16 de dezembro de 2017

Os "amigos" do Castelo (2)

O Castelo de Guimarães, fotografado por Frederik W. Flower em 1845
A Comissão que que foi criada em 1850 para “reparar, reedificar e embelezar” o castelo de Guimarães tinha um programa de intervenção ambicioso. Iria proceder à reparação dos muros do Castelo, em parte em ruínas, dotar o alcácer de condições que permitissem percorrer o seu interior em condições de “segurança e suavidade”, fazendo portas, escadas, parapeitos e grades e ligar as suas diferentes torres (a que chamavam “castelos”) à torre de menagem (o “castelo central”), que seria repartida por vários pisos, com um terraço no seu topo que, pela altura a que se erguia, permitia “o melhor golpe de vista”. Sabemos pouco da intervenção de que o Castelo de Guimarães por obra desta comissão de melhoramentos. Mas sabemos o suficiente para nos  parecer perfeitamente ajustado o nome pelo qual não tardou a ficar conhecida: Comissão do Mirante.
As notícias que temos sobre do andamento das obras e as reacções que provocavam foram guardadas pelo inestimável João Lopes de Faria, que as copiou para as notas que compilou no volume Velharias Vimaranenses. A primeira é uma nota que saiu no jornal Ecco Popular, que se publicava no Porto, que João Lopes encontrou republicada a 5 de Setembro de 1850 num outro periódico, A Nação,
Há dias demos a notícia da nomeação de uma comissão (pela Câmara) encarregada dos meios de conservar o Castelo desta vila. Em vez de o conservarem têm-no metamorfoseado em mirante chinês: as seteiras foram convertidas em amplas janelas rasgadas; a rampa é uma escadaria moderna e o pano da muralha que unia o palácio ao Castelo sumiu-se. Os pintadinhos e doiradinhos dão-lhe uma tal graça que não sabemos porque o pobre do castelo nos dá seus ares de el-Rei D. Afonso Henriques vestido à janota.
Na opinião do articulista do Ecco Popular, o velho castelo de Guimarães estava a ser metamorfoseado num mirante chinês, com pintadinhos e doiradinhos. Um texto publicado no A Nação, em 30 de Setembro, dava conta da continuação do processo de descaracterização do monumento, e deixa um conselho sábio: “se não são capazes de compreenderem o que é a reparação de um antigo monumento, deixem-no como está”:
Consta-nos que a comissão encarregada da reparação do castelo de Guimarães tem continuado a exercer uma missão inteiramente contrária ao título da sua criação. Longe de reparar, destrói; longe de reestabelecer o que o tempo, e algumas vezes a ignorância, danificou, tem arruinado mais em poucos tempos, do que alguns séculos o poderiam fazer.
Pedimos a mais séria atenção do governo para semelhante objecto. Desejávamos ver desmentidas estas notícias, porque nos dói tanta barbária, onde esperávamos encontrar gente civilizada.
Inda que o governo [apure] se é ou não verdade que o palácio do Conde D. Henrique, aquele primeiro abrigo do fundador da monarquia, vai caindo aos golpes do camartelo.
Esperámos que não brademos debalde.
Queremos que se repare o castelo, queremos ver aquele monumento ressuscitado hoje, como era no primeiro século de sua existência.
Restaurem a cisterna, restaurem os muros; numa palavra, restaurem o castelo; não façam mirantes.
Se não são capazes de compreenderem o que é a reparação de um antigo monumento, deixem-no como está.
Sabemos que já alguém chama à comissão de reparadores do castelo — a Comissão do Mirante.
Ao menos adquirem um nome, que os há-de honrar!
Lembrem-se que a pedra também fala à posteridade.

Foi caso para dizer-se: com amigos como estes, quem precisa de inimigos?
[Continua]
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15 de dezembro de 2017

Os "amigos" do Castelo (1)

O Castelo de Guimarães em 1850. Desenho e litografia de J. P. Monteiro. 

Em 1829, 1836 e 1839 aventou-se a demolição do castelo ou, pelo menos da sua torre de menagem. Em 1836, quando ainda não se tinham apagado os ecos da guerra civil, a proposta partiu de um liberal mais exaltado, que pretendia fazer ao Castelo de Guimarães o mesmo que os revolucionários da França de 1779 fizeram à Bastilha, “por ser uma cadeia bárbara que serviu no tempo da usurpação”. Nos três casos, havia uma outra razão, menos revolucionária: as pedras do castelo (ou a receita da sua venda) seriam muito úteis para melhoramentos urbanos, nomeadamente para a reparação das calçadas das ruas. Das três vezes prevaleceu o valor histórico e patrimonial do velho monumento, que sobreviveu às tentativas para o derrubar.
Poucos anos mais tarde, quando o século XIX dobrava a meio, já o espírito do tempo era bem diferente. Já não se falava em arrasar o castelo, mas em cuidar dele. A Câmara Municipal instalou uma Comissão de cidadãos com a missão de “reparar, reedificar e embelezar o Castelo desta mesma Vila tão notável pela sua tradição e antiguidade, como belo e agradável pela sua posição”. No dia 21 de Julho de 1850, esta comissão fez distribuir uma circular em que anunciava os seus propósitos e solicitava o apoio, nomeadamente financeiro, dos seus concidadãos para poderem levar a bom termo a sua missão. E o velho e austero castelo de Guimarães, que tinha resistido a três tentativas para o derrubar, quase que morria às mãos de quem se apresentou para o salvar. Mas essa é uma história que contaremos mais lá para diante.
Por agora, aqui fica o artigo que Alberto Vieira Braga publicou em 1927, em que divulgava a circular da comissão de 1850.
~*~
O Castelo de Guimarães
Os seus velhos Amigos de há perto de um século.
Principiam agora a dispensar no Castelo de Guimarães muitas honras, honras de Chamadoiro no tocante ao registo ministerial, e se de alguma coisa estas crismas valem, que valham praticamente, tornando os honrarias protocolares no valimento de obras necessárias, a que de há muito espera aquela relíquia, considerada Monumento Nacional nos livros velhos das repartições ligadas ao assunto monumentos.
Agora todos lhe querem e o querem, porque o vêem desencantado dos quintalórios, tendo merecido honras de proveito e de valor no esforço votado, quase que em silêncio e modestamente, para desentulhar, num rasgado de nova sensação, tão majestoso Castelo, que nos aparece nas primitivas bases de domínio e
Quem sabia lá como aquilo era!
E afinal assim por ali de roda devia ter sido o pedestal do Castelo dominador.
Fez bem a Câmara em ordenar aquela sua melhor obra, e muito se deve a José de Pina, que tem sabido olhar por ela e dela tem sido a alma, dispensando-lhe amor e saber, no arranjo da moldura para ainda ao jeito tão grande maravilha, imponente nas torres que se levantaram no passado em mirantes de vigília e de guerra.
Agora, que os que lhe deram as honrarias da nova incorporação ministerial, lhe completem a obra, para que o Castelo de Guimarães seja como deve e merece, o orgulho maior dos Portugueses.
Na imprensa tem tido ele, ultimamente, os melhores pugnadores, bons e persistentes pugnadores, tem sido incensado como merece, tem sido carinhosamente tratado de palavras, e de ânimo valoroso e em riste têm os pugnadores vigilantes, entusiasmado os homens do mando para que para que façam no Castelo as obras de que necessita.
Amigos, teve-os sempre. O interesse dos Vimaranenses por aquela relíquia, foi de todos os tempos.
E é bom que se saiba tudo isto, para satisfação nossa, para elogio dos nossos antepassados, que sempre pugnaram pela melhoria e conservação do Castelo de Guimarães.
Quem revolve papéis velhos topa sempre coisas interessantes, e interessante não deixa de ser a circular que um grupo de Vimaranenses espalhou há 77 anos pela vila de Guimarães, em defesa do Castelo.
Dessa data em diante, uma vez o grito lançado, surgiram os primeiros amigos do Castelo.
É curioso o plano de melhoramentos de então, muito ao sabor desses tempos, que não se abriam em rasgos e larguezas de obras bem calculadas e bem ajustadas.
Mas louvemos-lhes a boa vontade.
Com os tempos, é bem certo, voltam outros homens e mudam muitas coisas.
Surgiram, pois, em 1850, os primeiros amigos do Castelo, e deles nasceu o primeiro plano de obras.
Não queremos dizer que esta data seja a mais antiga defensora do Castelo. A mais antiga e conhecida até hoje, sim, é natural...
A circular diz:
“A Comissão composta dos Cidadãos abaixo mencionados, e instalada debaixo dos auspícios da Ilma. Câmara desta Vila de Guimarães, para o fim de explorar, reparar, reedificar e embelezar o Castelo desta mesma Vila tão notável pela sua tradição e antiguidade, como belo e agradável pela sua posição apresentando os melhores pontos de vista, convida todos os Cidadãos desta mesma Vila para subscreverem com quaisquer quantias a fim de ser levada a efeito uma tal empresa de reconhecido e geral interesse.
A Comissão tem em vista reparar os muros do Castelo que se acham desmoronados, e em estado de ruína, fazer portas, escadas, parapeitos e grades, para que se possa passear em volta do mesmo Castelo com segurança e suavidade — tornar comunicáveis os pequenos castelos com o grande Castelo Central, fazendo-se neste diferentes andares, sendo o último um terraço, que pela sua elevação apresentará o melhor golpe de vista — reparar a Capela de S. João e fazer enfim tudo o mais que se torne útil e conveniente na proporção dos meios que se forem obtendo.
A Comissão não poupará esforços para corresponder à confiança da Ilma. Câmara sempre desvelada em promover os interesses e vantagens do Município. A mesma Comissão para dar aos Cidadãos desta Vila um testemunho liei dos interesses que toma nesta empresa, não só concorre com seus trabalhos e fadigas, mas também subscreve com quotas pecuniárias, e espera que seus Concidadãos Vimaranenses animados de igual interesse seguirão o seu exemplo.
Guimarães, 21 de Julho de 1850,
Presidente
Rodrigo Lobo Machado e Couros.
Domingos de S. Miguel Durães.
João Machado de Melo e Castro.
Francisco de Azevedo Varela.
Custódio José Fernandes Guimarães.
João António Fernandes Guimarães.”

Agora, e pelo mesmo preço, um alvitre:
Que aprontem as obras no próximo ano, lá para a data da batalha de S. Mamede, e servindo o Castelo de pano de fundo, de cenário imponente e majestoso, fora ou dentro, quer na lembrança das lutas íntimas, quer na recordação de guerrilhas em campo livre, façam que ali, alguém de nome, em apoteose, venha dizer do valor daquele monumento e do seu significado dentro da história de Portugal, fazendo-nos viver aquela vida toda de entre as muralhas, ameias e torres, erguendo os nossos olhos as figuras mais prestigiosas do tempo, e assim terão dado uma lição de civismo, de passo que tornarão conhecida do povo a história de Guimarães, ligada ao tão falado Castelo, velho Monumento Nacional.
Alberto V. Braga
O Comércio de Guimarães, 14 de Outubro de 1927

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14 de dezembro de 2017

Não vai abaixo.

Em 1836, como já vimos, foi estrondosamente chumbada em reunião da Sociedade Patriótica Vimaranense uma proposta para demolir o Castelo. Já vimos também que não tinha sido a primeira vez que alguém tentou avançar com ideia tão peregrina. Também não terá sido a última. Em 1939 voltou a estar em cima da mesa, como nos diz Alexandre Herculano, na segunda parte do artigo que publicou no jornal O panorama, em Fevereiro de 1839, com o título “Monumentos”, onde, a dada altura, escreve, a propósito das obras que os cónegos tinham mandado fazer na Colegiada:
E os habitantes de Guimarães que disseram, durante oito anos que os vermes andaram a roer naquele cadáver?
Louvaram o bonito da nova obra: e alguns há que já se lembram [segundo nos diz o nosso correspondente] de demolir os restos das venerandas muralhas, que de tantos combates são testemunhas, e de pôr ao livel do chão as paredes que ainda existem dos paços de D. Henrique; dos paços, onde D. Afonso 1 .º nasceu, e onde, passados anos, entrou vitorioso do sua mãe, que vendera a terra de homens livres por preço do amor do estrangeiro. Arrasar-se-ão, pois, os restos dos muros alevantados pelo rei lavrador, e os paços dos nossos primeiros monarcas, e apenas ficara aí o frontispício da antiga colegiada, como esquecido pelos vândalos do pau dourado, e do estuque, enquanto se aguçam as picaretas que o devem derrubar, ou se vai delindo a cal, com que, para rasgar de todo o último documento de nobreza da velha Guimarães, se há-de branquear e estragar esta última página do passado, para consolação e regalo da ilustradíssima geração actual.
E haverá um governo que o permita?*
Texto de Alexandre Herculano, originalmente publicado sem assinatura em O panorama: jornal literário e instrutivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis Vol. III, 3.º da 1ª Série, N.º 93, 9 de Fevereiro de 1839, p. 44.
No jornal O Ecco, na sua edição de 12 de Novembro de 1839, voltámos a encontrar referência à intenção de vender a pedra do Castelo e do Paço dos Duques, num texto que reproduz de um outro periódico, O Paquete do Ultramar, onde se lia:
Assim vemos nós esses gigantescos edifícios que a piedade erguera, caírem, uns no alvião da inovação, outros à fúria sistemática dos tempos. Agora mesmo dois respeitáveis edifícios de Guimarães, os mais velhos, os mais históricos foram louvados para serem vendidos!! Um é o Castelo! o outro o Palácio do Duque D. Jaime! Monumentos orgulhosos, sobre cujas cúpulas eternas tinham passado os Séculos! Ambos serão da fundação da Monarquia, e o último servia de quartel desde a Guerra Peninsular; quartel em que a Nação gastou muitos mil cruzados; para agora ver em terra, com o vil interesse de lhe vender a pedra!! E não surgiram das sepulturas as sombras de nossos A vós, e não suspenderam o alvião deste Progresso vandálico! Não haverá uma Câmara que se oponha! Sofrerá o passado ser absorvido pelo presente! as recordações históricas pelo esquecimento! e a glória do nosso nome pelo charlatismo nivelador! Homens das inovações, sectários do vandalismo moderno, que mal vos fez a nossa infeliz Pátria? quereis que este torrão chamado Portugal não seja português? quereis que ele seja castelhano? envergonhais-vos se nossos Pais venceram sempre os Castelhanos, e em 1640 anularam com heroísmo a venda infame que traidores deles fizeram aos vassalos de Filipe! Que quereis vós? Grande parte de nossos venerandos templos desapareceram da face do País para apagar os Emblemas da Religião! Nossos monumentos históricos vão caindo para extinguir a memória de nossos antigos feitos! Arrasai o Convento de Belém, que marca a época do descobrimento da Índia! Arrasai o Convento da Batalha, que nos lembra o combate de Aljubarrota, e a vergonha dos vossos amigos Castelhanos! Derrubai a Estátua, que nos memora a reedificação da Capital, e o reinado de um grande Rei! Vossa lava revolucionaria levou consigo a lei fundamental do País! nossos, antigos códigos, nossa indústria, nosso comércio, nosso exército, nossa riqueza; que mais quereis!
O Ecco, Jornal crítico, literário e político, n.º 423, 12 de Novembro de 1839, p. 7162-7163 (transcrição de artigo publicado no n.º 104 da publicação Paquete do Ultramar)

O que diz Herculano, baseado em informação que lhe fora transmitida de Guimarães é confirmado pela acta da reunião da vereação da Câmara de Guimarães de 22 de Outubro daquele ano, de onde se fica a saber que um tal Joaquim José da Cunha pretendia que lhe fosse concedido, por aforamento, uma porção de terreno pertencente ao castelo. Naquela reunião, foi cancelada a vistoria ao terreno pretendido, que estava marcada para do dia 27 de Novembro daquele ano, até que se apurasse quem era o seu proprietário, se a Câmara, se o Estado.
Não consegui apurar se a vistoria se chegou a realizar. O que é certo é que, três dias depois da data para que estava inicialmente prevista, a Câmara dirigiu à rainha D. Maria II um pedido para que fossem conservados aqueles dois monumentos.
Não foi desta que o castelo foi abaixo.




* A versão refundida deste texto que foi publicada no segundo tomo dos Opúsculos de Alexandre Herculano é um pouco diferente:

E que disseram os habitantes de Guimarães, durante oito anos em que os vermes andaram a roer naquele cadáver?

Louvaram o bonito da obra. O longo tasquinhar do cabido despertou-lhes, até, o apetite. Alguns lembram-se já de demolir as muralhas da vila reconstruídas por D. Dinis. Talham ainda ban­quete mais lauto. Tentam arrasar as paredes que restam dos paços do conde Henrique; dos paços onde Afonso I, nasceu. A glória dos cónegos de Santa Maria, da Oliveira, tão dispendiosamente; conquistada, ofuscar-se-ia, assim, por pouco dinheiro, como a luz pálida da lua nos esplendores do surgir do sol.

Alexandre Herculano, “Monumentos Pátrios”, in Opúsculos – Obras Públicas, 1873, Tomo II, págs. 39-43





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13 de dezembro de 2017

Estão verdes, não prestam.

Coração da Caldeiroa, Julho de 2017. Fotografia de Álvaro Prado.
Não era autóctone, dizem. Foi abaixo. Será que a seguir também vão abaixo todas as árvores não autóctones dos nossos jardins públicos? As japoneiras e os jacarandás dos jardins de Vila Flor? Ou será que que já andam a afiar os dentes das serras para se atirarem aos lódãos da Avenida?

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Os ícones também se abatem.


Era uma imagem icónica no Toural, a palmeira que espreitava a praça por entre o casario que, quando cresceu, a respeitou e não lhe tapou as vistas. Já não a veremos mais. Foi mandada abater por quem faz juras de paixão e eterno amor ao verde, ao mesmo tempo que esconde as mãos com os dedos cruzados em figas.
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Dias melhores.



Praça da Oliveira, dia 13 de Dezembro de 2001, 16:00  horas. António Magalhães anunciava a confirmação da notícia esperada: Guimarães é Património Mundial. Naquele dia de Santa Luzia, a cidade tinha motivos para sorrir. Foi há muito pouco tempo mas, olhando para os dias cinzentos que caíram sobre a cidade, dir-se-ia que terá sido numa outra encarnação.

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Não morreu de pé.


Lá de onde estava, espreitava o Toural, que viu mudar várias vezes. Sobreviveu a golpes de Estado e revoluções. Viu os vimaranenses chorarem as vítimas da tragédia da Basílica e acompanhou o entusiasmo das gentes de Guimarães que nela se juntaram para reerguerem em cinco dias uma praça de touros. Contemplou as celebrações das conquistas do Vitória. Abraçou o mar de gente que celebrou a Capital Europeia da Cultura. Resistiu a tempestades e tormentas. Sobreviveu aos mandatos de muitos presidentes da Câmara. Mataram-na hoje. Vão dizer que foram ratos os que a mataram.

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12 de dezembro de 2017

Vai abaixo?


A tentativa frustrada de derrubar o castelo de Guimarães em 1836, de onde se construiu a verdade alternativa que por aí circula de que foi só por falta de um voto a favor que a demolição não foi avante, não é a única tentativa de que há registo de fazer desaparecer do mapa um dos mais emblemáticos monumentos portugueses. Alguns anos antes, um tal Custódio José Sampaio Guimarães tinha requerido ao juiz de fora do concelho que lhe fosse entregue pretendia “a pedra da torre que se acha colocada no meio do castelo”. Estava-se em 1829, em pleno período da Usurpação, com as guerras liberais em pano de fundo. A pretensão foi levada ao palácio de Queluz, onde D. Miguel instalara a sua corte e a réplica que recebeu não podia ter sido mais clara. Na resposta que o rei deu, datada de 14 de Agosto daquele ano, que chegaria ao juiz de fora de Guimarães, Damião Pereira da Silva, através do Conde de Basto, ordenava-se “que não somente este venerando monumento, mas tudo de que se compõe o mesmo castelo seja intactamente conservado [...] no mesmo estado em que se acha sem a mais mínima alteração nas suas obras interiores e exteriores”.

Aviso de D. Miguel de 14 de Agosto de 1829
SENDO PRESENTE a El-Rei Nosso Senhor o requerimento de Custódio José Sampaio Guimarães em que pretende a pedra da torre que se acha colocada no meio do Castelo da Vila de Guimarães, é o mesmo Augusto Senhor servido ordenar que não somente este Venerando monumento mas tudo de que se compõe o mesmo castelo seja intactamente conservado por ser o palácio em que nasceu o primeiro rei destes reinos e sempre glorioso e invicto o Senhor Dom Afonso Henriques, tendo este monumento há sete séculos resistido à ravage dos tempos e resistirá de futuro sustentado pelas exemplares e excelsas virtudes e um soberano fundador da monarquia portuguesa merecendo em todos os séculos passados a devida consideração aos senhores reis destes reinos assim como agora merece a El-Rei nosso Senhor que ordena se conserve este castelo no mesmo estado em que se acha sem a mais mínima alteração nas suas obras interiores e exteriores, o que já em geral está ordenado pelo Senhor Rei D. João V no alvará de 20 de Agosto de 1721 e pelo Senhor Rei D. João V, de saudosa memória, no alvará de 4 de Fevereiro de 1802. Manda outrossim o mesmo Senhor que este aviso se registe nos livros da Câmara para assim se executar e para constar o quanto El-Rei Nosso Senhor conserva na sua real lembrança o berço da monarquia, o que sempre será lisonjeiro para os habitantes da mesma vila. O que participo a V. S. para que assim se execute. Deus Guarde V. S. Palácio de Queluz em 14 de Agosto de 1829. Conde de Basto. Snr. Damião Pereira da Silva, Juiz de fora da Vila de Guimarães.
No aviso do rei de 14 de Agosto de 1829 referem-se dois alvarás com força de lei, que a seguir se reproduzem. O primeiro, assinado pelo rei D. João V em 1721, tem sido identificado como a cédula de nascimento, em Portugal, do conceito de património e de protecção patrimonial.

Alvará de D. João V, de 20 de Agosto de 1721
EU EL-REI Faço saber aos que este Alvará de Lei virem, que por me representarem o Director e Censores da Academia Real da História Portuguesa, Eclesiástica, e Secular, que procurando examinar por si, e pelos Académicos os Monumentos antigos, que havia, e se podiam descobrir no Reino, dos tempos, em que nele dominarão os Fenícios, Gregos, Persas, Romanos, Godos, e Arábios, se achava que muitos, que poderão existir nos edifícios, estátuas, mármores, cipos, lâminas, chapas, medalhas, moedas, e outros artefactos, por incúria e ignorância do vulgo se tinham consumido, perdendo-se por este modo um meio mui próprio, e adequado, para verificar muitas notícias da venerável antiguidade, assim Sagrada, como Política; e que seria mui conveniente à luz da verdade, e conhecimento dos Séculos passados, que, no que restava de semelhantes memórias, e nas que o tempo descobrisse, se evitasse este dano, em que pode ser muito interessada a glória da Nação Portuguesa, não só nas matérias concernentes à História Secular, mas ainda à Sagrada, que são o instituto, a que se dirige a dita Academia. E desejando eu contribuir com o meu Real poder, para impedir um prejuízo tão sensível, e tão danoso à reputação e glória da antiga Lusitânia, cujo Domínio e Soberania foi Deus servido dar-me; Hei por bem, que daqui em diante nenhuma pessoa, de qualquer estado, qualidade, e condição que seja, desfaça, ou destrua em todo, nem em parte, qualquer edifício, que mostre ser daqueles tempos, ainda que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte as estátuas, mármores, e cipos, em que estiverem esculpi- das algumas figuras, ou tiverem letreiros Fenícios, Gregos, Romanos, Góticos, e Arábicos; ou lâminas, ou chapas de qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros, ou caracteres; como outrossim medalhas, ou moedas, que mostrarem ser daqueles tempos, nem dos inferiores até o reinado do Senhor Rei D. Sebastião; nem encubram, ou ocultem alguma das sobreditas coisas: e encarrego às Câmaras das Cidades, e Vilas deste Reino tenham muito particular cuidado em conservar, e guardar todas as antiguidades sobreditas, e de semelhante qualidade, que houver ao presente, ou ao diante se descobrirem nos limites do seu distrito; e logo que se achar, ou descobrir alguma de novo, darão conta ao Secretário da dita Academia Real, para ele a comunicar ao Director, e Censores, e mais Académicos; e o dito Director e Censores com a notícia, que se lhes participar, poderão dar a providência que lhes parecer necessária, para que melhor se conserve o dito monumento assim descoberto; se o que assim se achar, e descobrir novamente, forem lâminas de metal, chapas, ou medalhas, que tiverem figuras, ou caracteres, ou outrossim moedas de ouro, prata, cobre, ou de qualquer outro metal, as poderão mandar comprar o Director, e Censores do procedido da consignação, que fui servido dar para as despesas da dita Academia; e as pessoas de qualidade, que contravierem esta minha disposição, desfazendo os edifícios daqueles Séculos, estátuas, mármores, e cipos; ou fundindo lâminas, chapas, medalhas, e moedas sobreditas; ou também deteriorando-as em forma, que se não possam conhecer as figuras, e caracteres; ou finalmente encobrindo-as, e ocultando-as, além de incorrerem no meu desagrado, experimentarão também a demonstração, que o caso pedir, e merecer a sua desatenção, negligência, ou malícia; e as pessoas de inferior condição incorrerão nas penas impostas pela Ordenação do Liv. 5. Tit. 12. §. 5., aos que fundem moeda; e porque os que acharem algumas lâminas, chapas, medalhas, e moedas antigas, as quererão vender, e reduzir a moeda corrente, as Câmaras serão obrigadas a comprá-las, e pagá-las prontamente pelo seu justo valor, e as remeterão logo ao Secretário da Academia, que fazendo-as presentes ao Director, e Censores, se mandará satisfazer às Câmaras o seu custo.

Alvará de D. João, Príncipe Regente, de 14 de Fevereiro de 1802


EU O PRÍNCIPE REGENTE Faço saber aos que este Alvará com força de Lei virem : Que por Me representar o Bibliotecário Maior da Real Biblioteca de Lisboa a importância de que seria não só para o conhecimento das Antiguidades Sagradas e Políticas, e para ilustração das Artes e das Ciências, mas para ornamento da mesma Biblioteca, formar-se nela uma grande Colecção de Peças de Antiguidade e raridade, que possa servir aos indicados fins; e querendo que com efeito se forme em utilidade Pública a referida Colecção, Hei por bem suscitar a disposição do Alvará de Lei de 20 de Agosto de 1721, pelo qual o Senhor Rei D. João Quinto, Meu Avô, ordenara em benefício da Academia Real da História Portuguesa a conservação e integridade das estátuas, mármores, cipos, lâminas, e outras peças de antiguidade, em que se achassem figuras, letreiros, ou caracteres, o qual Alvará mando novamente publicar, para se pôr em inteira e plena observância, a bem da Real Biblioteca de Lisboa. Determino porém, que as funções no mesmo Alvará declaradas pertencentes ao Secretário da dita Academia, quanto à correspondência com as Câmaras sobre os monumentos que se acharem, fiquem pertencendo ao bibliotecário Maior da dita Real Biblioteca, devendo o mesmo fazer-me tudo presente pelo Conselheiro, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Fazenda, Inspector Geral da Real Biblioteca de Lisboa, para Eu ordenar as providências necessárias, assim à compra das medalhas, lâminas, e outros objectos semelhantes por conta da minha Real Fazenda, como à conservação dos mesmos objectos, e outras quaisquer que sejam convenientes nesta matéria. 

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10 de dezembro de 2017

A Vila de Raul Brandão (3)

Fotografia de Carlos Mesquita

Os tambores rufam sem interrupção – dir-se-ia que o planeta estoira farto de sonho inútil – e do nada, iluminados a vermelho, brotam bamboleando e somem-se logo sem aparência de realidade, o arco medievo e a mole rendilhada da Sé, para depois a novo clarão ressurgirem só por momentos com a abóbada, o Cristo, as colunatas e os fantásticos recortes de muralha e sombras que tomam corpo e se amontoam nos vastos fundos onde o clarão não penetra.
Raul Brandão, A Farsa, cap. III.
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9 de dezembro de 2017

A patranha de um voto só.


É uma das mentiras mais deslavadas que se contam a propósito do património vimaranense, a que conta que, certo dia, o Castelo de Guimarães esteve para ser demolido e que só o não foi pela diferença de um único voto na sessão da Câmara de Guimarães que terá votado tal proposta. Para comprovar a frequência de tal patranha (não poucas vezes difundida por gente cá da terra) basta colocar num motor de busca um trecho do texto seguinte, que copiei duma página especializada em viagens:
Em 1836, um dos membros da Sociedade Patriótica Vimaranense defendeu a demolição do castelo e a utilização da sua pedra para calcetar as ruas de Guimarães, já que ele tinha servido como prisão política ao tempo de D. Miguel (1828-1834). Embora tal proposta não tenha sido aceite (por um único voto na Câmara Municipal)…
A citação tem duas inverdades:
1.ª — Não foi na Câmara Municipal que foi votada a proposta para a demolição do Castelo de Guimarães, mas sim numa sessão da Sociedade Patriótica Vimaranense, associação defensora dos interesses locais que existiu entre 25 de Outubro de 1835 e 20 de Dezembro de 1836.
2.ª — Não foi pela margem mínima de um voto que a proposta não passou. Foi derrotada por larguíssima margem: dos 19 presentes na reunião, 4 votaram a favor e 15 votaram contra.
Diz-se que uma mentira mil vezes repetida se torna verdade. Não torna, continua a ser mentira. O que acontece, como neste caso, é que muitos, perante uma mentira mil vezes desmentida, continuam a preferir acreditar nela, provavelmente por acharem que, como dizia Francis Bacon, a mentira é mais interessante do que a verdade. A verdade é que venceu a tese de que o Castelo deveria ficar de pé, por “ser um monumento antiquíssimo que recordava a história do país, e muito particularmente a de Guimarães”. Para quem ainda tem dúvidas, aqui fica o extracto da acta da sessão da Sociedade Patriótica Vimaranense do dia 31 de Janeiro de 1836, tal como a dá o magnífico paleógrafo vimaranense João Lopes de Faria, nas suas preciosíssimas Efemérides Vimaranenses:

Às 9 horas e meia da noite, aberta pelo seu presidente Barão de Vila Pouca; lida e aprovada a acta. Por proposta do presidente, na forma dos estatutos, fez-se a eleição da mesa e saíram eleitos: presidente, João Barroso Pereira, vice-presidente, António de Nápoles, secretários José de Sousa Bandeira e António Leite de Castro, vice-secretários Joaquim Pinto Teixeira e José Correia de Oliveira Mendes. Souto, relator da comissão de salubridade, leu o projecto para o conserto das ruas. Bandeira pediu urgência, e, concordando nisso a assembleia, foi posto em discussão na sua generalidade e aprovado em globo. Manuel Baptista Sampaio propôs que todo o dinheiro que se apurasse para este fim, não entrasse nos cofres da Câmara. Vieira, como membro da Câmara, deu explicações e orou a favor do artigo. Abreu, aprovou a necessidade da medida, mas combateu o meio dela. Bandeira, sustentou o artigo e Moreira de Sá contra. Agostinho Vicente, requereu se consultasse a assembleia se a matéria estava discutida, e, decidindo-se que sim, posto o artigo à votação foi aprovado. O 1.º parágrafo teve renhida discussão: oraram contra Abreu, e a favor Basto, Dr. Souto, Bandeira, Pinto Teixeira, Costa, Barroso e Agostinho Vicente, e, julgando-se discutido, posto à votação passou. Costa pediu que se exigisse também a demolição do castelo para o dito fim, e até por ser uma cadeia bárbara que serviu no tempo da usurpação. Agostinho Vicente abundou nas ideias do Costa. Bandeira combateu o argumento lembrando ser um monumento antiquíssimo que recordava a história do país, e muito particularmente a de Guimarães; lembrou o respeito que os ingleses têm aos monumentos antigos, e falando largamente votou contra. Abreu abundou nas ideias da não demolição. Agostinho Vicente falou a favor da demolição, por ter sido prisão do tempo do usurpador. Basto falou no sentido do Bandeira, assim como Souto, Barroso, Moreira de Sá e Vieira, e, julgada a matéria discutida, foi posta à votação. O Bandeira, visto a transcendência do objecto, que nada menos importava do que o privarmos dos testemunhos da antiguidade, requereu votação nominal e, sendo assim decidido, votaram a favor da demolição: Costa(a), Castro, Barão de Vila Pouca e José Correia, e contra: Barroso, Souto, Basto, Ferreira Guimarães, Sampaio, Freitas Guimarães, Vigário de Creixomil, Leite de Castro, Vigário-geral, Arcediago, Lima, Vieira, Maia, Sá e Bandeira. Ficou por isso rejeitado o argumento de Costa. Pinto Teixeira que na redacção não houvesse melindre, por isso que dizendo-se que a Torre, que se pretendia demolir, fora dada ao Cabido, devia o governo ser prevenido disso. Bandeira combateu a ideia, dizendo que ainda que tivesse sido dada ao Cabido para as obras da igreja, o Cabido se não tinha dela aproveitado, e que hoje era pertencente aos Bens Nacionais. Souto, como relator da comissão de salubridade, leu o requerimento para se pedir a vacina: foi aprovado e mandado expedir. Às 10 horas foi levantada a sessão e dada para ordem da noite o projecto das calçadas.

(a) Não sei quem é o célebre Costa, por haver diversos sócios com tal apelido. Castro é Agostinho Vicente Ferreira de Castro; José Correia é o cirurgião José Correia de Oliveira Mendes; Pinto Teixeira é o advogado Joaquim Pinto Teixeira de Carvalho; Bandeira é o escrivão José de Sousa Bandeira.
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A Vila de Raul Brandão (2)

" ....no velho casarão negro e em osso" - Fotografia de Carlos Mesquita

Depois da Escola fui colocado como alferes no 20, em Guimarães. Outra louça. Achei-me numa casa de campo sem conforto nenhum, mas a parada da guarda era às onze entrada e tocava à ordem à uma saída. Meia dúzia de soldados no velho casarão negro e em osso, e oficiais a jogar o gamão, numa sala, ali encantados desde o princípio do Mundo. De quinze em quinze dias uma inspecção: ficava-se no quartel, mas eu, como noivo, fechava os soldados à chave, metia esta no bolso e ia dormir a casa.
Raul Brandão, Vale de Josafat, Memórias, volume III, (capítulo: Vida militar)


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8 de dezembro de 2017

A Vila de Raul Brandão (1)

Fotografia de Carlos Mesquita

Uma das razões que ajudam a perceber porque é que da presença de Raul Brandão em Guimarães não resultou uma clara apropriação do seu nome e da sua obra como património vimaranense, decorre da ideia de que o escritor pouco terá escrito sobre a cidade que adoptou como sua, que parece ignorar que a intriga das obras maiores da sua produção ficcional de Raul Brandão, A Farsa e Húmus, decorre nas ruas e praças de Guimarães.
A Vila de Raul Brandão é triste, encardida, pobre, enegrecida, espectral, onde a humidade se entranha na pedra e o sol se entranha na humidade. Olhamos em volta e temos dificuldade em reconhecer nela a Guimarães de hoje, acolhedora e ciente da sua beleza. Mas esta cidade, onde só a espaços somos capazes de reconhecer a vila de Raul Brandão, apesar dos seus muitos séculos de história, é uma cidade nova de poucas décadas. Em meados do século XX, ainda permanecia quase como Brandão a descreveu, como o mostra um texto que Manuel Mendes, um dos grandes estudiosos e divulgadores da obra de Brandão, que Santos Simões publicou em 1961, no suplemento cultural do Notícias de Guimarães, em que percorre os espaços da cidade de Guimarães donde surgem as figuras e os cenários da obra de Raul Brandão.
~*~

Donde surgem as figuras e os cenários da obra de Raul Brandão
Há meses já, por um tempo chuvoso e triste — para aquelas bandas o Inverno é sempre húmido e melancólico —, demorei a minha estadia em Guimarães por três ou quatro dias. Conheço a cidade de ali passar de quando em quando, mas desta vez foi mais prolongada a minha estadia. De costume, são as sacramentais visitas ao Castelo e ao Museu da Colegiada, a que nunca falta o passeio de fugida pelos sítios mais típicos que oferece a estranha cidade. Dessa vez, porém, ocupado o dia com o trabalho que ali me levou, tinha as noites livres, e pus-me a correr os meandros mais intrincados do velhíssimo burgo, as ruelas esganadas entre prédios, as quelhas e os becos, aquelas estreitas passagens abertas no meio de altos paredões de granito, cobertos de um musgo negro e a escorrer uma humidade que repassa a pedra e repassa os ossos.
Por toda a parte, os bairros pobres das cidades, dão a mesma sensação desoladora, confrange a miséria, parece que irremediável, que se patenteia nas coisas e nas criaturas. O quadro repete-se com uma uniformidade impressionante. Aqui, porém, só me fazia saltar à lembrança certos cenários, certas personagens da obra de Raul Brandão, escritor que para estas bandas por largos anos viveu. A atmosfera dir-se-ia exactamente a mesma, o quadro idêntico, as cores sombrias de igual modo pesadas e húmidas, de uma opacidade mortal, e os vultos que via esgueirarem-se pelas portas, feridos da mesma agonia, ou a transcender no seu sonho simultaneamente trágico e grotesco. A sensação que me envolvia tornava-se obsidiante, invencível, e olhava para cada um, murmurando para mim mesmo o seu nome — o Gebo, o Pita, a Candidinha, a Luísa, o Gabiru... E se, por entre as portas ou as janelas, lobrigava, à luz mortiça dos candeeiros, algum trecho de casa, com os seus miseráveis trastes, a sensação tornava-se ainda mais pungente e desgarradora, como se de imprevisto lhes entrasse na intimidade.
Câmara Reis escreveu, no seu comovido estudo sobre a obra e a figura de Raul Brandão, que “uma das características mais interessantes da sua arte, já o acentuámos, é a universalidade. Lemos, por exemplo, Os Pobres, e ficamos ignorando a origem étnica das personagens e onde se desenrola a acção dramática. Lisboa? Paris? Londres? Petrogrado? Nova-lorque? ia quase a dizer Shangai ou Pequim? Ignoramo-lo. Há o Prédio, o Hospital, a Cidade, a Floresta, entidades alucinadas e incoerentes. Em alguns dos seus livros, a própria matéria, inerte na aparência, se agita num vago sonho e tem uma voz que não ouvimos, pela imperfeição da nossa sensibilidade”. E estas palavras de Câmara Reis também me acudiam à lembrança nas minhas digressões nocturnas, a caminhar encolhida e melancolicamente, sob a poeira insistente da chuva e a humidade daquele frio letal, chapinhando na lama do empedrado. Com efeito, nunca o cenário de obra sua se situa seja onde for. O que ali se vive e no reino particular da sua fantasia de homem alucinado, aflito da mais atormentada piedade humana. A acção deste seu arrastado drama passa-se algures, onde os homens sofrem e sonham, agonizam nas eternas dores, estremecem nas esperanças vãs. Há aqui um portal de escada negro como a boca do abismo, há ali uma árvore que de velha e tonta se põe a florir no Inverno, e por toda a parte corre a regueira inestancável do mesmo enxurro. E é tudo. As personagens sonâmbulas do seu drama também são fundamentalmente meia dúzia, a correrem pressurosas e desvairadas, de um livro para o outro, vibrantes de tragédia, de quimera e de grotesco. Assim é, com efeito. Nilo nos diz donde surgem as figuras, nem palavra sobre o lugar da acção — todo o mundo e ninguém, ao mesmo tempo algures e nenhures.
Mas naquele deambular de morcego pelas velhas ruelas de Guimarães, na noite negra e chuvosa, a cada passo eu ia identificando um local ou um quadro, reconhecendo um vulto. Naquela casa suspeita, talvez tenha sido onde morreu a Mouca, entre soldados, ladrões e o Pita filósofo, que não resistiu a botar fala: — “A morte, rapazes, ensina. Não há lição mais formidável. É doloroso e ao mesmo tempo pacifica. Ver morrer, enche de grandes ideias, filhos!...”. E quem é o fantasma daquele velho gorducho e chorão, que envergonhadamente pede esmola pelos recantos mais sombrios? É o pobre Gebo que suplica alguma coisa, de mão estendida, justificando a miséria com o mais triste dos arrependimentos: — “Tenho pena de ter sido honrado...”. Meu pobre Gebo! E é todo o cortejo que encontro, no mesmo cenário descrito pelo grande escritor. Não falta uma figura, o pano de fundo e as bambinelas da cena são as mesmas.
Abro ao acaso Os Pobres e leio as primeiras linhas de um capítulo: “Noite de chuva, desta chuva miúda que enlameia e entristece como uma angústia. Na rua, Sofia passa com o xaile de rastro...”. Até a chuva, senhores, até a figura desta rapariga, que passa a meu lado com um ar de desgraça que arrepia. Tudo parece evocado deste mundo, nas particularidades de certas notas e na atmosfera que envolve as coisas no mesmo tom de sombra e desventura.
Sei que parte da sua obra a começou antes de vir para Guimarães, e que já na História de um Palhaço aparecem estes ambientes soturnos e as mesmas personagens aflitas, a clamarem as repetidas palavras de quem vive num sonho e vive na arrastada agonia. Mas nos quadros de Os Pobres e do Húmus, por exemplo, a evocação chega a ser flagrante.
Não tenho a certeza, mas suspeito que eram estes recantos da rua que ele tinha diante dos olhos, quando se sentava A mesa de trabalho, perto do lume, na sua casa da Nespereira, que dista daqui um salto.
E levado na fascinação deste sentimento, a calcorrear sobre a lama, empapado até aos ossos desta chuva miúda mas teimosa, eu demorava-me até tarde, no meu divagar de homem perdido, pelas ruazinhas sombrias da cidade tão velha...
Manuel Mendes
In Artes e Letras, suplemento do Notícias de Guimarães, n.º 25, ano III, 26 de Novembro de 1961

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A entrega das maçãzinhas

"Foto de família" de um dos grupos participantes na entrega das maçãs do ano de 1919, constituído por (da esquerda para a direita): José Sarmento e Castro (aluno do 3.º ano), Alberto Sarmento e Castro (7.º ano), José Carmona Gonçalves (5.º ano) e Fernando laje Jordão (3.º ano).

Não posso dizer que me espante a discussão que vai pelos muros das indignações instantâneas em que, com frequência, se transformam as redes ditas sociais, a propósito de um incidente despoletado por um grupo de alunas de uma das escolas de Guimarães que, em nome de uma causa meritória, a da igualdade de género, participaram no cortejo das maçãs em lugar que sempre foi território de rapazes. Não vou, por falta de tempo e de paciência, alongar-me na polémica que para aí vai, onde me parece que mora uma manifesta confusão de conceitos, misturando-se a luta pela igualdade de género com questões, bem diversas, de identidade e de papel social de género. De repente, as raparigas envolvidas naquela situação quase são transformadas nas Emmelines Pankhursts dos tempos modernos e o seu acto é classificado de rebelde, irreverente e corajoso e os que que torcem o nariz a tais epítetos são acusados de "parolice machista", para citar o que um amigo escreveu algures.
Não me parece que faça sentido esta controvérsia.
Desconheço quais sejam as motivações e o ideário das raparigas que participaram no cortejo das maçãs deste ano. Ao que se percebe, pelo que é público, a sua acção não resultará de um acto de irreverência e de rebeldia de germinação autónoma e espontânea. Se tivesse resultado, teriam direito a toda a minha admiração, mas, ao invés, decorre, assumidamente, do cumprimento do projecto educativo do agrupamento de escolas a que pertencem, tendo tido a intervenção directa de professores, certamente bem-intencionados, mas que parecem ignorar a natureza das Festas Nicolinas, que sempre foram contra o sistema. E do sistema fazem parte, como sempre fizeram, as escolas, os professores e os seus projectos educativos. Irreverência? Não. Antes pelo contrário.
O que parece seguro é que esta história não traz grande benefício, nem à causa da igualdade de género, nem às Festas Nicolinas. Porém, é possível aproveitá-la para uma reflexão bem amadurecida e fundamentada acerca do estado a que chegou aquele que era, e deveria continuar a ser, o momento mais alto das festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau, o dia do padroeiro, 6 de Dezembro. O cortejo é cada vez mais pobre: a generalidade dos carros são monumentos à falta de criatividade, já não há mascarados nem representações de teatro de rua (as velhas danças e folias). Para exemplo, basta atentar no carro que está na origem da polémica: uma camioneta coberta de pano branco com umas inscrições mal traçadas a tinta vermelha, carregando estudantes “mascarados” com t-shirts verdes. Eis o espelho da triste indigência a que chegaram as maçãzinhas, onde apenas refulge alguma da sua antiga grandiosidade quando as lanças se erguem ao alto. É esta pobreza franciscana que deveria ser motivo de inquietação e de discussão entre os que se preocupam com a coisa nicolina. O resto, é fruta da época, eventualmente inconsequente.
Não tenho nenhum preconceito contra a mudança nas festas. Antes pelo contrário, sei bem que foi a sua capacidade de adaptação ao correr dos tempos que assegurou, mais do que a sua sobrevivência, a sua vitalidade. E acredito que já é tempo, há muito tempo, de repensar o Cortejo das Maçãzinhas, devolvendo-lhe o brilho de outras eras, sem que isso implique necessariamente um regresso ao passado.
Vamos a isso?
*

O modo como os estudantes de Guimarães enchem a cidade para celebrar o dia do seu padroeiro mudou muito ao longo dos séculos que as suas festas já levam. E continuará a mudar, para que as festas não morram. Em meados do século XX eram como A. L. de Carvalho as retratou, no texto que se reproduz abaixo.
~*~

A entrega das “maçãzinhas” às damas
— seu significado poético

De todos os números das Nicolinas aquele que mais vale pelos seus efeitos espectaculares, pela sua graça e gentileza, é a oferta das “maçãzinhas” às Damas[1].
O prosaísmo da época actual não se apercebe da elegância, do feminil encanto deste “torneio”.
Essencialmente consagrado ao Eterno Feminino, não admira que, para ver passar este cortejo as janelas se guarneçam de senhoras, ou mais destacadamente, de meninas, pois são estas, em nossos dias, as que mantêm a tradição, colaborando com a sua presença e a permuta das suas lembranças, na linda festa de cunho medieval.
Na verdade, para bem se colher uma ideia do encantamento poético deste número das Nicolinas, torna-se preciso reconstituir o panorama romântico dos tempos idos. Nessa visão do passado, a mulher é entrevista por detrás de janelas com rótulas — rançoso e melancólico uso das rótulas de pau que os antigos portugueses, no dizer de um monógrafo portuense do século XVIII, se figuravam recatar a honestidade de suas famílias”.
Não eram janeleiras as mulheres dos séculos pretéritos. Ao facto se refere um poeta espanhol, dizendo:
Toda a donzela, de casa
não sai, até que se casa.
Quando lograva pôr na rua o seu pé, ia sempre acompanhada.
O seu próprio guarda-roupa, excessivamente discreto, ajudava a ocultá-la.
A mantilha, a mantilheta, o bioco, a coca, eram peças dominantes do traje feminino.
Nos meados do século XVIII, os bisonhos veladores dos rostos femininos, eram deste modo alvejados por Garrett:
Bioco negro
De onde mal se vislumbra
Raro lampejo de celeste face:
Oh! quem o rasgasse!
Só em tardes de procissão, com as ruas juncadas de ervas cheirosas e as varandas guarnecidas de damascos, as cativas donzelas se mostravam. Aliada a esta concepção de liberdade, desenrolava-se o cortejo das “maçãzinhas”, como réstia de sol esbatendo a sombra.
Anda o caso recordado nos versos do Bando Escolástico de 1828:
À mais guardada e tímida donzela,
Se concede este dia de janela.
*
Já vimos quais foram as origens e os primeiros personagens na entrega das maçãs às damas.
A prática deste acto era da iniciativa dos “Meninos do Coro” da extinta Colegiada. Visavam um objectivo maneirinho. Davam maçãs, para receber qualquer outra coisa.
Por isso as maçãs eram oferecidas, prosaicamente, em açafate.
O Pregão de 1870, alude ao acto por este teor:
Ao colher, das cestinhas p’ró regaço,
Rubicundas maçãs com trêmulo braço,
Raiava em vossas faces um sorriso,
Que nos faz lembrar o Paraíso.
O acto dos “Meninos do Coro” observava-se, sem aparato público, no dia de S. Nicolau.
Aqueles “mocinhos” que o praticavam, tinham em vista, repito, receber mercê.
Transferido o costume para os Estudantes, estes revestiram-no, por maneira romântica, de uma grinalda de festa.
O acto passou a embelezar-se dos engalhes de galanteria
Procurando os antigos escolares na vida social vimaranense um acto de inspiração, encontraram-no naqueles esplêndidos torneios que tinham lugar no rossio do Toural — espectáculos elegantes aos quais concorriam os mais adestrados e garbosos cavaleiros do Entre-Douro-e-Minho.
É certo que na oferta das “maçãzinhas" às damas — o número mais galhardo e gentil das festas Nicolinas — não se observa luta, não há desafios, não se ferem, sequer, competências.
Por isso, ao termo da “batalha”, pode dizer-se: todos triunfam!
A alegria, as gratas emoções que se experimentam neste recontro, são prémio abonde.
A divisa da juventude escolar na oferta das “maçãzinhas”, é esta:
— Ser amável ao belo sexo!
*
pontos de contacto entre este número das Nicolinas e os antigos torneios de Cavalaria.
Vejamos:
a) A formação do cortejo escolástico para a oferta das “maçãzinhas”, é constituído por uma cavalgada de faustoso aparato. O mesmo se verificava nos antigos torneios da Cavalaria medieval.
b) Os cavalos ajaezados com talizes e gualdrapas e os Estudantes vestindo à fantasia, têm semelhança com os “mantenedores” dos aludidos recontros, considerados à velha lei da Nobreza, — “flor da cortesia, da honra e do valor”.
c) A lança empunhada pelos lidadores deste número Nicolino, ofertando nela a maçã, tem por igual certa analogia com o acto final dos antigos torneios, quando os cavaleiros iam ofertar na sua lança à dama do seu pensamento o troféu alcançado na liça.
Os escolares que no cortejo das “maçãzinhas” tomam parte, usam enfeitar a sua lança com fitas multicores.
Igualmente a guarnecem com uma espécie de “mascote”.
Tanto esta “mascote” como as fitas, com legendas e bordados, são oferta feminina.
Aqui se reproduz uma lança, tendo no seu remate um simbolizado coração ofertando a maçã.
Por entre fitas multicores, sonhos... cor-de-rosa
A. L. de Carvalho, O São Nicolau dos Estudantes, 2.ª edição, Guimarães, 1956, pp. 123-126



[1] Estas “maçãzinhas”, como em açucarado diminutivo as denominam, também são conhecidas por “maçãs dos estudantes”.


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