãos. É um culto ingénuo e grosseiro. É um culto natural. Os missionários aproveitam-no como entendem, e até procuram desorganizar a família quando o homem, mais independente ou mais prático, prefere o trabalho real do seu braço ao favor virtual da Divindade. De ano para ano, numa dada época, conforme as freguesias, as mulheres abandonam os seus trabalhos, põem de parte os seus deveres caseiros, as suas obrigações, os seus filhos mesmo, e lá vão para a igreja, contas na mão, especialmente as velhas, ouvir os bons dos missionários falar dos castigos de Deus, dos pedreiros-livres, do inferno, das virtudes da confissão, da supremacia universal da igreja. Elas temem, coitadas, porque são supersticiosamente crentes. Há tantos pecadores por esse mundo! O que será delas quando a morte vier. No seu coração infantil aninha-se a intolerância e o temor. O Deus da vida que perdoa, transforma-se no Deus da morte que castiga. Afasta-se dos que amam a natureza e cantam e se divertem. Desfia os seus pecados, num plangente murmúrio, ajoelhada e com a saia a tapar-lhe a cara, junto à relha do confessionário. Mas, como no fundo do seu ser se não pode dissipar de todo o apego às coisas do mundo e às venturas da terra, serve-lhe de alívio censurar os outros, repreender os outros, meter medo aos outros. O seu espírito conserva-se, todavia, sempre indeciso. Nessas consciências crepusculares tudo se emaranha. Quem lhe dará conselhos? Só o padre, que representa Deus e conhece os segredos da “outra vida.” E o padre torna-se o juiz de todas as causas, procurador da Divindade. Nada se lhe deve negar, para que a vingança divina não flagele os casais.
Mas o clima impõe-se ainda, como as influências ancestrais, e nunca a mulher da beira-mar atinge o grau de misticismo em que por vezes cai a mulher sertaneja. Todavia é certo que, mesmo nas coisas profanas, um abafado capuz de superstição a oprime. Para a serrana, sobretudo, logo abaixo do padre está o curandeiro, ou melhor, a feiticeira. Toda a mulher minhota, com o avançar da idade, vai adquirindo farto cabedal de conhecimentos mágicos, rezas, esconjuros, colheita e preparo de ervas milagreiras e de órgãos de animais, com aplicação directa a moléstias e até a acidentes da vida. Para as lombrigas das crianças, já todos sabem que não há melhor remédio que um rosário de alhos. Livre-se alguém de passar por cima duma criança que gatinhe, porque a tolhe e o inocentinho não cresce. Por outro lado, criança que se veja a um espelho antes de começar a falar gaga fica, certamente. Ninguém mate um gato na sua propriedade, porque mete a miséria em casa. A esterilidade cura-se esfregando-se a mulher pela pedra da fecundidade. E certos santos são agentes terapêuticos de primeira ordem. S. Brás cura a garganta, S. Vicente as bexigas. Santo Amaro os males das pernas e dos braços, Santo Ovídio os ouvidos, Santa Luzia os olhos. Quem rezar um responso a Santo António encontra o que perdeu. No dia 24 de Abril ninguém trabalhe. É dia de S. Pedro de Rates. Se em alguma casa houver pessoa ou animal de esperanças e nesse dia um membro da família trabalhar ou pegar em tesouras é certo que o que nascer virá, pelo menos, aleijado.

Assim, quando alguém adoece, as mulheres da casa, não se fiando em médicos, fazem as suas promessas a Nossa Senhora ou a qualquer santo da sua devoção, e votos ou romarias à Senhora da Peneda, à Senhora da Cabeça, à Senhora de Agonia, ao Senhor do Alívio, a S. Torcato, etc., romarias e promessas que em geral cumprem nos dias das festas desses santos, para terem companhia e gozarem um pouco também.
João da Rocha, Ilustração Portuguesa, n. 216, Lisboa, 11 de Abril de 1910
Fotografias de Emílio Biel  C.ª

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21 de outubro de 2017

A mulher minhota, por João da Rocha (3)



A terceira parte da "monografia regional" de João da Rocha sobre a mulher minhota é dedicada à descrição da casa tradicional, da vida familiar e das festividades do Natal.

Monografias regionais portuguesas

A mulher minhota (3)
AS HABITAÇÕES — VIDA FAMILIAR — O NATAL

Como acontece com a gente, os caracteres do terreno actuam sobre a disposição das habitações. Falando-se da mulher, tem de falar-se da casa, onde ela reina. É claro. Ora nos solos graníticos, onde as nascentes abundam, embora frouxas, as casas estão espalhadas e separadas, ocupando grande extensão; nos solos calcários, onde as nascentes rareiam, as casas aglomeram-se e aninham se por onde a água existe; e, consoante a cal escasseia ou sobra, assim as casas das povoações rurais nos aparecem à vista negras e encolhidas, a confundirem-se com as pedras e as brenhas, ou alvas e altaneiras, a sobressaírem do solo fecundo. Nas serras que no Inverno o vento açoita e a neve cobre, fiadas de pedras seguram as telhas ou o colmo das habitações; e lograres há, como Castro Laboreiro, em que no cume do Inverno os serranos mudam de residência para as inverneiras, que são casas abrigadas nos recôncavos das encostas ou mesmo no fundo do vale. A cobertura das habitações é, conforme as posses e as condições locais, de xisto, feno seco, giesta, colmo ou telha-vã. Nas casas pobres não há divisões, vivendo promiscuamente a família com os animas domésticos: o fumo se pelos interstícios da cobertura e as crianças dormem na mesma canastra, com os cães. Nas povoações ribeirinhas, mais fartas, já a casa se divide em cozinha e mais quartos, e ao pé dela ficam as outras construções agrícolas: corte de gado, celeiro, coberto, eira e espigueiro. Quando a habitação, por ser mais rica, tem mais outro andar, o gado fica nas lojas térreas, e o acesso ao andar habitado e feito por uma escada externa de pedra, sobre cujo patamar superior se abre um alpendre. É frequente ver-se ainda, ao longo de toda a fachada da casa, uma varanda saliente.
Nas longas noites de Inverno toda a família se reúne na cozinha, peça principal da habitação rural do Minho, e aí, à ténue luz da candeia ou à crepitante palpitação do lume do ar, as mulheres fiam nas rocas ou dobam nas dobadouras o linho ou a lã das maçarocas e meadas, enquanto as crianças escutam, de boca aberta, as histórias tradicionais que a avó desfia, como desfia a estopa, ou as confusas dissertações de algum patranheiro da casa: no período que decorre de Santa Luzia ao Natal, vai alguém, de quando em quando, à porta observar o tempo, porque já começaram as quendas. Isto quer dizer que os 12 dias que vão de 14 a 24 de Dezembro condensam, no seu aspecto, os 12 meses do ano que vem. Chega a véspera do Natal e toda a família se movimenta num desusado alvoroço. É a verdadeira festa do lar minhota. É a consoada.

Ceia íntima, a que os ausentes do resto do ano, se podem, vêm assistir. Come-se e bebe-se. Toda a festa caseira no Minho se concretiza em uma boa refeição. Come-se e bebe-se alarvemente. É rara a casa onde não há uma indigestão. Arde no lar o cepo do Natal. Joga-se o rapa, digerem-se as rabanadas, bebe-se o vinho quente: e todos têm, no meio da sua alegria, um gesto de saudade para os mortos queridos “que Deus levou”.
João da Rocha, Ilustração Portuguesa, n. 216, Lisboa, 11 de Abril de 1910
Fotografias de Emílio Biel  C.ª

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20 de outubro de 2017

A mulher minhota, por João da Rocha (2)


Conduzindo os bois
Segunda parte da "monografia regional" de João da Rocha sobre a mulher minhota, publicada em 1910 na Ilustração Portuguesa, com fotografias de Emílio Biel & C.ª, onde o autor nos diz que:

não há ninguém como ela para amanhar uma ceia, tecer o linho, urdir, fiar. cantar, puxar os cordões à bolsa, calcular, rezar e descompor alguém.


A espadelada.

Monografias regionais portuguesas

A mulher minhota (2)
A MULHER COMPANHEIRA DO HOMEM — FESTAS E TRABALHOS AGRÍCOLAS
O celeiro do Alto Minho é Coura, terra das papas, paraíso da boroa. Como por lá o terreno é mais fundo e húmido, as colheitas fazem-se no S. Martinho, e sangra-se Cristo sem escrúpulo. São as martinhadegas. Parece que o nome explica os usos. E de facto explica. As mulheres entram com os homens nas malhadas e com eles manejam, alternadamente, os manguais. Nos terrenos menos fundos e mais secos, pelo leste do Minho, as malhadas fazem-se mais cedo: e mais cedo ainda, em Setembro, pelo S. Miguel (dia santo em todas as aldeias minhotas), faz-se a esfolhada. Esfolhear o milho consiste em descamisar-lhe a espiga. Devia ser um trabalho enfadonho. Pois não é. Por toda a parte é uma pandega de truz. No coberto ou na eira reúnem-se os vizinhos à gente da casa, e não faltam à festa as cachopas bonitas com os seus conversados. Sentam-se todos no chão ou onde Deus quer, numa grande roda. Canta-se ao desafio, conversa-se e quando aparece o milho-rei corre o seu possuidor a roda a colher abraços da sociedade. Às vezes irrompe do escuro uma mascarada pitoresca. Dança-se e ceia-se. Come-se bacalhau ou sardinhas, a boroa, um caldo de couve com feijão; bebe-se a pinga do Senhor; e, como às vezes o amor e o vinho fazem suas, não é raro acabar tudo à meia noite com muita pancadaria. Nas malhadas de centeio, mais montanhesas, cada infusa de verde é acolhida com vivas desengonçados a que chamam apupos. Mas quanto mais os manguais trabalham mais a fome aperta. Por isso, antes do meio-dia, cai na cozinha um grupo de malhadores, cocando a comida ou as mulheres. Mas estas não são pecas: brigam com eles — defendendo-se a tição, com a pá do forno, a braço, como calha — e expulsam-nos para a eira com grande alarido. Ao arrumar da palha, arma-se um mono representando uma velha a cujo enterro se procede imediatamente, indo atrás o viúvo como carpideira.
A mãe.
Não são estas, porém, as únicas festas agrícolas da região. Há as lavradas pela Páscoa. E em Junho, foucinha no punho, lá vai tudo para as veigas segar o trigo e o centeio. Depois da apanha do linho, faz-se também, pelo S João, a espadelada. Todas as cachopas, com o seu cortiço ao lado e de espadela na mão, trabalham como formigas e cantam como cigarras. Vão-se chegando os rapazes, que se prantam de roda, encostados aos varapaus. Surge, de repente, o tocador, com o cavaquinho ou o harmónico; e lá se abandonam os cortiços e se pousam as espadelas, porque já as moças, a mailos moços — vira que vira, entram na dança, de mãos erguidas, enquanto os velhos saboreiam a pinga, limpando a boca às costas da mão. Nas vindimas canta-se também, está visto, mas, depois das maceiras terem deitado as uvas nas dornas ou nos lagares, o mulherio retira-se prudentemente, porque o resto, cá no Minho, é só para homens. São os homens, de calças arregaçadas, e alguns mesmo sem calças, que vão pisando os cachos, enquanto a ceia se faz e a vela de sebo dura acesa.
O Inverno aproxima-se, com o seu cortejo de chuvas e ventanias. Ora o frio esperta o estômago. É preciso arranjar presigo que aquente. Como no dia de Santo André quem não tem porco mata a mulher, convém evitar a viuvez, sacrificando, sobre o banco esguio, à faca do matador, o cevado que no chiqueiro grunhe. A matança é um caso complicado que demanda conhecimentos domésticos. Até à dependura do porco e ao preparo da salmoura mestrejam os homens, mas os cuidados culinários do sarrabulho cabem às mulheres. O mulherio da casa e da vizinhança junta-se na cozinha a petar cebola para os chouriços, a fazer os rojões, a bater o sangue para o arroz de sarrabulho, a preparar o lombo e a colada, a lavar as tripas, a encher as farinheiras ou as alheiras, a depenar o galo (porque sem galo não há sarrabulho que preste) e a compor a vinha-de-alhos, enquanto as crianças contemplam a bexiga que, perto do lume, seca dependurada. Isto porque, nas casas boas das aldeias, o jantar de sarrabulho, bem regadinho de verdasco desde a canja até ao lombo, dura horas que nem Deus conta, e para mais, quase sempre com o senhor pároco à cabeceira.
A malha do milho.

Assim o homem se prende à terra e a agricultura e os cuidados caseiros entretêm a mulher. Mas sem os bois como se há de lavrar o campo? Quem dá o leite, senão as vacas? Não é também só de linho que se há-de compor o bragal. A lã dos carneiros e das ovelhas aquece mais. no Inverno, que o vinho das infusas. Os animais auxiliam o lavrador. É raro o que não sustenta bois, próprios ou tomados a ganho. Mas, além dos bois. há os porcos, as galinhas, as cabras, as ovelhas, o cão, que vigia toda a noite no quinteiro, o gato, que se enrosca na quentura do lar. É a mulher, quase sempre, que trata dos animais: encurrala as cabras e as ovelhas, faz a cama ao gado, tira o leite às vacas, escalda o farelo para as galinhas, prepara a lavadura para os porcos. Além disto. trabalha no campo como qualquer homem, em especial a casada de poucas posses, ou ocupa o tempo em indústrias caseiras, como a tecelagem e a fiação. quando se trata duma festa, não há ninguém como ela para enfeitar um arco de flores, para adornar um altar, para animar um leilão de prendas com segredinhos disputados, como não há ninguém como ela para amanhar uma ceia, tecer o linho, urdir, fiar. cantar, puxar os cordões à bolsa, calcular, rezar e descompor alguém.
João da Rocha, Ilustração Portuguesa, n. 216, Lisboa, 11 de Abril de 1910
Fotografias de Emílio Biel  C.ª
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17 de outubro de 2017

A mulher minhota, por João da Rocha (1)




No seu número 216, publicado em 11 de Abril de 1910, a revista Ilustração Portuguesa publicou uma “monografia regional portuguesa”, escrita por João da Rocha (director e um dos fundadores da revista Límia, que se publicou em Viana do Castelo entre 1910 e 1912) e dedicada à mulher minhota, “a mais linda mulher de Portugal”, nas palavras do autor. O estudo era acompanhado por fotografias de Emílio Biel e C.ª. Aqui se publica a primeira parte (as outras virão a seguir), onde o autor escreve:
E elas sabem-no, as marotas! É ver como as saias se encurtam deixando ver a perna tentadora. É ver como os coletinhos abertos suspendem e amparam os fortes seios. É ver como os bustos se requebram no voltear do Vira e no passear do Regadinho.

Monografias regionais portuguesas

A mulher minhota (1)
O MINHO — AS INFLUÊNCIAS ÉTNICAS—A PAISAGEM E A MULHER

Desde as alturas da Peneda, do Soajo, do Gerês e da Cabreira até às suavíssimas praias do sul do Lima e às veigas fartas da Areosa, o solo minhoto desce lentamente para o mar. A brisa do Oceano adoça este clima, agreste ainda nos píncaros limítrofes da Espanha e de Trás-os-Montes, acariciando e fecundando a terra com a suavidade bucólica já de longos anos observada e a esplêndida fartura que dos arredores da Barca e de Guimarães se alastra até ao litoral. Neste abençoado terreno fervilha a população mais densa de Portugal. Terra alegre, gente alegre, em qualquer parte desta região, que não fique entre os penhascos das serras interiores, para toda a banda onde a vista se alongue é certo encontrar vinhedos e milheirais: ora o pão e o vinho, todos o sabem, são o corpo de Deus e o sangue de Cristo.
Assim, por estes sítios, entre a natureza e o homem há um acordo tácito que torna a terra mais produtiva e a vida social mais confortável. A paisagem, da meia encosta para o mar, e dum supremo encanto, macia e doce como o doce mel. Por isso os minhotos são como as abelhas: apegadas ao colmeal trabalhando e zumbindo, isto é, cantando.
A natureza do terreno em declive divide a região em duas partes bem distintas:
a montanha e o litoral, a serra e a ribeira. A população das serras que constituem a ossatura geológica do Minho é a serrana: a dos vales e das praias a ribeirinho. mais densa e mais instruída que a das montanhas, mais alta também, quanto a estatura. Sobre os mentos etnogénicos que nos tempos proto-históricos aqui a sentariam, e que seriam lígures, cruzaram-se as migrações célticas, de predomínio hoje manifesto nas partes montanhosas de Ponte do Lima e de Castro Laboreiro, e, mais tarde, as invasões nórdicas, cujo tipo antropológico predomina ainda nos vales e no litoral. Estes povos não modificaram a cultura primitiva tanto quanto etnicamente se desenvolveram, ao contrário do que sucedeu com os outros povos invasores dos tempos históricos. Etnologicamente, o elemento lígure predomina nas serras, como em Castro Laboreiro; o elemento céltico, moreno, do Âncora ao Cávado; e o elemento nórdico, louro e sardento, do Cávado ao Ave. Mas aos efeitos dos cruzamentos e à acção do tempo sobre as diferenciações étnicas resistiram notavelmente as mulheres e sempre revelaram e revelam, nos seus usos como nos seus tipos, as mais remotas influências ancestrais.
Por cá a mulher, mais do que o homem, é um produto da terra, espontâneo, natural: à paisagem inteiriça, áspera e sóbria da montanha corresponde a fisionomia rude, severa e triste da serrana; como à paisagem maleável, doce e farta da beira-mar corresponde a fisionomia viva, afável e alegre da ribeirinha. O cenário dos vales e das encostas, afagado pelo sol, lavado pelas chuvas, movimentado pelos ventos, com águas que se beijam, pinheirais que se abraçam, campos que dormem juntos, com um céu luminoso e sadio que tudo cria e tudo absolve abraçando casais e colheitas no mesmo luminoso sorriso, raramente interrompido pelas cóleras da terra e pelas tormentas do ar, é uma formidável kermesse natural: por isso não há terra como esta para romarias e folguedos, não há terra portuguesa onde se cante com mais alegria nem onde com mais espontaneidade se ame. A terra amorável dá o vinho espumoso que mata a sede e alegra a alma, o trigo e o milho de que se faz o pão de Deus, o quente linho de que se vestem homens e mulheres, e a lenha para o lume, a madeira para a casa, a palha para a enxerga...

Nesta alegria das coisas move-se a mulher minhota, a mais linda mulher de Portugal: esculturas perfeitas, como as de Seixas, a quem Páris não recusaria a maçã, palminhos de cara, como as de Afife, que fariam pecar Santo António. E elas sabem-no, as marotas! É ver como as saias se encurtam deixando ver a perna tentadora. É ver como os coletinhos abertos suspendem e amparam os fortes seios. É ver como os bustos se requebram no voltear do Vira e no passear do Regadinho. Também o homem, no Minho, se habitua desde criança a admirar mulher; e mesmo, depois de casado, nada faz, por via de regra, sem a consultar. A emigração, afugentando o minhoto, aumenta o predomínio da minhota. E não seria temerário paradoxo afirmar que para estas bandas, o homem... é a mulher.
João da Rocha, Ilustração Portuguesa, n. 216, Lisboa, 11 de Abril de 1910
CLichés de Emílio Biel & C.ª

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16 de outubro de 2017

Louça vermelha de Guimarães, por Alfredo Guimarães


Entre a colaboração de Alfredo Guimarães para  revista Ilustração Portuguesa destacam-se os textos de natureza etnográfica que acompanham reportagens fotográficas. Esse foi o caso de um texto que já aqui publicamos, dedicado às chinelas tradicionais de Guimarães (não saiu assinado mas é, só pode ser, de Alfredo Guimarães). O texto que agora apresentamos, com imagens do mesmo fotógrafo do das chinelas, Gaspar Ferreira, saiu em Fevereiro de 1909 em trata de um outro artigo das artes tradicionais de Guimarães, a louça de barro vermelho, de que hoje tem a cantarinha dos namorados como ex-libris. Neste artigo, Alfredo Guimarães revisita os velhos processos de fabrico da louça de Guimarães e visita as oficinas de dois oleiros da terra, o Réu e o Rainha.

Aqui fica.


LOUÇA VERMELHA DE GUIMARÃES
Os fragmentos de cerâmica, ora encontrados por várias escavações de interesse arqueológico, são o mais antigo indício da existência de inúmeras civilizações pré-históricas.
Brongniart considera o mister das lourarias, ou melhor, a aplicação dos barros às necessidades da vida interna de cada lar, quase tão primitivo como o Adão dos textos hebraicos. E na vida indistinta das primeiras idades não só às exigências urbanas se utilizaram os interessantes assomos da olaria popular: as crenças religiosas da antiguidade intermetiam no culto magoado dos mortos a ornamentação da necrópole, com numerosos utensílios de mobiliário cerâmico, como são testemunho os materiais recolhidos nos pequenos museus portugueses, dedicados ao estudo das civilizações apagadas.
1 - Trabalhando à roda.
Primitivamente, o emprego do barro, como produção utilitária, obedeceu às circunstancias únicas da modelação manual. A configuração dos frutos e da flora deram os primeiros desenhos à produção plástica. E na sequência das necessidades, que originaram, por sua vez, a evolução progressiva desse trabalho paciente, surgiram os vasos apodes, de duvidosa consistência, inúteis para a conservação dilatada dos materiais caseiros.
Ao desenho dos vasos primitivos (cuja definição ou interpretação seria demasiado profunda para tratar na fuga literária deste artigo) podemos aproximar, como realização de próximo carácter, os desenhos ainda hoje gravados no fuso e roca populares, vagamente estilizados, de uma ingenuidade deliciosa.
Entretanto a modelação obreira seguia, progredindo.
2 - Últimos toques.
Até que, após a idade de bronze, surgiu a roda do oleiro — invento duma curiosidade flagrante e inteligente, definidora de todas as rudes dificuldades desse passado longínquo, e ponto de apoio para o intenso movimento industrial que tantos séculos depois tornara inimitável e divina a cerâmica grega; dera às faianças francesas do século XVIII toda a galanteria e deliciosa superficialidade dos figurinos da época; e deixou em cada burgo do nosso velho Portugal, entre tantas cenas curiosas e tantos hábitos inovados, a velha fábrica das olarias populares.
*
Estes louceiros de Guimarães são já coevos de Dona Muma, esposa do conde Hermenegildo Mendes, e senhora do burgo e várzea de “Vimaranes”, em tempos de Ramiro II, rei de Leão.
A louça que ora se fabrica nos arredores da velha cidade histórica compreende o mesmo tipo de manufactura barrista que geralmente é conhecido por originário das proximidades do Prado.
3 - Enquanto uns trabalham, outros descansam.
Antigamente, segundo os bastos conhecimentos dum profissional, a carrada de barro chegava a Guimarães em forma de broa. Era importada de Vila Verde. E tinha um destino idêntico o carro de mato que serve para o escaldo do forno.
Hoje o barro é vendido ao oleiro tal como o cavam nas montanhas; e a “matada” arrecadam-na os lavradores dos subúrbios da cidade.
Depois, pisada, para a inutilização dos atritos, a matéria prima dos oleiros é peneirada sobre um crivo de arame, para entre as “cambeiras” de madeira da oficina, à semelhança da moedura dos moleiros regionais; e logo passa ao “pio” de amassar; dali, em grandes broas, para junto do “rodalho” primitivo.
Estamos no início do primeiro testo ou da primeira cantarinha.
Com que apurada e curiosa paciência trabalha o oleiro, coando o vasilhame do seu ofício nas mil voltas o “rodalho” avoengo! Os púcaros, as chocolateiras, os alguidares, os assadores, que infinita canseira provém dessa turbamulta de objectos, cujo fabrico é o mais mal retribuído possível ... Cansa-se o obreiro na produção “por dúzia”, levantando o corpo magoado ao ser trindades com o rendimento mesquinho de 300 réis diários.
4 - À porta da oficina do Réu: uma exposição de louça verde.
A ornamentação da olaria vimaranense não reclama emprego de grandes apuros de fantasia. Num recente estudo acerca das louças de Prado, escrito pelo erudito etnografista Rocha Peixoto, consideram-se os desenhos da louça vermelha de Guimarães de carácter primitivo. Nem outra coisa devíamos esperar. São de Guimarães, a cidade é antiga; formidável, fala do seu passado o castelo roqueiro de Dona Muma; era forçoso que tudo fosse antiquado.
E após a ordenação do modelo da panela, da infusa. dos “estros” de ladrilhar; colocado o busso e o colo do cântaro de barro; temos logo a refrega do cozimento. Obrigando o local do trabalho, por três horas, ao “temperamento”, encastelam gradualmente a louça verde, até preencherem todo o espaço do forno.
5 - As sete horas de cozedura.
O cozimento da louça de Guimarães faz-se durante 6 a 7 horas. O forno, cuidadosamente alimentado de mato, avermelha com vagar a plasticidade cinzenta dos vasos. E cautelosamente, ainda, desenfornam os operários os interessantes exemplares cerâmicos do seu constante modo de viver.
Na fábrica do velho oleiro Rainha ou na fabrica do Réu, ao lugar da Cruz da Pedra, em Guimarães, fabricam-se hoje, como sempre, as peças de olaria mais rudimentares. As fotografias que acompanham este passageiro artigo foram obtidas na oficina do primeiro daqueles industriais, e reproduzem velhos e conhecidos movimentos do fabrico manual das olarias, com flagrante exactidão.
Ao uso antigo, os oleiros de Guimarães escolheram o seu bairro; poisam no mesmo local. Outrora os filhos sucediam aos pais no mister mais vantajoso, tradicional nas famílias; e ininterruptamente, brunindo sobre o movimento do “rodalho”, trouxeram até aos nossos dias um género industrial que, com a produção das cutilarias e o engenho engraçado dos antiquíssimos moleiros do rio Selho, forma a trilogia histórica dos inícios desse grande movimento fabril que em meados do século passado tornou a cidade de Guimarães, relativamente, o maior centro industrial do Norte.
6 - A louça a sair do forno.
A produção oleira dessa velha cidade mal remedeia, cm nossos dias, o consumo garantido pelas aldeias dos arredores. Não excede o número de trinta a população obreira das louças de Guimarães. E de ano para ano vão minguando as fornadas e cargas de olaria que, dentro de grandes canastros de verga, abastecem o mercado semanal do concelho.
Os cântaros, púcaros, panelas, testos, chocolateiras, vasos para flores, alguidares, botijas, tubos de encanação, estros para ladrilho de fornos e fornos de cozedura de padaria, que ora se fabricam em Guimarães, mais que pela sua utilidade podem servir-nos para estudo do primitivo trabalho barrista, nos ingénuos ornatos do seu modelo. As dedadas da ornamentação impressas no colo de cada cântaro, as curvaturas gizadas casualmente em torno do busso dos grandes panelões, atestam de que longínquas e apagadas idades vem o esquema desses desenhos singulares de ingenuidade, e quantos anos distantes do nosso tempo continuam passando e bruxuleando os primeiros fogos da inspiração ceramista.
7 - Para comprar barato, comprar à boca do forno.
E, no entanto, estas velhas usanças, como todas as coisas tradicionais, têm o seu quê de interessante...
*
Gosto de ver, numa estrada ou rua de cidade provinciana, um bojudo pote de barro, cheio até à boca, esbordando e esfiapando agua azulada sobre o corpo moço e forte das raparigas.
Que molhadela engraçada!
Nas antigas fontes de pedra, onde os golfinhos da velha fauna latina abrem de dia e noite, com monótono ruído, a sua língua de água, clara; nas fontes velhas dos burgos encenam-se as visitas da servente minhota, com o seu cântaro da fábrica regional, poisando, esperando a vez, tagarelando dos arrufos caseiros.
Em má língua, o tanque excede o estanco ou Havaneza da localidade.
E no sarilho das rixas violentas, entre os braços que se levantam c as vozes desregradas, esse cântaro modelado com tanta canseira, dum murro, dá (como se diz) a alma ao criador.
Na relação que esta circunstância tem com o assumpto do nosso artigo, entram em camaradagem os oleiros de Guimarães, o Simão Botelho da novela de Camilo Castelo Branco, e o beato Santo António de Lisboa; quer dizer, o oleiro fabrica, Simão Botelho arrebenta, e Santo Antonio conserta.
8 - Na oficina do Rainha: uma carga para a feira.
Julgo que podemos ficar sossegados quanto ao destino dos presentes e futuros cântaros de barro.
*
Não sei dizer se era ainda possível tornar considerável de merecimentos esta olaria vimaranense. Nem sei dizer, mesmo, se é possível acudir ao ruinoso estado industrial da cidade de Guimarães.
A crápula da política em que modernamente se atascam os cidadãos provincianos parece querer provar-nos que nada mais merece as suas atenções.
Nada mais, em verdade...
Que se acabem assim, desastradamente, os curiosos afazeres da olaria de Guimarães; que continuem inúteis as aulas de modelação da escola industrial desse concelho; que os mancomunados e arranjados da política continuem vencendo as eleições.
Ele que importa...
9 - Canastro da condução da louça.
Quando essa pobre família dos oleiros completamente desaparecer; quando já se não fale nas velhas e contribuidoras olarias de vimaranenses; então há-de surgir alguém que, ao estado ruinoso da vida comercial, industrial e agrícola do concelho, reúna, por muitas origens, o desmoronamento dessa indústria popular.
As câmaras concelhias compreendem como único objecto da sua qualidade administrativa, o terem de ordenar o calcetamento de certa estrada; a abertura de certa rua, a submissão de certo empregado. Erro. Às camaras concelhias cabe a obrigação de desenvolverem, no sentido de engrandecimento, o estado económico das classes operárias que dirigem, de promoverem a evolução do seu trabalho, de tornarem o mais desafogado possível o viver industrial do concelho da sua gerência.
E porque isto se não faz em Guimarães, para o trabalho das olarias, é que eu aponto a inutilidade da escola de modelação na absolutamente inútil escola industrial que lá funciona.
Entretanto deixem-me despedir desta velha indústria da minha terra, que não dará aos netos dos meus conterrâneos nem um só vicejo da sua graça ela que já era coeva de Dona Muma, a esposa do conde Hermenegildo Mendes e senhora do burgo e várzea de “Vimaranes”, em tempos de Ramiro II, rei de Leão.
Tenho dito.

ALFREDO GUIMARÃES.
(Clichés de GASPAR FERREIRA)
Ilustração Portuguesa, n.º 156, Lisboa, 15 de Fevereiro de 1909


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15 de outubro de 2017

O Minho, por Alfredo Guimarães



Alfredo Guimarães, que nasceu em Guimarães a 7 de Setembro de 1882 e ficou conhecido por ter sido o instalador e o primeiro director do Museu de Alberto Sampaio, é um jornalista, escritor crítico de arte com basta obra publicada, nomeadamente dispersa por diversas publicações periódicas, nomeadamente na Ilustração Portuguesa, em cujas páginas marcou presença assídua entre 1909 e 1921. O primeiro texto que Alfredo Guimarães escreveu para a Ilustração Portuguesa versava sobre o mesmo tema do Conde de Arnoso, que aqui publicámos antes, O Minho. No entanto, o olhar de Alfredo Guimarães sobre a região que o viu nascer é diferente do do seu conterrâneo, um tanto mais político e muito mais crítico. Estávamos em 1909, e a República já se anunciava. Alfredo Guimarães era republicano.
 
ASPECTOS DO MINHO
Na viagem para o Minho, próximo do local onde o Vizela e o Ave se reúnem para correrem juntos até às areias de Vila do Conde, há uma pequena estação de aldeia a que chamam a Trofa, onde o “leitor solícito” poderá iniciar o roteiro desta excursão de mero carácter literário.
Ao domingo, se tivermos partido do Porto no primeiro comboio da manhã, teremos o divertimento sobremaneira curioso da missa do dia e feira de tamancos, chapéus bragueses, varapaus ferrados, em frente da estação aldeã e no adro da igreja de S. Martinho. Se for no Verão, há a festada da praxe. E acomodados no primeiro trem da via-férrea da companhia de Guimarães, seremos de novo no caminho do desportivo interesse que nos preocupa.
Abro-lhe as portas, leitor amigo: é este o Baixo Minho dos romances bucólicos que por aí se lêem. Sigamos o nosso rumo; e não estranhe que eu próprio, filho da terra, encontre muita novidade e muito prazer por estes sítios tanto do meu conhecimento.
Não se poderá afirmar rapidamente, qual, de entre o povo e a terra completou o seu semelhante: se as canções, o vestuário e os costumes morais deram expressão à paisagem, moldando-a num singular efeito cenográfico; se a paisagem, do seu espírito diverso, cenograficamente inquieto, atingindo linhas e posições semelhantes do movimento humano, pôde insinuar na alma do povo a sua imprevista, espontânea e vegetal maneira de ser.
Integram-se continuamente.
E como a terra é semelhante das suas populações, assim a terra e as suas tribos campónias se isolam em curiosas particularidades pelo espaço relativo duma dúzia de léguas. Esses outros lavradores de Viana do Castelo são mais, muito mais expansivos que o lavrador dos arredores de Guimarães. Segue a ordem, nesta diferenciação regional, a paisagem, que no alto do corpo provincial é clara, dum verde suave e arejado, e logo se assombreia, como numa descida de encosta, aparecendo escura e um tanto pesada nos arredores melancólicos e húmidos da velha e triste cidade do rei primeiro.
Internados uma vez no campo, não é à família minhota (de ordinário mesquinha e rude de costumes) que mais interessantemente procuramos observar. São os grandes soutos de carvalhos, tostados da soalheira, inúmeros, baixos e pesados como uma grande reunião de burgueses; são as longas planícies da beira-rio, pinceladas dum verde lustroso e virgem são os altos exércitos de bravio, perfilados no serro dos montes sinuosos e como vigiando a gestação ingénua das semente: dos quinteiros e da seara e são, ainda, desposando a vigorosidade moça da terra, os ramos claros das laranjeiras, a flor simbólica de todos os romances de amor, cujo perfume embriagante é irmão dessa doce ilusão que, à guisa de prólogo, antecipa o melodrama áspero do matrimónio.
Independente dos cultivos livres e mais árduos do campo, o cuidado pelos mimos pequeninos do quintal. O serpão-limão que perfuma de gosto e natureza todas as substanciais sopas de clérigo; a alfádega verde, que sobe em grandes cestos de verga até ao escadório dos santuários, um dia de caramol ou romaria soalhenta; os cachos tristes dos lilases, caindo dos muros das casas senhoriais; as pontas cheirosas da hortelã; as maias amareladas, as japoneiras, as macieiras claras de Março; e então, assentes nos cachorros de pedra da casa rústica, os cravos do S. João — alguns violentos de cor, na sua perfumada e estuante folhagem sanguínea; outros delicados e frescos, quase flores de sangue azul na seda macia das suas folhas claras.
E deste modo se compreende com que suave e perfeito gosto a natureza discorre e trabalha no adorno de si mesma.
*
Depois, tudo é criado ao jeito e à razão da terra. A tua geração inconsciente e casual, “leitor solicito”, é homogénea dessa outra existência, toda vegetal e espontaneamente impenetrável, em prólogo ou epitáfio definidos, que não sabemos com que razão desabrocha, vive e silenciosamente passa. A natureza, a natureza!... E em tudo tão imprevista e enigmática que eu não hesito em afirmar que, como da tua alma, a maior vantagem da beleza campestre advém, ingenitamente, da sugestão do seu mistério.~
Em dias de descanso, mais do que nas grandes fainas do trabalho agrícola, temos o elemento coreográfico da população minhota, movimentando-se alegremente desde o ser dia até que o sino da paróquia badala às Almas nas nove horas do Verão. Mas a mulher do Baixo Minho não possui metade dos encantos da aldeã rosada de Caminha ou dos castrejos dos Arcos do Valdevez. Outro tanto posso dizer do que veste e do que combina em arranjo caseiro. Moralmente é inútil, ou pelo menos vulgar. E no vestuário acresce-lhe o costume antiestético dos claros sobre claros, em grandes gamas brancas, com nenhuma transição psíquica no que origina os contrastes externos dum carácter, a combinação pictural, a corografia comum das regiões.
Por isso é que o campo do sul do Minho é único em manifestações pitorescas, e mais encantadoras quanto mais isolado o vejo.
*
Hoje, por onde a vinha minhota cresce, semelhante a uma aralha enorme subindo os troncos aromáticos das cerejeiras; e onde o cultivo diverso se ramifica em grandes leiras e hortas de qualidade — ninguém reconhecerá a terra (tão igual e rasa é a decoração do quadro campesino) onde, numa época mais lógica e mais harmónica, inúmeros conventos de inúmeras seitas congreganistas levantaram os muros fortes da casa do seu ofício religioso e operário, aparentemente eternos para muitas das gerações que nos precederam. Onde os princípios da religião e da humanidade grande vida lograram, numa outra e mais perfeita ordem moral, sobem agora as heras rudes e carnosas que tudo sistematizam de agonia e ruina, impiedosas como o critério social dos homens, e tão indiferentes no seu viver que mal pensam em que preciosos e pitorescos muros lavraram a sua teia verde e destruidora.
Foi, sem dúvida, pela quinta decorada dos conventos, que outrora se decorou a propriedade cuidada e interessante da velha fidalguia portuguesa. Empregavam-se, numa indubitável comunidade de costumes e gostos, os mesmos motivos de adorno, a mesma topografia agrícola. E a quinta não era, como nos nossos dias, simplesmente um processo de afazer industrial, um meio de viver.
Assim tu te renovasses, mais estimada e mais compreendida, natureza suave e excepcional do meu lugar.
ALFREDO GUIMARÃES.

Ilustração Portuguesa, n.º 156, Lisboa, 11 de Janeiro de 1909
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