24 de fevereiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: São Clemente de Sande



Em 1758, segundo a descrição que o pároco de S. Clemente de Sande escreveu na respectiva memória paroquial, no monte de São Bartolomeu havia uma capela que invocava o santo com o mesmo nome, “fundada num rochedo do dito monte, para a parte do meio dia”, onde concorria “muito povo de várias partes, no dia do mesmo santo”. Em 1885, Francisco Martins Sarmento registou nos seus apontamentos: “houve uma capela no alto; mas nem vestígios restam hoje dela”. Quando por lá passou, o arqueólogo não ouviu contar tradições de mouros, mas verificou que “houve efectivamente ali uma fortaleza e não pequena, seguindo-se facilmente em muita parte a linha onde foram as muralhas, e cuja pedra foi quase na totalidade arrancada, mas nada mais que chame a atenção”.

São Clemente de Sande
Notícia ou declaração lacónica aos interrogatórios expressados no papel junto e escrita em observância do que se me determinou na ordem do senhor ordinário que com o mesmo papel vinha e, na forma dela, torno a remeter.
Esta freguesia de São Clemente de Sande está situada num vale ameno, cercado, pela parte do Norte, com um monte em algumas partes bastantemente alto, denominado o monte de São Bartolomeu, talvez porque num rochedo dele está uma capela do mesmo santo, de cuja primeira fundação não há memória, motivo por que se conjectura ser antiquíssima, e no território ou termo da sempre notável vila de Guimarães, primeiro berço dos fidelíssimos monarcas lusitanos. E estão sujeitos os moradores da mesma freguesia às justiças seculares da mesma vila, que constam dos doutores juiz de fora, corregedor e provisor. E dela dista légua e meia, e o mesmo da cidade de Braga, capital do Arcebispado, e sessenta léguas da de Lisboa, capital do Reino.
A igreja é dedicada ao invictíssimo mártir São Clemente, seu orago e padroeiro, cuja sagrada imagem está colocada no altar da capela-mor. Ao seu lado direito está a imagem de Deus Menino e a do Príncipe dos Apóstolos, São Pedro; ao lado esquerdo, está a imagem de Santo Amaro. A capela-mor é de pequena estrutura. A igreja tem uma só nave, estreita, sim, mas comprida. Tem dois altares colaterais com proporção na grandeza à estreiteza da mesma igreja. No do lado direito está a sagrada imagem de Maria Santíssima, com a invocação ou título das Candeias. É de roca e tem nas mãos o seu dulcíssimo filho. Está continuamente ornada com vestidos de seda, coroa de prata, e, no dia da sua festividade, a dois de Fevereiro, e nas festas mais principais do ano, lhe vestem vestido e manto de seda mais preciosa. No altar do lado esquerdo, está a imagem da gloriosíssima Santa Ana, com sua santíssima filha, e querido neto no colo, tudo de vulto, perfeitamente encarnados os rostos e estofadas as roupas. A imagem da santa está na postura de sentada e, ao seu lado direito, está a imagem de Maria Santíssima, tudo fabricado na mesma peça e posta sobre sua peanha. Ao lado esquerdo de Santa Ana, está colocada a imagem de São Sebastião, também de vulto. Em todos os três altares estão pintadas algumas imagens com bela perfeição, ainda que antigas as pinturas, e os mesmos altares dourados. Não há irmandades nem confrarias algumas nesta igreja, mais do que a confraria do Santo Nome de Deus, que se festeja no dia da Circuncisão. No altar-mor, ao lado esquerdo do santo padroeiro, está a imagem de Santo António.
O pároco desta igreja é vigário colado e, quando sucede vagar, pertence a sua apresentação ao reverendo reitor do Mosteiro de São Martinho de Sande, a quem é anexa. Tem de côngrua anual catorze mil réis em dinheiro, duas libras de cera, dois almudes de vinho, dois alqueires de trigo e trezentos réis para a lavagem da roupa, pago tudo pelos frutos da comenda. E terá de rendimento, por tudo, cento e vinte mil réis cada um ano.
No alto do monte chamado de São Bartolomeu, para a parte do Norte, está uma planície e, no fim dela, o lugar chamado de Outinho cujos moradores vivem gostosos com a protecção soberana de Maria Santíssima que, junto ao mesmo lugar, se venera numa capela de grandeza bastante para o sítio e com seu pórtico, com o título ou invocação de Senhora da Saúde, cuja sagrada imagem ornam os seus devotos com vestidos de seda, por ser de roca. E, no dia da sua festividade, que é na segunda oitava da Páscoa, lhe vestem o mais precioso. Nesse dia, concorre inumerável povo em romaria a venerar a mesma Senhora e também pelo decurso do ano, pois obra a senhora muitos milagres. Não há notícia do tempo em que se fundasse a dita capela e, por isso, se faz presumível que os primeiros habitadores daquele sítio tão solitário a fabricariam e nela colocariam a sagrada imagem. O fabriqueiro da comenda tem a obrigação da sua reedificação, sendo necessário conservá-la e paramentá-la. Os moradores daquele lugar têm grandes matas de lenhas de carvalho, castanheiros e outras árvores. Lavram muito pão e, já hoje, algum vinho. Criam muitos gados e distarão da igreja meia légua, pouco mais ou menos e do fim da freguesia, que finaliza no rio Ave, uma légua. É todo o monte povoado de árvores e matos e tem bastante caça de perdizes, coelhos e algumas lebres.
A capela de São Bartolomeu está fundada num rochedo do dito monte, para a parte do meio dia. A ela concorre muito povo de várias partes, no dia do mesmo santo. Também se ignora a sua fundação e pertence aos moradores da freguesia o consertá-la de tudo o necessário. A imagem do santo é de vulto e está colocada num altar de madeira pintado. A aspereza do sítio não permite o estar com a decência devida.
Subindo para o mesmo monte, também pela parte do meio dia e já no princípio do vale, está a capela de São Miguel, cuja capela é do morgado que na mesma quinta instituiu Gil Lourenço Gomide, mantieiro-mor do Senhor Rei Dom João primeiro, alcaide-mor de Miranda e irmão de Gonçalo Lourenço, escrivão da puridade, em quatro de Agosto do ano de mil quatrocentos e trinta, como se lê numa pedra metida na parede que faz entrada e portal para as casas da mesma quinta, ao lado esquerdo do portal, entrando de fora. E, noutra pedra metida na mesma parede, ao lado direito, entrando, se lêem os privilégios antigamente concedidos ao mesmo instituidor e seus sucessores, que hoje não logram, por deixarem perder o uso e posse de uma torre que tinham na vila de Guimarães. E, para lembrança deles, o administrador que foi do mesmo morgado, Francisco Pereira de Miranda, mandou pôr duas colunas na entrada do mesmo portal e, de uma para a outra, uma cadeia de ferro por cima da porta e, sobre a do lado direito, saindo para fora, uma coroa, sem dúvida de ferro sobredourado, sustentada numa vareta, também de ferro. Como este administrador faleceu sem sucessão, lhe sucedeu seu irmão Manuel Félix de Miranda, assistente na cidade de Braga. A capela está decentemente ornada.
Logo abaixo da sobredita quinta, no lugar chamado de Ruivós, se vê arruinada a capela de São Pedro, cuja sagrada imagem é a que se venera na igreja. Era capela pequena, mas é tradição constante que, algum dia, fora igreja matriz e abadia e não há muitos anos que a teima ou incúria dos fabriqueiros da comenda, a quem pertencia o fábrica-la, motivou o estrago em que hoje se vê, pois os moradores desta freguesia, e não os mais velhos, se lembram de se festejar o santo na mesma capela.
A terra desta freguesia é muito frutífera, pelas muitas águas com que se rega, e, por isso, é abundante de milhão, centeio, feijão e linho, mas pouco trigo, bastante azeite, muito vinho de uveiras, a que chamam de enforcado, muitas frutas de várias castas. E os lavradores criam muitos gados, grandes e miúdos.
Não há nesta freguesia coisa digna de memória mais do que o expressado, para dar reposta aos interrogatórios separadamente, nem nos montes que a circundam pelos mais dos lados, excepto para a parte da vila de Guimarães, nem no mesmo vale de que consta. Não tem rio algum mais do que um pequeno regato, que nela entra pouco acima do lugar chamado o Tapado. Este, no tempo do Inverno, se ensoberbece com as muitas águas que dos montes descem para ele. Tem seu princípio numa fonte na serra chamada Falperra e, unindo-se aquelas águas com outras na freguesia de São Salvador de Balazar, o vão aumentando. Cria bastantes trutas, escalos e bogas. Logo a pouca distância do seu princípio, se vê povoado de moinhos e nesta freguesia tem muita quantidade deles, depois que nela entra até desaguar no rio Ave. Das suas águas usam livremente os moradores desta freguesia para a cultura das terras e o mesmo fazem os das mais freguesias por onde passa. Quase todas as suas margens se cultivam e são povoadas de arvoredo silvestre, algum, e outro frutífero. Do seu nascimento até ao rio Ave, onde fenece, terá de comprido mais de uma légua, não atendendo aos âmbitos que faz, mas sim atendendo à distância da terra em direitura. Nesta freguesia, depois que nela entra, o denominam o rio de Febras e, querendo indagar a etimologia deste nome, não achei quem dela me desse notícia e só me disseram que se chamava assim pela frialdade das suas águas.
Dos últimos fins do lugar de Outinho até ao rio Ave, terá esta freguesia uma légua de comprimento. Os seus lugares são bastantemente dispersos e, ainda que não mereçam rigorosamente o nome de lugares, por terem poucos vizinhos ou moradores, e muitos deles não têm mais que um só morador, contudo vão expressados pela ordem seguinte e como estão descritos no rol da igreja: lugar do Assento, Pinheiro, Cachada, Mão, Marnel, Madroa, Paçô, Carvalho, Ventozela, Bacelo, Barroca, Bouça, Casa Nova, Bouça do Monte, Devesa, Cabreira, Barroco, São Miguel, Outeiros, Montezelo, Ruivós, Seixido, Lamas, Bieite, Pombal, Souto Novo, Moinhos, azenha de Bargas, Vila Fria, Tapado, Dussumarães, Azenha, Panco, Souto, Trás-do-Rio, Quintãs, Mogada, Outinho.
Todos os sobreditos lugares constam, ao presente, entre pessoas maiores e menores, de um e outro sexo, quase de quinhentas pessoas, computando também as que aos peitos de suas mães se vão criando. E, porque umas nascem e outras morrem, se não pode verificar cômputo certo na sua existência.
Os moradores desta freguesia, quanto a ocorrência dos seus negócios ou dependências o pede, se servem do correio da vila de Guimarães.
É tradição constante que esta igreja fora antigamente abadia, mas não consta o tempo em que se anexou à igreja do Mosteiro de São Martinho de Sande, para se saber se foi depois de reduzido à comenda da Ordem de Cristo ou quando era de monges Beneditinos, em cujo tempo, talvez, estaria mais bem ornada a sua pequena capela-mor e paramentada do preciso para o culto divino, do que hoje se acha, pois se acha em suma pobreza de ornatos e mais coisas necessárias, sem dúvida porque a sua miséria se não tem manifestado a quem percebe os frutos da mesma comenda pois, sendo os desta freguesia uma das grandes porções de que se compõe o todo do seu rendimento, crível é que o ilustríssimo comendador, se o soubesse, não deixaria de facultar zelosa e catolicamente ao seu fabriqueiro a liberdade de ornar e paramentar a capela-mor de uma igreja tão pingue no rendimento para a mesma comenda.
Esta, em suma, é a sincera resposta que se pode dar à maior parte dos interrogatórios, em razão de não haver no distrito desta freguesia, montes e vales, coisa memorável, na forma dos mesmos interrogatórios, para responder a cada um especificamente. Toda a expressão feita é verdade notória, e por ser assim o escrevi e assinei, juntamente com os dois reverendos párocos vizinhos desta freguesia. São Clemente de Sande, 8 de Maio de 1758.
O vigário, Duarte Correia de Lacerda.
O vigário de São Tomé de Caldelas, Domingos Fernandes.
O vigário de São Lourenço de Sande, Miguel de Abreu Pereira.

Sande, São Clemente de”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 33, n.º 49, p. 337 a 343.

[A seguir: Vila Nova de Sande]

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23 de fevereiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: São Martinho de Sande

"Os Quatro Irmãos"


Em S. Martinho de Sande, existe um misterioso conjunto de pedras lavradas que, segundo a tradição, serão os túmulos de quatro irmãos desavindos. O pároco que escreveu as memórias paroquiais desta freguesia não dava crédito a essa tradição, mas diz-nos sabia que “o monte ou serra da cidade Citânia”, que se avista dali, “foi habitação dos mouros”.
A torre da igreja paroquial só foi acabada em 1791 (antes disso, o sino estava preso em paus). Segundo o Abade de Tagilde, recebeu um sino novo, “cujas vozes muito sonoras o fizeram conhecido a tal ponto que o capitão-mor de Guimarães o quis usurpar para aquela vila. Com o pretexto de servir nuns festejos que ali haviam, tocando no Campo da Feira, conseguiu dos mesários do senhor que eles o emprestassem. As mulheres, homens e rapazes da freguesia, armados de paus, foices, forcados, etc, levantaram-se para o defender, apresentando-se no adro e não consentiram que os encarregados de o desmontar e levar para Guimarães cumprissem sua missão”. Foi a revolta do sino.
Quando, meio século mais tarde, rebentou a Revolução da Maria da Fonte, foi em S. Martinho de Sande que começou a lavrar em terras de Guimarães. Gente brava, a desta terra.

São Martinho de Sande
Li com toda atenção os itens do papel que me foi entregue no dia 26 de Abril deste presente ano e de todos eles achei o seguinte.
Está situada esta freguesia de São Martinho de Sande num delicioso terreno, no meio de seus moradores, na fértil Província de Entre-Douro-e-Minho, Arcebispado de Braga, termo e comarca da sempre leal, notável e régia vila de Guimarães, berço do primeiro Rei de Portugal, o venerável Senhor Dom Afonso Henriques, de que Sua Majestade Fidelíssima foi sempre absoluto Senhor e pelas justiças da mesma vila se governa.
Consta ser antigamente mosteiro de cónegos de Santo Agostinho que fundou na melhor opinião o ilustríssimo Senhor São Profuturo, Arcebispo Primaz de Braga, no ano de 392, e depois passou a ordem Beneditina e o extinguiu o ilustríssimo Senhor Dom Fernando da Guerra, Primaz da mesma Diocese, e hoje é rendosa comenda da Ordem de Cristo, de que é comendador o ilustríssimo Marquês de Valença, ao qual pertencem os dízimos dela e das suas anexas São Clemente de Sande e São Lourenço de Sande. E a igreja é da colação ordinária e se provê por concurso. Tem de rendimento o reitor dela cento e sessenta mil réis, conforme os anos, e a este pertence apresentar os vigários das ditas anexas, quando sucede vagarem.
É esta igreja uma das mais preciosas do termo da vila de Guimarães, por ser muito grande, de uma só nave, toda azulejada ao antigo e pelo tecto se admiram excelentes pinturas. Tem cinco altares, o principal de São Martinho, orago dela, onde se venera o Santíssimo Sacramento, que tem confraria de bastante rendimento. Os mais são de Nossa Senhora do Rosário, que também tem confraria, o grande patriarca São José, o Senhor Crucificado e, o último, a Ressurreição do mesmo Senhor. Na parede da sacristia desta igreja se acham, da parte de fora, umas pedras com letras que dizem, setribus abundantior, e as mais que continuam não se podem ler, pelo discurso de muitos anos quase as consumir.
Tem esta freguesia duas capelas, uma de Santa Maria, sita no lugar de Sever, que, afirmam os antigos, fora abadia, hoje se acha unida a esta igreja e o pároco lhe administra os sacramentos dos seus moradores; outra no lugar de Cima de Vila, com a invocação de São Gonçalo dos Mártires, a qual se acha demolida e só existe parte das paredes, por não ter fábrica nem padroeiro, e o santo se colocou nesta igreja, onde ao presente se venera.
Consta do rol dos confessados ter esta freguesia 187 fogos, pessoas de sacramento, 524, menores, 37.
Recolhem seus moradores abundância de milho, centeio, vinho e azeite, quando os anos são favoráveis, e usam estes livremente das águas que fertilizam as suas terras.
Os seus lugares são 37 e se nomeiam pelos nomes seguintes: Assento, Couvidos, Rocha de Baixo, Rocha de Cima, Vilarinho, Antigas no Vergão, Bacelo, Soutinho, Cima de Vila, Couto, Foio, Carreira, Pontes, Cachadinha, Pedregais, Cachada, Gaias, Escampado, Cutuluda, Montes, Boavista, Taburno, Tarrio de Baixo, Tarrio de cima, Casa Nova, Paraíso, Alvite, Ribeira, Ribeira de Além, Campos, Lama, Vergão, Paço, Sever, Quintãs, Souto, finalmente Quatro Irmãos.
Neste lugar dos Quatro Irmãos se vêem, para a parte do Norte, na estrada que discorre de Guimarães para Braga, quatro sepulturas de pedra fina, que se não sabe memória certa das pessoas que nelas existem, porque uns dizem serem de quatro irmãos que tiveram pendências e que neste lugar se mataram uns aos outros. A mim me parece ser manifesto engano, pela razão de se verem as mesmas sepulturas com decência para aqueles tempos, pois se admiram nas suas cabeceiras esculpidas cruzes da Ordem de Cristo e com especialidade, em três delas, delineadas espadas e, à vista disto, me persuado ser isto do tempo dos Templários e não dos quatro irmãos que o vulgo afirma se mataram naquele sítio.
Servem-se os seus moradores do correio de Guimarães que parte na sexta-feira de manhã e chega no domingo à noite.
Fica esta freguesia distante da Augusta Braga, Metrópole deste Arcebispado, légua e meia e da Corte de Lisboa, sessenta e uma e meia.
Não experimentou ruína alguma no formidável terramoto do ano de mil e setecentos e cinquenta e cinco, que Deus Senhor Nosso pela sua infinita piedade permita não nos castigar segunda vez com o flagelo da sua justiça.
Admira-se nesta freguesia o celebrado monte chamado o Coto de Outinho, com várias devesas de carvalhos, e produz matos para sustento dos gados e cultura das terras, onde também se acham coelhos e perdizes para recreio dos caçadores. Da sua planície se descobrem várias serras e, em distância de meia légua, a temida serra da Falperra, a serra de Santa Catarina, distante duas léguas, o monte ou serra da cidade Citânia, que foi habitação dos mouros, e outras muitas que os párocos do seu distrito darão plena notícia pela longitude em que se descobrem, por não o poder indagar com mais clareza.
Fertilizam esta freguesia dez fontes de gostosa água e algumas delas, no Estio, se secam. Vê-se uma ponte no meio da estrada que vai de Guimarães para Braga, por onde passa o cristalino rio chamado Febras, que nasce na serra da Falperra, discorre pelo meio da freguesia e vai morrer no rio intitulado Ave. Tem de comprido meia légua, corre do Norte ao Sul, produz em todo o ano excelentes trutas de especial gosto e, no âmbito dele, se acham onze moinhos, que cortam pão de segunda para sustento de seus moradores e algumas freguesias circunvizinhas.
Isto é o que pude descobrir e pessoalmente entreguei esta informação ao escrivão da câmara deste Arcebispado, com o mesmo mandado ambulatório e recibos de todos os párocos desta visita, e como, assim o executei na forma que me foi mandado, me assino com os párocos mais vizinhos desta igreja de São Martinho de Sande, aos sete de Maio de 1758.
O pároco Jerónimo Pereira da Silva e Oliveira.
O vigário de São Lourenço, Miguel de Abreu.
O vigário do Salvador de Balazar, Francisco José Soares.

Sande, São Martinho de”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 33, n.º 48, p. 333 a 335.


[A seguir: São Clemente de Sande]

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22 de fevereiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: São Lourenço de Sande


Aspecto do Castro de Sabroso durante a campanha de 1958, dirigida por Christopher Hawkes, professor de Arqueologia Europeia na Universidade de Oxford .
Em S. Lourenço de Sande fica um importante povoado proto-histórico fortificado, vulgo castro, que o padre da freguesia ignorou na sua resposta ao questionário de 1758. Do sítio onde estão as ruínas do Castro de Sabroso, onde e Martins Sarmento começou a fazer explorações arqueológicas em Setembro de 1877, apenas nos diz que “pelo Nascente, está um monte chamado de Sabroso, de onde se tira muita pedra para obras de casas, por ser boa”. Um pouco mais à frente, escreverá que “este monte só produz sargaço e algum tojo, erva brava, pouca, e carvalhos e sobreiros em partes”. As mimosas chegaram depois...

São Lourenço de Sande
Declaração do que se contém nos interrogatórios juntos aos cinco de Abril de 1758 nesta freguesia de São Lourenço de Sande.
1. Está esta freguesia de São Lourenço de Sande sita na Província de Entre-Douro-e-Minho, Arcebispado de Braga, comarca e termo de Guimarães.
2. É terra de el-rei Nosso Senhor, sujeita às justiças da vila de Guimarães. Não tem donatário, só os dízimos e primícias são do Marquês de Valença.
3. Tem cento e vinte vizinhos ou fogos, trezentas e trinta pessoas de sacramento, fora os ausentes, que são quarenta, e fora os menores, que são setenta.
4. Está situada num ameno vale, plano e chão, e dela se descobrem, para a parte do Sul, duas léguas de campinas e freguesias, até à vila de Guimarães, e, pelo Nascente se não descobre nada, por se meter de permeio o monte de Sabroso. Pelo Norte se descobre a freguesia de Santa Cristina de Longos, com quem parte, e, pelo Poente, só descobre a do Salvador de Balazar, com quem parte.
5. Não tem termo seu, que é do da vila de Guimarães, como já se disse no primeiro interrogatório.
6. A paróquia está situada no meio de um lugar chamado o Burgo, cujo tem trinta e cinco vizinhos, e consta dos lugares seguintes a freguesia toda, convém a saber, Assento da Igreja, Eira da Telhada, Barroca, Eira Velha, a Barranha, a Telhada, o Rio, o Carvalho, as Moreiras, Burgo, Além do Rio, Fojo, a Carreira, Casal Ferreiro, as Barreiras, Outeiro do Muro, Agro Longo, a Boucinha, o Souto, Cucherre, Casal Novo, a Tomada, o Outeiro, Trabanca, o Rego, a Rechão, a Ouzanda, o Tapado, o Cabo, Currelos, Cariá, a Cancela, a Boavista, os Sobreiros e não tem mais lugares e em todos eles vivem as trezentas e trinta pessoas já declaradas e os menores.
7. É o seu orago o invictíssimo mártir São Lourenço. Tem três altares, scilicet, o altar maior, onde está São Lourenço, à mão direita do dito altar, no frontispício, um Senhor Crucificado. Imagens de vulto: São Silvestre, o Menino Deus, o Espírito Santo; em pintura, Nossa Senhora das Angústias ao pé da cruz e o Evangelista, mimosa, São Bento e Santa Gertrudes. Não tem sacrário. No colateral, da parte do Evangelho, estão no frontispício dele Nossa Senhora das Candeias e o glorioso São Sebastião. No da parte da Epístola, Santo António e São Caetano. E não há outros santos. Não tem nave alguma. É igreja moderna, de sessenta e dois palmos de comprido e trinta de largo até ao arco cruzeiro. A capela maior tem trinta palmos de comprido e vinte de largo, com sua sacristia da parte do Evangelho. Não tem irmandades mais que a de São Lourenço e essa com pouco rendimento.
8. É o pároco vigário perpétuo e colado da apresentação do reitor do Mosteiro de São Martinho de Sande, cujos frutos dela e esta anexa come o Excelentíssimo Marquês de Valença, Conde de Vimioso. Renderá para este, com dízimos e rendas sabidas, o melhor de quatrocentos mil réis e a matriz outro tanto. Tem somente o pároco, de ordenados pagos pelos frutos da comenda, dez mil réis e, com as ofertas dos fregueses e pé de altar, renderá cada um ano, para o vigário, oitenta mil réis, pouco mais ou menos.
9.º, 10.º, 11.º, 12.º. Não há que declarar, porque não há beneficiados, conventos, hospitais, nem casa de misericórdia.
13. Tem, dentro dos limites desta freguesia, no monte chamado de Sabroso, que fica para a parte do Nascente, uma capela com a invocação do Espírito Santo, com uma capela maior feita ao moderno. E, no altar maior, está no frontispício do retábulo, em vulto, a imagem do Espírito Santo e, da parte direita do altar, Santa Catarina virgem e mártir e, da parte esquerda, Nossa Senhora dos Prazeres. Tem sua sacristia para a parte do Norte, com seu Cabido. Dela se descobre distância de quatro, cinco ou seis léguas de terra. Tem, no corpo da capela, abaixo do arco cruzeiro, para a parte do Norte, um altar com a invocação do Arcanjo São Miguel. Esta capela é dos fregueses e administrada pelos párocos.
14. Celebra-se todos os anos, no próprio dia do Espírito Santo, o mesmo, com missa cantada, sermão e procissão ao cruzeiro. Nesse dia, acode grande concurso de povo ao dito monte de várias freguesias, de romagens. Nos mais dias do ano, pouco povo, excepto alguma pessoa de romagem, quando lhe pede a sua devoção.
15. Os mais abundantes frutos que os moradores colhem são milho maís, milho alvo ou, por outro nome, milho miúdo, centeio, trigo, muito pouco, e vinho de enforcado, muita abundância, muito feijão, castanhas, muita fruta de maçãs de várias castas, peras, não tantas, ameixas poucas, landres para os cevados, linhos, boas hortas de couves galegas, que é o melhor manjar desde Novembro até Abril. Os olhos delas com boi, vaca e presunto, excedem a todo o bom mantimento. É abundante de muita carne de porco, boa carne de vaca, muito gado vacum, muita galinha, frangos e ovos, caça pouca.
16. Não tem juiz ordinário, nem câmara. Está sujeita às justiças da vila de Guimarães, assim provedor como corregedor, câmara, juiz de fora, juiz dos órfãos, há justiça que chamam o rendeiro das penas, que essa é o maior flagelo do pobre povo, de o vencer com condenações v.g. se fica condenado, se o não tem condenado, não sabe o povo como há-de viver com tal justiça parece mais zelo de comer do que serviço de Sua Majestade
17. Nada.
18. Nada.
19. Nada.
20. Não tem correio. Serve-se do da cidade de Braga, que dista desta freguesia uma légua, pouco mais ou menos, e do da vila de Guimarães, que dista duas léguas, ficando a dita vila para a parte do Sul e a cidade de Braga para a parte do Norte.
21. Dista da cidade de Braga, capital do Arcebispado, uma légua pouco mais ou menos, e da de Lisboa, capital do Reino, conforme me dizem, sessenta léguas, pouco mais ou menos.
22. Não há privilégios mais que um de Nossa Senhora da Oliveira da vila de Guimarães, nem antiguidades dignas de memória.
23, 24, 25. Nada de que se dê notícia.
26. Não padeceu ruína alguma no terramoto de mil setecentos e cinquenta e cinco. Somente de memória uma quinta chamada Casal Ferreiro, que ainda hoje conserva um olival como um labirinto, posto por ordem de sorte que, de todas as partes, faz uma rua sem que coisa alguma impeça a sua direitura. Foi, algum dia povoada, de várias árvores nunca vistas. É esta terra povoada de árvores de castanheiros, carvalhos, salgueiros e nestas dá Deus muita abundância de vinho que para se podarem e vindimarem são necessárias escadas de quinze e devasseis degraus.
Não há serra digna de memória. Pela parte do Poente tem um monte que entesta na freguesia chamado Pena Cobertoura, no alto com grandes penedos. Cria muito tojo para os lavradores fertilizarem os seus campos com os estercos que com ele fazem. Tem nessas partes muitos carvalhos e alguns castanheiros. Este monte, na direitura do mesmo Poente, corre espaço de meia légua e vai acabar à freguesia de São Martinho de Leitões. E, para a parte do Sul, leva um braço que vai acabar à de São Clemente de Sande, distância de meia légua. Não dá outro fruto mais que o tojo e erva brava para pasto de gado. E, pela parte do mesmo Poente e cercando a Norte até ao Nascente, é cercado, e suas duas circunvizinhas, o Salvador de Balazar e Santa Cristina de Longos, de uma serra chamada a Falperra que começa no monte de Santa Marta, áspero e alto, onde existe uma ermida da mesma santa entre grandes penedos. Dizem que foi habitada de Mouros. E, daí a trezentos passos, pouco mais, está um templo magnífico feito à romana, com a invocação de Santa Maria Madalena, que fica na estrada que vai direita para Braga. Esta serra só cria tojo e pastos para gados e, em partes, tem carvalhos e sobreiros. E, pelo Nascente, está um monte chamado de Sabroso, de onde se tira muita pedra para obras de casas, por ser boa. Este monte, em direitura do mesmo Nascente, pouco mais de um quarto de légua, vai acabar à freguesia do Salvador de Briteiros. E, pelo Sul, está toda descoberta e parte por aí com a freguesia de Santo Tomé de Caldelas e com a de São Martinho de Sande. Este monte só produz sargaço e algum tojo, erva brava, pouca, e carvalhos e sobreiros em partes.
Não há rio nesta freguesia, somente um ribeiro chamado o rio de Febras, que corre do Norte para o Sul. No Inverno é grande e de Verão seca-se de todo. Somente cria alguma truta e nada mais. Não tem pontes, só algum moinho de moer pão. Vai-se meter ao rio do Ave
O padre Miguel de Abreu Pereira, vigário da paroquial igreja de São Lourenço de Sande termo de Guimarães deste Arcebispado de Braga Primaz. Certifico que tudo o supra, escrito na forma dos interrogatórios juntos, é tudo verdade. E por não achar mais notícias que dar, passo esta, que vai assinada pelo reverendo Francisco José Soares, vigário do Salvador de Balazar, e pelo reverendo Pedro Lopes Garcia, vigário de Santa Cristina de Longos, ambos párocos mais vizinhos desta freguesia. O que, sendo necessário, o afirmo in verbo sacerdotis. São Lourenço de Sande, 15 de Abril de 1758 anos.
O vigário do Salvador de Balazar, o padre Francisco José Soares.
O vigário Pedro Lopes Garcia.
O vigário desta Miguel de Abreu Pereira.
Sande, São Lourenço de”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 33, n.º 46, p. 317 a 322.
[A seguir: São Martinho de Sande]

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21 de fevereiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: Balazar

Igreja Velha de Balazar.

O Abade de Tagilde diz-nos que Balazar é corrupção de Vale d’Azar, mas não nos diz qual tenha sido o azar de onde vem tal nome. Fica nas fraldas de dois montes, o Outinho e a Falperra. Consta que a capela de Santa Marta, que se ergue na Falperra, outrora era meeira desta freguesia e da de Esporões. Nas suas imediações, o padre de Balazar descreveu, nas memórias paroquiais de 1758,uns valos grandes de terra, redondos, a modo de fortalezas”, onde apareciam “algumas pedras, pequenas mas bem lavradas”. Segundo a tradição, os mouros também habitaram por ali.

Balazar
Declaração do que se pergunta nos interrogatórios juntos desta freguesia do Salvador de Balazar, termo da vila de Guimarães
1. Fica na Província do Minho, pertence ao Arcebispado de Braga Primaz, termo da vila de Guimarães.
2. É de el-rei.
3. Tem esta freguesia, casados, quarenta e cinco, viúvos, vinte e cinco, solteiros, vinte e cinco, menores, vinte e sete, pessoas de sacramento, duzentas e trinta e seis, fogos, oitenta e seis.
4. Está situada num vale e, por essa razão, pouco se descobre dela.
5. Não tem termo.
6. Está a paróquia situada em meio da freguesia e tem vinte lugares que são os seguintes: Portelinha, Covinho, Belos, Casa Nova, Assento, Passo, Granja, Lagarteira, Soutelo, Outeirinho, Carreira, Lidima, Batova, Eirado, Saídas, Quintã, Lavandeira, Geia, Rio de Paus, Vendas.
7. É o seu orago o Salvador de Balazar. Tem três altares, o maior e dois colaterais. No maior, está a imagem do Salvador, no colateral, da parte da mão direita, está a imagem de Nossa Senhora, com o título da Purificação e, no da parte da mão esquerda, está a imagem de São Brás e São Sebastião. Não tem naves, nem irmandades.
8. O pároco é vigário colado, pertence à apresentação da Madre Abadessa do Convento da Senhora da Piedade Madre de Deus dos Remédios, da cidade de Braga. Terá de renda o vigário oitenta mil réis, pouco mais ou menos.
9. Não tem beneficiados.
10. Não tem conventos.
11. Não tem hospital.
12. Não tem casa de misericórdia.
13. Tem esta freguesia uma ermida, na qual está colocada a imagem de Nossa Senhora, com o título das Neves. Está dentro do lugar, pertence aos moradores da dita freguesia e nela tem confraria da mesma Senhora.
14. No primeiro Domingo de Agosto de cada ano, acode multidão de povo à dita ermida, que é quando se festeja a mesma Senhora.
15. Os frutos que os moradores colhem em maior abundância são milhão, centeio, milho alvo, pouco, e trigo, nenhum, muito vinho de enforcado.
16. Não tem juiz ordinário, estão sujeitos às justiças da vila de Guimarães, que são corregedor, provedor, juiz de fora, câmara, juiz dos órfãos e rendeiro de penas que é assolador do povo, perseguindo aos pobres moradores com coimas.
17. Não é couto, nem cabeça de concelho.
18. Não há memória de que florescessem homens alguns insignes por armas ou letras.
19. Não tem feira.
20. Não tem correio. Servem-se do correio de Braga, que dista desta uma légua, e do da vila de Guimarães, que dista duas léguas.
21. Dista, da cidade capital do Arcebispado, uma légua, e, da de Lisboa, capital do Reino, sessenta léguas.
22. Não tem privilégios, só um privilégio das Tábuas Vermelhas.
23. Não há lagoa, nem fonte de que se possa fazer menção.
24. Não é, nem tem, porto de mar.
25. Não é murada a terra, nem praça de armas, nem tem castelo antigo, nem moderno.
26. Não padeceu ruína alguma no terramoto do ano de 1755.
27. Não há coisa mais alguma de que se possa fazer menção digna de memória.
Declaração da serra.
1. 2. 3. Está esta freguesia entre duas serras, uma da parte do Norte, chamada a Falperra, terá de comprido três quartos de légua e de largo outro tanto e, da parte do Sul, outra chamada de Outinho, que terá de comprido três quartos de légua e de largura meia légua.
4. Não nasce nelas rio algum.
5. Não tem vilas, nem lugares.
6. Não tem fontes de propriedade.
7. Não tem minas, nem cantarias de pedra.
8. É povoada de plantas de carvalhos, castanheiros, e não se cultivam, mas, sim, são muito úteis para os moradores que lhes roçam o mato de que as ditas serras são abundantes e com este adubam os campos e por isso são copiosos os frutos.
9. Há na dita serra da Falperra uma ermida de Santa Marta, situada no meio dela, onde acode multidão de povo no dia da mesma Santa. E, logo distância de um tiro de mosquete, está uma igreja de Santa Maria Madalena feita à romana, que está com toda a perfeição e todo o ano acode a ela gente de romagem. E, por estarem num alto, delas se descobre toda a cidade de Braga, que dista delas meia légua, e também parte da vila de Guimarães, que dista duas léguas. E, para a parte do Poente, se descobre até ao mar, que dista seis léguas, e, para a parte do Sul, se descobre muita terra.
10. A qualidade do seu temperamento é quente.
11. Nela há criações de gados, bois, vacas, éguas, jumentos, ovelhas, carneiros, cabritos, perdizes, lebres, coelhos e também, em anos de muita neve, descem a ela lobos. Cria também muita raposa e gatos bravos.
12. Não tem lagoa, nem fojos.
13. Não tem mais de que se faça menção, só, sim, onde está situada a ermida de Santa Marta, de que acima faço menção, haver uns valos grandes de terra, redondos, a modo de fortalezas, e neles ainda aparecem algumas pedras, pequenas mas bem lavradas. Terão estes valos de comprido seiscentos passos e de largo outro tanto. Há tradição que algum dia fora habitação de mouros, e deles se descobre para todas as partes do Poente, Nascente, Norte, Sul, mais de dez léguas.
Não tem rios e por isso se não faz menção de seus interrogatórios.
Eu, o padre Francisco José Soares, vigário da dita igreja do Salvador de Balazar, escrevi os interrogatórios acima, que vão na verdade, que por mim vão assinados e pelos dois reverendos párocos meus vizinhos, o reverendo Pedro Lopes Garcia, vigário de Santa Cristina de Longos, e o reverendo Miguel de Abreu Pereira, vigário de S. Lourenço de Sande, que aqui assinaram comigo. O que tudo afirmo in verbo sacerdotis, hoje, de Abril 10 de 1758.
O vigário Francisco José Soares.
O vigário de S. Lourenço de Sande, Miguel de Abreu Pereira.
O vigário de Santa Cristina de Longos, Pedro Lopes Garcia.

Balazar”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 6, n.º 11, p. 65 a 70.
[A seguir: São Lourenço de Sande]

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20 de fevereiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: Longos

Capela de Santa Maria Madalena (Longos, Guimarães)

Santa Cristina de Longos já se chamou Olivença e, como a outra Olivença, também é território de hesitações fronteiriças. É lá que fica a igreja de Santa Maria Madalena, que teimam em levar para Braga (é ver a Wikipédia ou o SIPA, da Direção-Geral do Património Cultural). Da Wikipédia já nada digo, mas custa a perceber como é que um organismo oficial, que deveria ser mais cuidadoso com a informação que publica, continue, no dia de hoje, a situar o Santuário de Santa Maria Madalena / Santuário da Falperra em, sic, Portugal, Braga, Braga, União das freguesias de Nogueira, Fraião e Lamaçães. Que eu saiba, nem a igreja mudou de sítio, nem houve, em tempos recentes, alteração das delimitações do concelho de Guimarães. Assim sendo, a capela de Santa Maria Madalena ainda fica em Longos, como ficava no tempo em que o pároco da freguesia escreveu a sua resposta ao questionário das memórias paroquiais de 1758. Ai se lê que, no tocante a ermidas, em Longos havia, entre outras, “duas de Santa Maria Madalena, a nova e a velha, sitas no alto da serra da Falperra, ao pé da estrada que vai de Braga para Guimarães, e as administra uma confraria da mesma Santa”.
Nesta memória paroquial não há referência a um antigo uso desta freguesia, que refere o Abade de Tagilde, citando Argote, que remete para as Antiguidades de Entre-Douro-e-Minho, do doutor João de Barros: os fregueses eram obrigados, em dia de Santa Maria Madalena, a dar ao pároco três figos lampos e uma cabaça de água.

Longos
Declaração do que se me pede do que contém esta freguesia de Santa Cristina de Longos, etc., respondendo aos interrogatórios seguintes.
1. Fica na Província do Minho, Arcebispado de Braga, comarca e termo da vila de Guimarães.
2. É do domínio e senhorio da Coroa Régia.
3.Tem, vizinhos, duzentos e vinte e, pessoas de sacramento, seiscentas e doze.
4. Está situada, quase metade da freguesia, numa fralda e garganta de uma serra chamada da Falperra e, a outra parte dela, num vale que fica contíguo. E, do alto da mesma serra, se avista a cidade de Braga e a vila de Guimarães e dista daquela uma légua e desta duas.
5. Não tem termo seu, mas sim é do de Guimarães. Não tem lugares senão alguns pequenos e aldeia nenhuma e, à maior parte das habitações, se deve chamar casais, por ser quase tudo prazos de nomeação e cada um morar dentro ou [no] limite do seu, e, por nome e número, são os seguintes: o prazo e casal do Redondo, os dois de Magros, lugar do Telhado, o da Devesa, os dois casais da Aldeia, os dois de Real, lugar da Laje, a Quinta da Falperra, lugar da Boavista, o do Outeiro de Oleiros, casal da Barroca, o de Esmoriz, os três do Sobrado, os quatro da Ordem, o da Levada, o lugar de Entre-as-águas, os três casais de Mouriçó, os dois de Gondarela, o de Vale Pessegueiro, o da Reguenga, o da Pequita, o da Fontainha, a Quinta de Francisco Filipe de Sousa, o de Casal, o do Bacelo, o do Lugarinho, o da Mó, os quatro das Pedras, o lugar da Quintã, os dois de Carvalhal, o de Galego, o da Costa, o de Toros, os dois do Fojo, o do Loureiro, o da Bouça da Barranca, o da Tojeira, o do Ribeirinho, os dois de Grijó, o do Souto do Vale, da Bouça de São Simão, a Quinta de São Martinho, o de Teloim, o de Fornos, o de Perlinhos, lugar dos Pedrais, os dois da Rateira, o lugar da Herdeira, dois de Borgadela, os dois da Barranca do Noval, o de Sarrazinho, os três do Outeiro, o lugar das Eiras e da Vaca, o do Picoto, os dois de Ruela, os três de Pena, a residência do pároco, os caseiros do Assento da igreja, que todos estes casais e lugares têm, em pessoas, seiscentas e vinte, e fogos, duzentos e doze.
6. A igreja paroquial está situada no meio dela.
7. O seu orago é a Virgem Mártir Santa Cristina. Tem o altar-mor, Santíssimo Sacramento e dois colaterais, um de Nossa Senhora do Rosário e, o outro, de Nosso Senhor Jesus Cristo Crucificado. Não tem naves. Tem quatro confrarias, uma do Santíssimo Sacramento, outra de Nossa Senhora do Rosário, outra do Santíssimo Nome de Deus, outra do Subsino.
8. O pároco é vigário da apresentação do Arcediago de Olivença, vulgo de Santa Cristina, cabeça de mais cinco freguesias do mesmo Arcediagado, e esta rende de presente, para ele, setecentos dez mil réis e, junta com as mais, cinco mil duzentas e cinquenta cruzados e, para o vigário, cem mil réis.
9. Não tem beneficiados, senão o Arcediago, que é simples e, por morte do qual, fica o benefício suprimido para a Santa Igreja Patriarcal, e o Arcediago que apresentar Sua Santidade ou o Arcebispo de Braga há-de ter, de côngrua, trezentos mil réis. Tem, de mais, um cura, para ajudar o vigário, que tem, de côngrua, doze mil réis e vinte cinco alqueires de pão, que lhe paga o benefício e o apresenta o vigário.
10. Não tem conventos.
11. 12. Não tem hospital, nem misericórdia.
13. Tem seis ermidas. Duas de Santa Maria Madalena, a nova e a velha, sitas no alto da serra da Falperra, ao pé da estrada que vai de Braga para Guimarães, e as administra uma confraria da mesma Santa. A de São Pedro e São Tiago, na mesma estrada e na fralda da mesma serra, que aparamenta o mesmo benefício. A de Santo António, situada no monte da Murteira, que a fabricam os vizinhos da mesma freguesia. A de Nossa Senhora da Conceição, da quinta da Falperra, e a de São Martinho, sita na Quinta do mesmo nome, e estas duas os possuidores das mesmas quintas as fabricam e guisam.
14. Às sobreditas ermidas de Santa Maria Madalena, quase todos os dias festivos, vai a elas romagem e, nos mesmos dias, têm capelão que lhe diz a missa, e o maior concurso é no dia da mesma Santa e de Santa Marta, e às mesmas vão, em várias ocasiões do ano, de várias freguesias cumprir votos com clamores em procissão e, nas mais da freguesia, se diz nelas, vários dias do ano, missa e a elas vêm também clamores de outras partes em procissão e, nos dias de seus oragos, se lhes faz sua festividade.
15. Os frutos que se colhem são limitadíssima quantidade de trigo, pouco maior de centeio, abundância de toda a qualidade de milho e feijão e de vinho verde e de toda a qualidade de fruta que se dá nesta Província.
16. Tem dois juízes do Subsino anuais, que não podem mais do que lhe determinam os ministros do concelho e comarca, no secular, e sujeitos em todas as condenações do rendeiro das penas do concelho, que de nenhuma ou pouca utilidade serve para a Coroa Régia, e só o rendeiro e seus sócios enriquecem à custa dos povos e pobres. E, no eclesiástico, o que lhe determinam seus ministros e, algumas ocasiões, o pároco.
18.19. Ainda poderá haver [homens insignes e feiras], que até ao presente não consta ter havido.
20. Serve-se do correio de Braga ou do de Guimarães, que aquele dista uma légua e este duas.
21. Dista da cidade de Braga uma légua e, da de Lisboa, sessenta.
2. Não há privilégios alguns, senão uns três moradores, que o são das Tábuas Vermelhas.
23.24.25. Não há que dizer.
26. Não houve ruína no terramoto de cinquenta e cinco de que haja de se fazer memória.
27. Não há mais de que se dê notícia que não esteja dito.
********
1.2. Tem esta freguesia, da parte do Norte, uma serra chamada a da Falperra. Tem seu princípio para a parte do Nascente, ao pé do Castelo de Lanhoso e, de lá até aqui, tem várias denominações. Passando o distrito desta freguesia, vai correndo entre o Poente e Sul com outras várias nomeações e finda, de aqui duas léguas, onde chamam Joane, e principia distante deste sítio outras duas léguas.
3. Não tem a dita braço no distrito desta freguesia que tenha outro nome senão a serra da Falperra.
4. Não tem rio algum dentro do seu sítio, senão vários ribeiros que nascem de fontes da mesma serra, que só têm sua corrente para regar os campos e não de origem para dar nome a outros.
5. Já fica dito no primeiro quarto interrogatório.
6. Não há fontes de propriedades raras, se não fosse de excelente qualidade de água a fonte de Candaíde e a do Voca, porém os moradores são mais amigos, de ordinário, do vinho verde, assim azedo, do que da melhor água.
7. Não há tradição que na dita serra em tempo algum houvesse mineral de qualidade alguma de metais.
8. É povoada de várias árvores silvestres e matos e os moradores que nela são habitadores recolhem os mesmos frutos que produz o vale.
9. Não há nela mosteiro algum, somente as duas ermidas de Santa Maria Madalena, como dito fica.
10. É de temperamento a terra fria e o ar cálido, por cuja causa as árvores sobem a grande altura e, nas mais altas árvores, as frutas são as mais maduras e gostosas, e pelo contrario às do pé da terra.
11. Nela pasta toda a qualidade de animais domésticos, só de dia, que de noite não andam seguros, que os mudam várias vezes pessoas que não lhe pertencem, e seus donos os ficam perdendo e, por esta causa sempre os recolhem todas as noites, podendo. E, às vezes, sucede de dia, o que não deve causar dúvida, que é a serra da Falperra, que é antigo nela haver propriedade de semelhantes transgressores. Nela há perdizes, alguns coelhos e poucas lebres.
12.13. Destes interrogatórios não há nada que dizer.
Interrogatórios de rios.
Não há mais que dizer do que o penúltimo quarto artigo, e tenho dito o que entendo.
O vigário de Santa Cristina de Longos, Pedro Lopes Garcia e o mais que disserem os reverendos vigários de São Lourenço de Sande, e o do Salvador de Balazar, ambos vizinhos mais chegados, o primeiro chamado Miguel de Abreu Pereira e, o segundo, Francisco José Soares.
O vigário de São Lourenço, Miguel de Abreu Pereira.
O vigário do Salvador de Balazar, Francisco José Soares.

Longos”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 21, n.º 114, p. 1085 a 1089.
[A seguir: Balazar]

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19 de fevereiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: Santa Leocádia de Briteiros


Igreja de Santa Leocádia de Briteiros.
Em Santa Leocádia de Briteiros não há águas termais mas, em 1758, havia um banho que era remédio radical para qualquer maleita. Quem nele se banhasse tinha como certo que, ao fim de nove dias, já não estaria doente: ou estava curado ou… falecido. Eis o modo de proceder, segundo se lê na memória paroquial desta freguesia:
Não há nesta freguesia coisas dignas de memória mais que as milagrosas ervas da Senhora Santa Leocádia e o túmulo que dizem ser do Santo Bamba. É este túmulo de pedra, raso com o chão contíguo à porta travessa desta igreja, para a parte do Sul, cercado com uma grade de pau e coberto com seu telhado, do qual se tira uma pequena porção de terra que, junta com várias ervas do passal desta igreja, depois de tocadas na imagem de Santa Leocádia, lavando-se qualquer doente com a água destas ervas e terra, no espaço de nove dias, ou recuperam a saúde perdida, ou acabam esta vida mortal. É de notar que, tirando-se há tantos anos desta sepultura a terra de que se trata, não tem faltado, por mais concurso que seja de gente. De quem seja este túmulo há nisto opiniões.

Santa Leocádia de Briteiros
Relação do que se procura saber desta freguesia de Santa Leocádia de Briteiros.
Na Província de Entre-Douro-e-Minho, do termo da vila de Guimarães, Arcebispado de Braga Primaz, está situada a freguesia de Santa Leocádia de Briteiros, vigairaria ad nutum, apresentada pelos reverendos reitores do Convento de Nossa Senhora do Pópulo da cidade de Braga Primaz.
Tem esta cento e quarenta e seis vizinhos e quatrocentas e sete pessoas de sacramento.
Está situada esta freguesia na fralda do monte chamado a Fraga e Sameiro, fora de distrito, este monte, pertencente à freguesia uma légua.
Os lugares que esta freguesia tem são trinta e cinco. Porém, alguns não se compõem mais do que de uma casa. São os seus nomes os seguintes: o lugar da Igreja, o do Reto, o de Santa Ana, o da Casqueira, o de Borralhas, o da Chamusca, o de Cacabelos, o das Travessas, o de Montezelo, o do Paraíso, o da Cancela, o da Portela, o de Sá, o da Mata de Milo, o de Eira Velha, o de Outeiro, o de Eira de Cima, o do Ribeiro, o da Rola, o do Valelho, o da Telhada, o da Rua, o do Souto, o do Cobelho, o da Vessadinha, o da Boa Vista, o de São Pedro, o do Sirigal, o da Ruela, o de Outinho, o do Paço, o de Covas, o de Paços, o das Fontes, o da Cachada, o de Souto Mendinho, o da Devesa.
O orago desta igreja é Santa Leocádia. Esta tem quatro altares, a saber, o do Santíssimo Sacramento, Santo António, São Bento e da Conceição. Tem mais a confraria do Senhor e de Santo António e a do Subsino.
O rendimento desta Igreja são cento e vinte mil réis, pouco mais ou menos.
Na freguesia há três capelas, uma da Senhora do Rosário que é de pessoa particular. As duas que são da freguesia, uma está no meio do lugar de Santa Ana, com a mesma imagem da Senhora Santa Ana, outra é da Senhora da Luz, situada num monte, onde concorrem várias freguesias no dia de sua festa, que se faz na segunda oitava da Páscoa, a satisfazer uns votos que antigamente estas freguesias tinham prometido.
A maior abundância de frutos que os moradores desta freguesia recolhem são milhão e vinho.
É sujeita esta terra às justiças da vila de Guimarães e desta são providos de correio, com distância de légua e meia, e também se servem do correio da cidade capital do Arcebispado, que dista uma légua, e de Lisboa, capital do Reino, sessenta e duas.
Não há rio que se possa descrever mais que um pequeno regato incapaz de navegação. Das suas águas se aproveitam os moradores desta terra para, no tempo do Verão, regarem os seus campos, por cujo motivo ficam quase extintas as suas correntes. Todas as suas margens se cultivam e guarnecem os seus lados várias árvores silvestres que, com o verde de suas folhas, faz bem vistoso todo este país.
Não há nesta freguesia coisas dignas de memória mais que as milagrosas ervas da Senhora Santa Leocádia e o túmulo que dizem ser do Santo Bamba. É este túmulo de pedra, raso com o chão contíguo à porta travessa desta igreja, para a parte do Sul, cercado com uma grade de pau e coberto com seu telhado, do qual se tira uma pequena porção de terra que, junta com várias ervas do passal desta igreja, depois de tocadas na imagem de Santa Leocádia, lavando-se qualquer doente com a água destas ervas e terra, no espaço de nove dias, ou recuperam a saúde perdida, ou acabam esta vida mortal. É de notar que, tirando-se há tantos anos desta sepultura a terra de que se trata, não tem faltado, por mais concurso que seja de gente. De quem seja este túmulo há nisto opiniões. E se pode ver na Corografia Portuguesa, tomo 1, capítulo 21, pág. 116; na Beneditina, tomo 1, tratado 2, cap. 14, ….[trecho ilegível] Manuel de Faria e Sousa e outros.
Não respondo aos mais interrogatórios, por não haver a eles que dizer. Abaixo vão assinados os párocos vizinhos. E eu o padre Santos Teixeira da Silva, pároco desta igreja que o escrevi. Santa Leocádia, 20 de Abril de 1758.
O vigário de São Lourenço, Miguel de Abreu Pereira.
O vigário de Santa Cristina de Longos, Pedro Lopes Garcia.
O padre Santos Teixeira da Silva, pároco de Santa Leocádia.

“Briteiros, Santa Leocádia de”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 7, n.º 71, p. 1233 a 1235.

[A seguir: Longos]

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