23 de janeiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: Azurém

A Igreja do convento de Santo António dos Capuchos, em meados do século XIX, antes da construção do Hospital da Misericórdia. Cliché de Frederick W. Flower.
Terminada a revisitação das quatro freguesias que, em 1758, constituíam a vila de Guimarães e que, agora, se resumem a uma só), passamos para o território suburbano, contornando o espaço mais urbano em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Começámos por S. Pedro de Azurém, a freguesia onde o Castelo encosta. A memória de Azurém não é tão extensa como as que já pudemos ler, mas dá-nos informações igualmente curiosas, como a que se refere à rua de Santa Luzia, que se repartia pela rua da parte de cima e pela rua da parte de baixo. A parte de baixo, que acabava na antiga ponte de Santa Luzia (que atravessava a ribeira de Santa Luzia próximo do local onde hoje está levantado o quartel dos Bombeiros Voluntários), pertencia, alternadamente, ano sim, ano não, ora à freguesia de Azurém, ora à freguesia de S. Paio.


Azurém
Extracto da freguesia de São Pedro de Azurém, extramuros da vila de Guimarães, da comarca e Arcebispado de Braga Primaz.
Em virtude de uma ordem ambulatória do Muito Reverendo Senhor Doutor Provisor deste Arcebispado de Braga Primaz, que me foi entregue com uns interrogatórios de letra impressa, em que me manda responder a eles.
Francisco Dias de Miranda, pároco da paroquial igreja de São Pedro de Azurém, extramuros da vila de Guimarães, da comarca e arcebispado de Braga Primaz, faço certo que o que nesta freguesia achei acerca dos ditos interrogatórios é o seguinte.
Fica esta freguesia na Província do Minho, chamada a freguesia de São Pedro de Azurém, termo da dita vila de Guimarães, da comarca e Arcebispado de Braga Primaz. É de el-rei Nosso Senhor. Tem esta freguesia duzentos e dez vizinhos e, pessoas, seiscentas e uma.
Está esta freguesia situada num vale e dela se descobrem as povoações seguintes, como são a dita vila de Guimarães, a freguesia de Santo Estêvão de Urgezes, a freguesia de São Miguel de Creixomil, a freguesia de Santa Eulália de Fermentões, a freguesia de São João de Pencelo, a freguesia de São Lourenço de Cima do Selho, a freguesia de São Mamede de Aldão, a freguesia de São Romão de Mesão Frio e a freguesia de Santa Marinha da Costa, e todas circunvizinhas com pouca distância a esta freguesia.
A igreja paroquial desta freguesia está situada no meio dela, e só dois lugares que tem junto a ela, como também o da residência e os lugares desta freguesia, que por outro nome se chamam eidos, são quarenta, como são o lugar do Capitão, o lugar de Rio, o lugar da Ponta da Pipa, o lugar do Verdelho, o lugar da Porteladinha, o lugar da Eira, o lugar de Arcela, o lugar da Boa Vista, o lugar da Fonte da Dourada, o lugar de Entre as Vinhas, o lugar do Outeirinho, o lugar da Madre de Deus, o lugar da Calçada, o lugar de Sezil, o lugar de Barregão, o lugar do Pedroso, o lugar da Veiga de Cima, o lugar da Veiga de Baixo, o lugar de Azurém de Cima, o lugar de Azurém de Baixo, o lugar do Assento, o lugar da Barreira, o lugar da Aceição, o lugar de Pousada, o lugar da Cruz, o lugar do Rato, o lugar da Pegada, o lugar da Casa Nova, o lugar do Bom Retiro, o lugar das Bornarias, o lugar do Pombal, o lugar da Espinhosa, o lugar de Sesulfe, o lugar da Amorosa, o lugar da Conceição, o lugar da Ponte Nova, o lugar da Agra, o lugar de Bargas, o lugar da Feijoeira e o lugar de Benlhevai. Tem mais a Rua do Cano de Cima e a Rua do Cano de Baixo, a Rua de Santa Luzia da parte de cima e a Rua da parte de baixo, esta é alternativa, um ano desta freguesia e o outro ano da freguesia de São Paio da dita vila de Guimarães. Tem mais o lugar da residência, que este está junto à dita igreja paroquial.
O orago desta freguesia é o Príncipe dos Apóstolos, o Senhor São Pedro. Tem cinco altares a dita igreja paroquial, o altar-mor é do dito Apóstolo São Pedro, os outros quatro se acham situados no corpo da dita igreja, que são o de São Roque, o de Nossa Senhora das Candeias e o de Nossa Senhora do Rosário com sua dita irmandade do mesmo Rosário, onde está o Sacrário com o Senhor Sacramentado, e o outro das Almas, com sua irmandade da invocação das mesmas Almas. O pároco desta freguesia é cura anual por apresentação do Reverendo Cabido da Real Colegiada da dita vila de Guimarães. E tem de côngrua oito mil reais em dinheiro, dois alqueires de trigo, dois almudes de vinho e duas libras de cera branca, com todo o pé de altar, o que tudo poderá render, um ano por outro, para o dito pároco cura, cinquenta mil reais.
Os frutos dos limites desta freguesia da dizimária pertencem à Mesa Capitular do dito Reverendo Cabido da Real Colegiada de Guimarães e rendem, um ano por outro, quatrocentos mil reais.
Está situado nos limites desta freguesia um convento de Santo António dos Capuchos Reformados.
Não tem padroeiro particular.
Tem esta freguesia duas ermidas, uma da invocação de Nossa Senhora da Madre de Deus, que se festeja aos oito de Setembro e nesse mesmo dia costuma muita gente, por devoção, concorrer à dita ermida e é padroeiro dela Caetano Baltasar de Sousa de Carvalho, da dita vila de Guimarães, como também tem a obrigação de a fabricar de tudo o necessário. A outra ermida é da invocação de Nossa Senhora da Conceição, que tem sua irmandade da mesma invocação, assim de eclesiásticos como de seculares, que se festeja aos oito de Dezembro e nesse mesmo dia costuma muito povo, por devoção, concorrer à dita capela ou ermida. É senhor e padroeiro da dita capela ou ermida o dito Reverendo Cabido da Real Colegiada de Guimarães e nela se acha ermitão, por apresentação do dito Reverendo Cabido, e ambas as ditas duas ermidas estão pegadas a lugares desta freguesia.
Os frutos que os moradores desta freguesia recolhem em maior abundância são milhão grosso, milho alvo, trigo, centeio, vinho de uveiras verde, feijão, landres, castanha, pouca, e também painço, e também se colhe nesta freguesia toda a casta de hortaliça e também melões e melancias e toda a casta de fruta.
Está esta freguesia sujeita às justiças da dita vila de Guimarães, de cujo correio se serve, por esta freguesia ficar extramuros da dita vila.
Dista esta freguesia da cidade de Braga, capital do Arcebispado, três léguas e da cidade de Lisboa, capital do Reino, sessenta léguas.
Pela misericordiosa de Deus, não padeceu esta freguesia ruína alguma no terramoto do ano de mil setecentos cinquenta e cinco.
Tem esta freguesia oito privilégios das Tábuas Vermelhas de Nossa Senhora da Oliveira, da dita vila de Guimarães.
Tem esta freguesia uma ponte chamada a ponte Nova de Santa Luzia, feita de pedra de cantaria e de um arco só. Por ela se dá entrada para a dita vila de Guimarães a todo o povo, carros e bestialidades que vêm da cidade de Braga e mais partes para a dita vila de Guimarães. Não tem rio esta ponte, só sim as águas que no tempo do Inverno expelem os campos desta freguesia passam por baixo do arco dela, por ficar no mais baixo desta freguesia e aí acudirem as águas dela, porém é em pouca quantidade e no tempo do Inverno, que no de Verão quase sempre secam estas águas. Tem esta freguesia um único moinho, que está na baixa de um campo, que só mói no tempo de grande Inverno, com as águas que regam o dito campo, que no tempo do Verão não tem com que moer, por não haver águas.
E declaro que os limites da dita ponte Nova de Santa Luzia, acima já mencionada, são alternativos um ano desta freguesia e outro ano da freguesia de São Paio, da dita vila de Guimarães.
E não sei, nem me consta, que nesta freguesia haja alguma coisa mais digna de memória conforme me obrigam os ditos interrogatórios, o que tudo passa na verdade, e em fé dela me assino, juntamente com o reverendo Francisco Xavier, pároco de Santa Eulália de Fermentões, e com o reverendo António Mendes Teixeira, pároco de São Lourenço de Cima do Selho, ambos párocos mais vizinhos desta freguesia.
São Pedro de Azurém, vinte e nove de Abril de mil setecentos e cinquenta e oito anos.
O pároco Francisco Dias de Miranda.
Francisco Xavier, pároco de Santa Eulália de Fermentões.
António Mendes Teixeira, pároco da freguesia de S. Lourenço de Cima de Selho.

Azurém”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 5, n.º 86, p. 1083 a 1088.

[A seguir: Fermentões]

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22 de janeiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: S. Sebastião

A antiga igreja de S. Sebastião (pormenor de uma fotografia da segunda metade do século XIX). à direita, o chafariz do Toural no seu local original de implantação (o mesmo onde hoje se encontra).

Prosseguindo com a publicação das Memórias Paroquias de 1758 referentes ao concelho de Guimarães, terminámos a deambulação pela quatro freguesias que formavam a vila, atravessando a muralha e passando à que fica totalmente fora de muros: S. Sebastião. Tal como em S. Paio, a matriz da paróquia que o pároco descreve na sua resposta ao questionário também desapareceu do mapa, ainda antes do século XIX terminar (salvou-se a torre sineira, que foi implantada na igreja de Creixomil).
Nesta memória, o pároco estende-se numa interessante descrição dos jardins do Palacete de Vila, estendendo a descrição para o que a vista alcança(va) a partir daquele magnífico miradouro.

São Sebastião
Descrição da freguesia de S. Sebastião da vila de Guimarães, aos interrogatórios por ordem do Muito Reverendo Senhor Doutor Provisor, Francisco Fernandes Coelho.
Ano de 1758.
1.º Esta vila de Guimarães fica situada na Província de Entre-Douro-e-Minho, num vale que, da parte do Nascente, lhe impede o vento uma alta serra, vistosa e amena. É do Arcebispado de Braga Primaz, cabeça de comarca e tem quatro freguesias, que se computam por distrito desta vila, a saber, a Real Colegiada da Nossa Senhora da Oliveira, São Miguel do Castelo, São Paio e esta de São Sebastião.
2.º É el-rei Nosso Senhor Fidelíssimo Dom José Primeiro, que Deus guarde, o senhor desta vila e seus predecessores o foram sempre.
3.º Tem esta freguesia quatrocentas e vinte e duas moradas de casas. Em casados, viúvos e solteiros, mil quinhentas sessenta e três pessoas de sacramento, sessenta e três pessoas menores, que ainda não comungam pela sua menoridade, e, além destas, outras tantas, pouco mais ou menos, menores de sete anos.
4.º Está esta freguesia situada em terra plana, exceptuando algumas ruas dela, porém são muito fáceis em subir e descer. Não se descobre povoação alguma que seja memorável. Só, sim, a casa e jardim de Vila Flor, que dista pouco, a qual é de Tadeu Luís António Lopes de Carvalho e Camões, fidalgo da Casa Real e senhor dos coutos de Abadim e Negrelos. É esta admirável na sua arquitectura e na grandeza e fábrica do jardim, que se compõe de dilatadas ruas, cobertas algumas de latas ou parreiras. Com engenhos fabricados, tem o primeiro jardim um vistoso chafariz, do qual se comunica a água para os mais, onde estão dois de virrafos1 de várias qualidades, além destes, mais, debaixo de duas vistosas escadas de pedra, se acham duas fontes emanando água por figuras de pedra. E, da parte de fora, nas primeiras escadas da entrada deste jardim, que estão com grandeza, vem a referida água ter seu fim pela boca de dois agigantados leões, que em pé sustentam nas mãos umas conchas, de onde pela boca apanham a água. São estes de pedra, feitos com primor, contêm o âmbito deste muitas escadas apilaradas de bilros de pedra e com suas pirâmides lavradas ao moderno. Tem muitas varandas de pedra com a mesma perfeição. Tem, da parte do Nascente, um forte a que chamam de Santo António onde estão umas torres pequenas a que chamam vigias de guerra, cuja fábrica toda está com o melhor primor da arte e tem vistosa recreação. Faz este a melhor vista para esta freguesia e vila, que é à parte do Norte, como se esteja avistando de um dos principais campos ou terreiros desta freguesia e, em pouca distância, fica sendo a sua vista muito deliciosa. Avista-se mais o régio convento de Santa Marinha da Costa, de monges de São Jerónimo, muito sumptuoso pela sua grandeza e perfeição e melhor no presente tempo, pela nova obra da fronteira da igreja, no meio de duas altas e novas torres, com primor lavradas de pedra fina, diante de cuja obra se anda edificando um magnífico pátio, composto de diversas ruas e trânsitos em grandeza e distância. Item se descobre uma alta serra que está na parte do Nascente, a que chamam de Santa Catarina ou do Guilherme, nome este que tomou do fundador moderno de uma capela que se acha no alto dele, debaixo de penedos, chamada a Senhora da Penha, o padre Guilherme, ermitão de nação estrangeira, o qual fez doação dela às religiosas de Nossa Senhora do Carmo desta vila e estas a deram a um religioso seu, leigo, chamado Frei Joaquim, que é o que a administra. Item, quase no princípio desta serra, num alto, se avista a antiga capela de S. Roque e em distância de poucos passos desta se acha uma capela do Senhor da Cana Verde ou Ecce Homo, imagem de muita devoção, e mais duas capelinhas em pouca distância, com imagens de Cristo com cruzes às costas. Sítio é este excelente, tanto por dele se avistar toda esta vila e redondeza, como ser mais favorável que o referido da Senhora da Penha. Pagam-se a esta capela várias medidas, foros que lhe deixou o seu fundador, o venerável padre Manuel Ferreira e outro companheiro que jaz enterrado na dita capela. Item, descendo deste sítio, se acha o lugar de Fonte Santa, no qual esteve São Gualter, companheiro de São Francisco, onde se acha principiando o alicerce de uma capela e deste estão manando três copiosas fontes de água bastantemente milagrosas e, por cima desta, num nicho, está a imagem do dito São Gualter, onde vai bastante povo visitar o Santo e água das fontes, para várias moléstias. A dita primeira capela da Senhora da Penha dista desta freguesia meia légua, sempre de subida, e a segunda, de São Roque, menos de um quarto, e a de São Gualter, menos de meio quarto.
5.º Tem esta vila termo seu que se compõem de cento e três freguesias, e esta tem os campos e ruas seguintes: o Campo ou Terreiro do Toural, que é o de melhor vista e praça desta vila, onde está um chafariz do povo, de vistosa grandeza, cercado de assentos para recreação do povo, junto a este um tanque, para alimento de água dos animais. O Campo do Pelourinho, é onde este se acha, de grandeza e boa vista para a referida casa e jardim do interrogatório quarto. O Campo da Feira, de igual grandeza e vista deliciosa e ameno. Rua Nova das Oliveiras, Rua das Molianas, Rua de Caldeiroa, Rua Nova de São Sebastião, Rua do Guardal, Rua de Couros, Rua de Além do Rio, Rua das Pretas, Rua da Ramada do Campo da Feira, Soalhães, Rua de São Dâmaso, Rua de São Francisco.
6.º Está esta paroquial igreja logo da parte de fora dos muros desta vila, defronte da alfândega dela e se compõe das ruas supra ditas.
7.º É o seu orago São Sebastião. Tem cinco altares. O maior onde está o dito Santo e, no sacrário, o Santíssimo Sacramento, que administra e fabrica a sua confraria e freguesia. Da parte do Evangelho está o dito São Sebastião e da Epístola São João Baptista. No corpo da igreja, da parte do Evangelho, junto ao arco cruzeiro, está o altar de São José fazendo peregrinação para o Egipto, pegando na mão ao Menino Deus, que está entre ele e sua Mãe Santíssima. Desta parte, no meio da igreja junto à porta travessa, está o altar da Senhora do Socorro, com a sua imagem. Da parte da Epístola, em correspondência dos referidos, estão os altares do Senhor Jesus Crucificado, com São João de uma parte e Nossa Senhora da outra, e outro do Amor Divino com a sua imagem dentro numa vidraça e São Filipe Néri, Santo Agostinho e Santo Ambrósio, cujos altares todos têm irmandades que os fabricam e veneram das mesmas invocações de seus Santos.
8.º É o pároco desta igreja cura anual ad nutum, apresentação do Reverendíssimo Senhor Dom Prior e simul do reverendo Cabido da Insigne e Real Colegiada desta vila, cujo curato rende, um ano por outro, cem mil réis, razão de não ter de côngrua mais de oito mil réis, dois alqueires de trigo, dois almudes de vinho e duas libras de cera e o mais é o que chamam pé de altar.
9.º A este não tenho que dizer, por não haver beneficiados.
10.º Tem o distrito desta freguesia os conventos seguintes.
O dos religiosos de São Francisco observantes, que é de padrão real, onde vivem em religião melhor de oitenta frades de missa e leigos. Governa este o seu provincial e prelados menores ou conventuais. É de extensa grandeza, com uma igreja muito ampla com dez altares e num destes se acha colocada a imagem do milagroso Santo António, que venera a sua irmandade do mesmo nome composta de muitas pessoas principais que fazem a sua festividade com veneração e culto de novena de treze dias, com missa solene e sermão de manhã e o senhor manifesto nas treze tardes.
Junto a esta igreja estão a capela e casas da venerável Ordem Terceira do patriarca São Francisco e, não obstante a pequenez de sua capela, por não terem âmbito para mais, se acha edificada de novo, por se demolir de todo a antiga, com perfeição e lavores de primor, tanto no interior dela, como no exterior e frontispício. Governa esta a mesma Ordem Terceira, composta da maior parte da nobreza e povo desta vila e seu termo, onde satisfazem muitos legados que lhe deixaram. E frequentam os actos de sua regra e estatutos com muita devoção, que edifica e compunge a todo o povo desta vila, e um nacional desta, chamado Diogo de Torres, deixou à mesa um legado de vinte e quatro mil cruzados, que esta administra.
Item, o convento de Santa Rosa, de religiosas da Ordem de São Domingos, ainda que não tem clausura, porém vivem como regulares e, conforme ao seu instituto, são estas da jurisdição do Arcebispo Primaz de Braga e têm uma boa igreja, de novo edificada, e toda a mais obra de casas interiores e dormitórios com grandeza, e sua torre de sinos e, além da cerca, que se acha com muro alto bem acautelado, tem um grande campo junto a este, que compraram, o qual desfrutam para seu sustento, não obstante a mais renda que têm de dinheiro, que trazem à razão de juros, e não tem padroeiro.
Item, o convento de religiosas muito reformadas da Madre de Deus das Capuchas, que se acha situado num dos fins desta freguesia e arrabalde desta vila, acima do Campo da Feira, que acima relatei, que não tem padroeiro. São religiosas professas, em clausura muito rigorosa, tiveram por fundadora uma irmã do ilustríssimo Senhor Dom Rodrigo de Moura Teles, de gloriosa memória, arcebispo deste Arcebispado de Braga. São estas da jurisdição do padre provincial da Ordem de São Francisco e por ele visitadas. Têm dois religiosos da mesma ordem por capelão e confessor. Têm a sua clausura muito bem fortalecida de muros e também um grande campo da parte de fora, junto a este, para seu sustento. Vivem estas sem rendas algumas e só de esmolas. Têm uma boa igreja, muito frequentada de povo, por devoção à Senhora Madre de Deus, que se acha colocada num altar lateral da parte da Epístola com o Menino Jesus no berço e São José, tudo a imitação da Madre de Deus da cidade de Lisboa, cujas imagens na dita cidade foram edificadas por ordem do beneficiado Luís António da Costa Rego de Barbosa, natural desta vila e assistente na secretaria de Sua Majestade, o qual as conduziu para esta vila fazendo, antes da colocação na dita igreja do dito convento, na Colegiada desta vila, uma novena de nove dias com toda a solenidade, com o sacramento patente em todo e cada um dia da novena, sendo oradores os melhores desta vila, no fim da qual foram levadas com procissão soleníssima ao dito convento e altar onde se acham, culto e veneração que muito mais fez adquirir a devoção do povo, além da perfeição das referidas imagens.
11.º Há, no distrito desta freguesia, um hospital para os clérigos, peregrinos e pobres desta vila como também os pobres da freguesia de Santa Comba de Regilde, distante légua e meia, pois, sendo o instituidor deste o abade da dita freguesia, Lucas Rebelo, foi sua vontade assim o instituir, e lhe deixou de renda anual duzentos e vinte mil réis e obrigação de, em cada ano, darem dois dotes a duas órfãs para casarem, a vinte mil réis cada uma, e que num ano escolheriam as desta vila e em outro as da dita freguesia, havendo-as. É administradora desta a irmandade do Cordão, de homens leigos, onde tem sua capela, da qual abaixo em seu lugar farei menção.
Item, o hospital de São Roque, que administram agora as religiosas de Santa Rosa, declaradas no interrogatório décimo, cujo hospital é tão somente para passageiros. E, se neste falece algum, têm estas obrigação do seu enterro, há poucos anos a esta parte. Eram administradores os mesmos caseiros que, pelos bens que tinham pensionistas, ao hospital pagavam. E, como as ditas religiosas precisavam das casas do dito hospital para as suas obras da igreja e mirante, alcançaram da Majestade provirão para serem administradoras, a contento dos caseiros, para o que lhes deixaram os bens sem a pensão que de antes tinham e ficaram de herdade, motivo porque estes largaram de mão a sua administração, por cuja razão não tem este renda, mas sim têm as ditas religiosas obrigação da sua fábrica, conservando-se neste a caridade do recolhimento dos pobres peregrinos e satisfação de alguns legados, como é o de em todos os Sábados do ano mandarem um homem a quatro cruzeiros que se acham no âmbito ou trânsito de quatro ruas vizinhas, encomendar com uma campainha as almas à noite.
12.º Não há no distrito desta freguesia casa da Misericórdia, mas sim no distrito da de São Paio, a quem pertence a resposta deste interrogatório.
13.º Estão neste distrito as capelas seguintes.
A basílica de São Pedro, que administra a antiga irmandade de clérigos do hábito de São Pedro e também tem alguns irmãos seculares para o serviço dela. Está esta situada no Terreiro ou Campo do Toural, do qual no interrogatório quinto fiz menção, sítio este o melhor desta vila, cuja basílica se acha por agora feita em limitado âmbito, no enquanto se não faz a nova obra, que se acha já principiada por planta de notável grandeza e primorosa perfeição. É padroeiro desta o reverendo beneficiado já mencionado no interrogatório décimo, Luís António da Costa Rego de Barbosa, e à sua custa se vai edificando a capela-mor. E este tem dado de esmolas muitos e vários ornamentos preciosos, peças de prata e mais ornatos de igreja. É esta irmandade muito ilustre, não só pela qualidade de seus irmãos eclesiásticos, mas também pelo decoro, gravidade e solenidade com que fazem os seus actos e enterros de seus irmãos. Tem três altares. No maior, o Apóstolo São Pedro, no lateral, da parte do Evangelho, o Senhor da Agonia e, da Epístola, a Senhora da Assunção e Mãe dos homens.
Na rua de São Dâmaso se acha uma capela chamada de São Dâmaso, que é das melhores igrejas desta vila, toda esta de abóbada. Tem cinco altares, o maior em que está o seu titular, São Dâmaso Pontífice, e, nos mais, várias imagens de Santos. Junto a esta capela está o hospital de que no interrogatório undécimo fiz menção. E desta foi instituidor o mesmo do dito hospital, o abade Luís Rebelo. Administra esta uma irmandade secular chamada do Cordão. Tem esta, de renda, um padrão real de cento e sessenta mil réis, tem mais a renda de duas casas que estão por baixo do hospital, tem mais umas medidas sabidas que, um ano por outro, rendem cinquenta mil réis, tudo isto além do capital, casco de dinheiro que trazem a juros para os funerais de seus irmãos e, por cada um destes, mandam dizer duzentas missas. Tem esta capela legado de missa quotidiana. Esta irmandade administradora tem nesta capela e hospital o domínio, porém a sua colocação é no convento dos religiosos de São Francisco, em altar a que chamam do Cordão.
Tem mais a capela do Senhor dos Passos, situada no Campo da Feira, da parte de fora dos muros, no fim de um grande campo ou terreiro. Nesta se venera a muito milagrosa imagem do Senhor dos Passos, que fabrica a sua irmandade, que se compõe de muitos irmãos nobres e do povo desta vila. Em cuja capela, no tempo da Quaresma, se veneram os Santos Passos, com sermão em todas as sextas-feiras, havendo Passo diferente em cada uma destas, que fica patente de uma a outra sexta-feira, em cujos dias vai o povo desta vila em grande número fazer suas orações. Na Dominga da Paixão se dá desta princípio à procissão dos Santos Passos, por conta desta irmandade, a cuja procissão assiste esta irmandade, composta de muitos irmãos e as comunidades de São Domingos e São Francisco e o reverendo Cabido desta vila. Continua esta pelas principais ruas onde, em distância, se acham sete capelas de Passos do Senhor primorosamente, feitas e com as imagens e figuras conducentes a cada Passo, tudo obra que a dita irmandade mandou fazer. E se recolhe esta procissão ao convento de São Francisco, onde há dois sermões do Calvário. Também esta irmandade faz a procissão do enterro em Sexta-Feira Santa, de tarde, junto à noite, que é a melhor e mais devota procissão que se faz nesta vila, a qual acompanha a irmandade da Misericórdia e os ditos religiosos de São Francisco, de cuja igreja tem seu princípio, e se recolhe à dita capela da irmandade, levando esta vários coros de música cantando as heus2 e outras motetos do dia. Nela vai a imagem de Cristo morto, num esquife com toda a decência que levam seis sacerdotes, os melhores cantores desta vila que pelo seu canto movem os corações a dor e compungem os católicos. Vai este debaixo do pálio, que levam seis capitulares, atrás deste se seguem os soldados, centurião e Profetas São João, Madalena e Marcelo, tudo vestido com primor. E, por fim desta procissão, vai num andor a Senhora do Pé da Cruz. Tudo isto faz uma procissão muito extensa e admirável. É padroeiro desta Dona Luísa de Sá, mulher de Alexandre de Palhares, da vila de Monção, e nela tem obrigação de duas missas semanárias, cuja capela pertence ao morgado dos Sodrés.
14.º A esta vila acode bastante gente à romagem do milagroso Santo António do dito convento de São Francisco, não só no tempo de sua festividade, mas no mais tempo do ano.
15.º Os frutos do distrito desta freguesia são milhão, milho miúdo, centeio, vinho, frutas e hortaliças. Isto se entende em alguns arrabaldes dela, que no centro da freguesia são homens graves que vivem de suas rendas, homens de negócio e oficiais de vários ofícios.
16.º Esta vila tem Senado de Câmara, cabeça de comarca, nomeados por Sua Majestade nas pautas. Tem juiz de fora, corregedor, provedor, superintendente dos tabacos, mamposteiro dos cativos, todos de vara branca, juiz dos órfãos, almoxarife do reguengo da Rainha Nossa Senhora, almotacés e mais justiças menores respectivas a todos os ditos ministros, todos por ordem de Sua Majestade e neste se responde ao interrogatório décimo sétimo.
18.º É patrão ou padroeiro desta vila o senhor São Dâmaso, o primeiro Pontífice e claramente consta da lenda do mesmo Santo no Rito Bracarense ser de nação espanhol, sua pátria Guimarães, da Província Bracarense, seu pai chamado António. É tradição comum ser este natural nesta freguesia, na Rua de Caldeiroa, dela onde hoje se acha um oratório e uma fonte a que chamam de São Dâmaso. E nesta vila é venerado em todas as igrejas, coros e religiões, como seu verdadeiro padroeiro e com todas as dignidades que lhe são devidas conforme o rito da Igreja.
Natural desta freguesia é o padre mestre doutor Bento da Expectação, da Ordem de Santo Elói, e desta vila também são o padre mestre frei António Cardote, da Ordem dos Pregadores, e o padre mestre doutor Frei Bernardino, da mesma ordem.
19.º Nesta vila há feira em todos os Sábados do ano, não sendo dia santo, porque então se antecipa, e se faz esta no âmbito desta freguesia, no Terreiro do Toural e Campo da Feira. Item, se faz uma anual, na primeira sexta-feira de Quaresma, esta de muito concurso de povo, outra no primeiro domingo de Agosto, até ao outro dia, porém esta é só de bestas. Todas são cativas, excepto esta última.
20.º Tem correio próprio, que daqui parte à sexta-feira de cada semana, leva as cartas à cidade do Porto, e se recolhe no domingo, trazendo as cartas e encomendas pertencentes a esta vila, seu termo e parte da comarca.
21.º Dista desta vila a cidade de Lisboa sessenta léguas e dista a capital do Bispado, que é a cidade de Braga, três léguas.
22.º Tem esta vila muitos privilégios, como são os das Tábuas Vermelhas de Nossa Senhora da Oliveira, porém a relação destes e de outros mais pertence à freguesia da Real Colegiada desta vila.
23.º Não há no distrito desta freguesia lagoa ou fonte que se possa nomear por célebre. É, sim, abundante de fontes ordinárias, água de poços e ribeiros. Tem, sim, uma ponte no sítio ou do terreiro do Campo da Feira, em bastante grande comprimento e de uma grande largura. Porém, a água que por baixo dela passa pouca é, porém na grandeza da ponte se mostra o ânimo dos antigos desta vila na edificação dela e, como está dos lados encostada, as guardas dela tem seus assentos. Serve tudo isto para recreação e alívio de seus moradores. Alguns chamam a esta ponte do Senhor de Campo da Feira, por no cimo dela se achar a sua capela, que declarei no interrogatório décimo terceiro.
24.º Não tem porto de mar, nem embarcação, esta vila.
25.º É esta vila murada de fortes muros, com suas torres, em distância. Compreende esta freguesia alguma partes destes no sítio do Toural, onde se acham duas torres. Das mais escreverão os das freguesias a quem pertencem, por cujo motivo o não descrevo.
27.º No terramoto de 1755 não houve nesta vila e freguesia ruína alguma mais do que no convento de São Francisco algum balanço nas paredes. Porém, contudo, estão com a segurança necessária e não precisam de reedificação e só de uma pirâmide da fronteira da igreja caiu a bola de pedra dela.
Dos mais interrogatórios não posso dar razão, por no distrito desta freguesia se não compreender o que neles se pede. Isto é o que posso informar e passa na verdade. São Sebastião de Guimarães, vinte e três de Maio de mil setecentos cinquenta e oito anos.
De Vossa Mercê, menor súbdito,
O pároco José Luís Ferreira.
O cónego cura Francisco José Vieira de Pina.
O pároco Francisco Fernandes Cruz.


“São Sebastião, Guimarães” Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 18, n.º 134a, p. 753 a 762.
[A seguir: CrAzurém]
1 Sic. Palavra que não se encontra nos dicionários, provavelmente relacionada

2 Cânticos dedicados às personagens bíblicas popularmente conhecidas como as “Três Marias” as “heus”. (Maria Madalena, Maria Salomé e Maria de Cleofas).
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21 de janeiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: São Paio

A antiga igreja paroquial de S. Paio, demolida em 1914.
A freguesia que partilha com Santa Maria da Oliveira o espaço intramuros da antiga vila de Guimarães é S. Paio, pertencendo-lhes algumas das artérias que confrontavam com a muralha no ângulo Sul-Poente, para além de vastos espaços fora da muralha, incluindo o Toural e as ruas de Gatos (actual D. João I), Santo António e Santa Luzia (que partilhava com Azurém). A memória que o pároco de S. Paio escreveu, em resposta ao questionário de 1758, é muito interessante, especialmente quando fala da Santa Casa da Misericórdia e dos antigos Açougues, que se situavam no seguimento da rua do Anjo, nas imediações da antiga igreja paroquial, que foi demolida no início do século XX. A propósito dos Açougues, o cura de S. Paio descreve a ignominiosa servidão da vassoura a que estavam sujeitos os moradores das freguesias de Cunha e Ruilhe e a que voltaremos, quando tratarmos das memórias paroquiais destas freguesias que pertenciam ao concelho de Guimarães, apesar de estarem, altura, encravadas no território de Barcelos.

São Paio
Em cumprimento de uma ordem deambulatória que vi e me foi apresentada do Muito Reverendo Senhor Doutor Provisor deste Arcebispado de Braga Primaz das Espanhas, Francisco Fernandes Coelho, para, em cumprimento dela, informar o que se pede, num extracto de letra redonda que em meu poder fica, o que posso informar e pertence a esta freguesia de São Paio da vila de Guimarães, é o seguinte.
Esta freguesia de São Paio da vila de Guimarães está situada na Província de Entre Douro e Minho, Arcebispado de Braga, Primaz das Espanhas, e está no termo desta mesma vila.
Item, é Sua Majestade, que Deus guarde, o senhor desta terra.
Item, tem esta freguesia fogos de casados, viúvos e solteiros, quinhentos e oitenta e sete e, pessoas de sacramento, mil e duzentas e cinco.
Item, está esta freguesia situada em terra plana, dela se descobre até à distância de uma légua, para a parte do Poente, e meia, para a do Nascente, onde se acha um monte alto chamado da Penha, ou serra de Santa Catarina, e, para as do Norte e Sul, se acham uns montes mais baixos, que impedem ver-se maior distância.
Item, está esta freguesia no distrito desta vila, a qual tem termo seu, que compreende cento e três freguesias.
Item, está esta freguesia no distrito desta vila imediata à da Real Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira. Consta das ruas seguintes: o Terreiro de São Paio, Rua da Ferraria, Rua da Tulha, Rua de Alcobaça, Eirado do Forno, Rua Nova, Rua do Anjo, Rua do Postigo, Rua da Rochela, Rua da Porta da Vila, Rua de São Domingos, Rua de Gatos, Rua do Toural, Rua da Fonte Nova, Rua de Santo António, Rua de Santa Luzia, Rua dos Bimbais, Terreiro de Santa Luzia, Rua do Picoto, Rua da Calçada. Lugares: o Gaiteiro, o Proposto, Benlhevai e Bargas.
Item, o orago desta freguesia é o ínclito senhor São Paio Mártir, o qual se acha colocado no altar-mor dela, que administra e fabrica a confraria do Santíssimo Sacramento. No corpo da igreja tem quatro altares, um com a invocação do Santíssimo Nome de Jesus, que fabrica uma irmandade do mesmo nome; outro com a invocação das Almas do Fogo do Purgatório, que também fabrica outra irmandade do mesmo Nome das Almas; outro, com a invocação da Senhora da Misericórdia, que fabrica a sua irmandade do mesmo nome; outro, com a invocação de Santo Homem Bom, que também fabrica a sua irmandade do mesmo nome. E é esta igreja sagrada.
Item, é o pároco desta freguesia cura anual ad nutum[1] que apresenta o Senhor Dom Prior simul[2] e o reverendo Cabido da Real Colegiada desta vila, na qual são meeiros. E rende esta freguesia regularmente cem mil réis em cada um ano.
Item, há no distrito desta freguesia um convento de religiosas da Ordem dos Pregadores, da invocação de São Domingos, que governa o padre prior provincial e padre prior menor do dito convento, com os seus religiosos em forma e vida regular. Tem uma grande igreja, muito antiga, e nela suas irmandades. E, destas, é uma da invocação de Nossa Senhora do Rosário, a qual é abundante suficientemente de cabedal. E, por estatuto da dita irmandade, tem cada irmão que é da mesma irmandade, quando falece, quatrocentas missas por sua alma, que lhe mandam dizer os irmãos da mesa.
Item, há no distrito desta freguesia um recolhimento de recolhidas, da invocação do Arcanjo São Miguel.
Item, há no distrito desta freguesia o hospital e igreja da Santa Casa da Misericórdia, que tudo administra a irmandade da mesma Misericórdia, a qual foi instituída no ano de mil e quinhentos e oitenta e cinco, aos dezoito de Setembro, e se reduziu a número certo de irmãos. E, antes deste tempo, desde que na cidade de Lisboa se instituiu a confraria da Santa Casa da Misericórdia, até ao dito ano, houve nesta vila doze irmãos, seis nobres e seis do povo, e um provedor, os quais administravam as obras de Misericórdia com toda a caridade e zelo cristão. Consta haverem sido provedores naquele tempo o senhor Dom Fulgêncio, Dom Prior da Real Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira desta vila, filho do senhor Duque Dom James de Bragança, e Dom António de Lima, alcaide-mor desta vila e senhor de Castro Daire, e Fernando Mesquita de Lima, e Francisco de Mesquita e outros muitos. E, depois que no dito ano se instituiu a irmandade, é tradição vulgar e mui sabida que primeiro se assentou esta na Real Colegiada dela, onde ainda se conserva o nome da capela da Misericórdia, e se passou para esta Santa Casa no ano de mil seiscentos e seis. E deu-se princípio à obra da igreja da dita Santa Casa no ano de mil e quinhentos e oitenta e oito. E o primeiro provedor, que começou a servir a três de Julho de mil e quinhentos e oitenta e cinco, foi António Pereira da Silva, fidalgo da casa de Sua Majestade e professo na Ordem de Cristo, sendo seu escrivão António Nogueira.
Acha-se, no tempo presente, a igreja da Santa Casa com grande aumento. Tem um frontispício todo de pedra fina primorosamente lavrada. Junto a ela, uma galeria da mesma forma, que serve de casa do despacho e antecasas da parte superior e, na parte do meio, de casas e antecasas de despensa, e, na inferior, de botica para o seu hospital e celeiro para as suas rendas.
Junto a esta galeria está edificado o hospital, com muita grandeza e comprimento, com camas suficientes para os irmãos da mesma Santa Casa e pessoas de distinção, com separação das mais, que servem para homens de comum esfera. E, no meio deste, se acha um altar que faz divisão às camas, que ao diante se seguem, para as mulheres. No dito altar se celebra missa todos os dias por satisfação a legado deixado à Santa Casa e, aos Domingos e dias Santos, se celebram duas missas.
Tem esta santa casa coro, onde todos os dias se reza e canta o ofício divino, com missa cantada, em cujo coro residem dezasseis capelães, todos legatários de vários instituidores a quem satisfaz a dita Santa Casa, como também a um legatário que em todos os dias, na dita igreja, celebra missa depois das onze horas, antes da qual se toca o sino que serve da mesa da dita irmandade, para que o povo se utilize e vá assistir à dita missa.
Administra aquela Santa Casa e hospital a dita irmandade, a qual regularmente tem, em cada um ano, de renda, dezasseis mil cruzados, pouco mais ou menos. E com muita caridade cumprem com a sua obrigação, tanto na satisfação dos muitos legados que têm, como na cura e recolhimento dos pobres sem rejeitar pessoa alguma que lhes supliquem o recolhimento e cura de suas enfermidades, ainda para pobres que em suas casas se acham doentes lhes dão ração quotidiana e mandam assistir-lhes com médico cirurgião e sangrador, como também aos presos de ambas as cadeias desta vila. E, além disto, com muita caridade dão esmolas semanárias aos que se acham alistados em rol a que chamam da piedade e vivem por suas casas pobremente ou envergonhados no distrito desta vila e seu termo, no que fazem grave dispêndio. Dão também esmolas aos passageiros de carta de guia e a todos os mais que fazem petição à mesa, que costumam fazer aos Domingos, e ao provedor, fora da mesa, pelos dias da semana.
Tem a dita igreja uma torre muito perfeita, com quatro sinos para as suas funções e funerais de seus irmãos e mais pessoas desta vila que mandam e ordenam se lhes toque.
E enterra aquela irmandade de graça aos seus irmãos, em tumba especial, e, em outra comum, a todos os defuntos desta vila, com a esmola conforme a tumba que pedem, cujas esmolas são para o aumento dos pobres e hospital e os irmãos só tiram disto o proveito da caridade. E, destes, são exceptuados os pobres, tanto do hospital como de fora, que a estes mandam enterrar de graça.
Item, há no distrito uma capela com a invocação da Senhora da Piedade, colocada na torre da Porta da Vila, que administra uma irmandade que tem, com a invocação da mesma Senhora.
Item, há no distrito desta freguesia outra capela na Rua de Santa Luzia com a invocação da mesma Santa, a qual administra o reverendo Cabido da Real Colegiada desta mesma vila. E, no dia da milagrosa Santa, costuma haver grande concurso de povo, que acode de romaria em seu louvor.
Item, há nesta vila Senado de Câmara, por ordem de Sua Majestade, juiz de fora, corregedor, provedor, superintendente dos tabacos, juiz dos cativos, juiz dos órfãos, almotacés, tudo por ordem do dito Real Senhor. E é no Senado de Câmara, cabeça do concelho e comarca, onde se dá posse aos referidos ministros.
Item, no Campo do Toural, distrito desta freguesia, em todos os sábados do ano, não sendo dia santo, há feira de vários comércios. E, na primeira sexta-feira da Quaresma de cada um ano, há também feira com maior abundância e frequência de povo. Porém, estas são cativas para os de fora do termo.
Item, no dia de sexta-feira de cada semana, parte desta vila o correio para a cidade do Porto, de onde se recolhe outra vez para ela no domingo.
Item, desta vila à cidade de Braga, capital deste Arcebispado Primaz, distam três léguas e à de Lisboa, capital deste Reino, distam sessenta léguas.
Item, há nesta vila muitos privilégios e antiguidades dignos de memória, que não refiro por pertencerem à informação da Real Colegiada, onde tiveram seu princípio e origem.
Item, compreendem os muros desta vila parte do distrito desta freguesia, no qual se acham quatro torres, em distância umas das outras, as quais vão circuitando os ditos muros desta vila, e tanto estes como as ditas torres estão edificados com toda a fortaleza, altura e grossura, o que tudo mostra muita antiguidade. E, nem estas nem, outro qualquer edifício no distrito desta freguesia, padeceram ruína alguma no terramoto de mil setecentos cinquenta e cinco.
Item, no fim da Rua de Santa Luzia, distrito desta freguesia, se acha uma ponte de bom comprimento, a qual mandou edificar o Senado desta vila há mais de oitenta anos, não tanto por necessidade da água que por baixo dela passa, por ser muito limitada, mas sim por franquear a entrada desta vila e pôr no livel[3] e plano a dita entrada e agora de próximo se acha arruinada.
Item, no distrito desta freguesia e fim da rua do Anjo, se acham os açougues desta vila, que com muita abundância se dá provimento a toda ela, seu termo e povoações circunvizinhas, pela qualidade procedida dos bons mantimentos e pastos dos gados. Cujo açougue tinha, de muitos anos, a regalia e privilégio de ser varrido e limpo, em certos dias do ano, por homens que antigamente por obrigação e justiça, pena e castigo, vinham da vila e termo de Barcelos para esse efeito. Depois de que, passados muitos anos, se pôs esta obrigação pela Câmara de Barcelos a duas freguesias chamadas de Cunha e Ruílhe, que para o dito efeito e obrigação deram e largaram ao termo desta. E constava o traje com que vinham os ditos ao acto referido, de um pé descalço e outro calçado, uma faixa vermelha cingida pela cinta, na qual traziam e sustentavam a espada à cinta, porém esta às avessas, id est[4], da parte direita e esta desembainhada e um barrete vermelho comprido, de baeta vermelha, na cabeça. E desta sorte, com uma grande vassoura nas mãos, depois de nos dias determinados em cada ano terem varrido a praça pública de Nossa Senhora da Oliveira desta vila, vinham então varrer e limpar os ditos açougues. Porém, compadecida a clemência de Sua Majestade, que a santa glória tem, houve por aliviados da ignominiosa acção ou obrigação aos referidos, há menos de dezoito anos a esta parte.
E como não tenho mais que, por razão do meu distrito, possa fazer memória e informar, pois o mais que há e pode haver pertence aos reverendos párocos circunvizinhos, e não há serra, nem rio, de que na forma do extracto possa informar e só do referido na forma dele é que posso dar notícia e clareza, o qual vai na verdade.
São Paio de Guimarães, 4 de Abril de 1758 anos.
O pároco Francisco Dantas Coelho.
O abade André Machado de Oliveira.
O pároco José Luís Ferreira.

“São Paio, Guimarães” Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 18, n.º 134c, p. 775 a 781.
[A seguir: S. Sebastião]




[1] Ad nutum: locução latina que remete para decisão que pode ser tomada arbitrariamente por autoridade com competência para a tomar, sem necessidade de maiores formalidades administrativas.
[2] Simul (latim): junto
[3] Livel é sinónimo de nível.
[4] Id est (latim): isto é.
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20 de janeiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: Nossa Senhora da Oliveira

A Oliveira, o Padrão e a Colegiada em meados do século XIX. Cliché da colecção da Foto Guedes, pertencente ao Arquivo Municipal do Porto. Trata-se, seguramente, da reprodução de uma fotografia anterior ao início da actividade desta casa fotográfica, que está datada de cerca de 1885, já que a oliveira  que nela aparece foi derrubada dez anos antes, em Dezembro de 1875. Trata-se, muito provavelmente, de um cliché tirado por Charles Thurston Thompson, do Museu de Kensington, Inglaterra, durante a sua expedição ibérica do ano de 1866.


Da Vila Velha, ou do Castelo, de Guimarães, passámos para as memórias paroquiais da Vila Nova, que cresceu mais a Sul, a partir do mosteiro duplex (misto) fundado no século X pela Condessa Mumadona, em torno da oliveira miraculosa. Ficava, na sua maior parte, dentro da muralha, que, numa pequena parte, partilhava com a paróquia de S. Paio.

Nossa Senhora da Oliveira
Extracto da freguesia de Nossa Senhora da Oliveira da vila de Guimarães, na Insigne e Real Colegiada da mesma Senhora, feita por mim Manuel dos Reis da Costa Pego e com a assistência de Francisco José Vieira de Pina, ambos cónegos, curas da mesma Colegiada, em satisfação de uma ordem do Muito Reverendo Senhor Doutor Provisor da Corte e cidade de Braga, Arcebispado onde pertence, e é na forma seguinte.
Está esta freguesia de Nossa Senhora da Oliveira da vila de Guimarães na Província de Entre-Douro-e-Minho e é a principal desta sobredita vila, e na igreja da Insigne e Real Colegiada da mesma Senhora, e compreende toda a circunferência de dentro dos muros da mesma vila, e alguma de fora deles, e pertence ao Arcebispado Primaz de Braga e à comarca e termo da mesma vila, por ser a cabeça de uma e outra coisa.
A sobredita vila, onde esta freguesia está, é de Sua Majestade Fidelíssima, el-rei Nosso Senhor Dom José primeiro. Tem esta sobredita freguesia seiscentos e oitenta e nove vizinhos e, pessoas de maior, mil e novecentas e quatro, e, menores, noventa e uma, como consta do rol dos confessados, excepto as que não andam no dito rol, por não terem idade suficiente que os obrigue a deles se tomar conta.
Está situada numa baixa e na falda do monte, Serra de Santa Catarina, e esta se vê de alguma rua da mesma freguesia ou campo, e quase os muros da vila a circulam, e não a toda, pois também parte destes o fazem à de São Paio, que fica na mesma vila, e não se descobre dela outra alguma serra ou povoação, nem coisa notável.
Está na cabeça do termo e comarca, pois o é a mesma vila onde está situada, e se compõe de ruas, campos e subúrbios da mesma vila, pois a todos compreende. E fazem, entre todos, o número dos vizinhos acima declarados e o termo se compõe de cento e uma freguesias, com as da mesma vila, que são estas: a sobredita, a de São Paio, São Sebastião e São Miguel do Castelo.
Na mesma vila de Guimarães está situada esta sobredita freguesia na forma referida. Seu orago é Nossa Senhora da Oliveira, da Insigne e Real Colegiada da vila de Guimarães. Tem a sobredita igreja, que é bela e antiga do tempo de muitos anos, sete altares dentro dela e, no claustro, outros sete, nos quais alguns são capelas, como a do Santíssimo Sacramento, com sua confraria, a do Senhor Jesus, que é da casa de Vila Pouca, com obrigação de missas, e a de Nossa Senhora da Conceição, da casa do Proposto, também com obrigação de missas e com administradores que moram nos subúrbios desta mesma vila, a de São Nicolau, com irmandade, todas estas na igreja. No claustro, a de São José, a de Nossa Senhora do Serviço, também com obrigação de missas. Os altares são o do Espírito Santo, o do Senhor da Agonia, com irmandade que acompanha os irmãos defuntos da mesma, o de Santa Ana, estes na igreja. No claustro, o de Nossa Senhora da Pombinha, o de São Roque, o de São Cosme e São Damião, a capela de São José acima dita, o altar do Senhor Descido da Cruz, a capela de Nossa Senhora do Serviço e o altar de Santo André. Tem a igreja três naves e párocos dois cónegos e juntamente curas, com obrigação de coro, e são da apresentação do Dom Prior da mesma Insigne Colegiada, e à administração dos sacramentos são obrigados e mais actos paroquiais, excepto aos enterros dos defuntos, que a estes vão os padres da coraria que há na mesma Colegiada e vão aos de toda a vila, e estes padres apresenta o mesmo Dom Prior. E terá de renda cada um dos cónegos curas, com certos e incertos e emolumentos paroquiais na forma que foram votados, cada um ano, duzentos e cinquenta mil réis, pouco mais ou menos, os quais dois cónegos da meia prebenda são da apresentação in solidum do Dom Prior da mesma Colegiada, o qual, quando sucede vagar algum dos ditos benefícios, o dá a quem lhe parece, e cola e dá jurisdição paroquial sem dependência do ordinário, por posse antiquíssima e sentenças alcançadas contra o ordinário deste Arcebispado, porque o dito Dom Prior tinha e ocupava uma prebenda com a obrigação de a paroquiar e, por súplica que fez ao Papa, alcançou o poder de dividi-la em dois meios prebendados com a dita obrigação de administrar os sacramentos e todas as mais declaradas. E a apresentação do dito Dom Prior desta mesma Colegiada pertence a Sua Majestade Fidelíssima, quando sucede vagar, e ao ordinário de Braga Primaz apresenta o dito Dom Prior o provimento que Sua Majestade é servido passar-lhe e este o manda examinar e cola no dito benefício, de onde lhe resulta a jurisdição que confere aos ditos cónegos curas, quando os apresenta e cola nos tais benefícios que, como já disse, antigamente eram uma só prebenda. E o dito Dom Priorado tem de renda em cada um ano, com certos e incertos, dez mil cruzados, cem mil réis mais ou menos, com obrigação de pagar e satisfazer as obras meeiras das igrejas, que apresenta simultaneamente com o reverendo Cabido, e, além disso, a fábrica das igrejas de São Martinho de Fareja e Santa Eulália de Fermentões, ambas do termo desta vila, por serem da sua apresentação in solidum. E, também, metade do partido dos músicos da capela desta Colegiada e, na mesma forma, a seis capinhas que apresenta in solidum para o serviço do clero desta Colegiada, além dos quais há três capelas das quais apresenta duas e se lhe paga por legado especial que se deixou ao dito Dom Prior, e a terceira apresenta o reverendo Cabido. E também é paga por legado que administra a fábrica da mesma Colegiada e também há no mesmo coro um sub-chantre que apresenta o chantre e lhe satisfaz como ajusta. Nesta mesma Colegiada há vinte e oito prebendas, as quais ocupam, a saber, o reverendo chantre, uma, o reverendo tesoureiro-mor, uma, o reverendo doutor mestre-escola, duas, o reverendo arcipreste, duas, o reverendo arcediago, uma, e mais quinze cónegos prebendados e oito meios-prebendados, que todos fazem vinte e seis prebendas, com a obrigação do coro e tudo o que mais pertence ao ministério dele. Ficam sobejando duas prebendas para a conta de vinte e oito, as quais uma é da fábrica desta igreja e outra do prebendeiro do reverendo Cabido, pelo seu trabalho. E rende cada uma delas, em cada um ano, com certos e incertos, quatrocentos mil réis, pouco mais ou menos, e o reverendo chantre, além da prebenda declarada, tem anexas ao seu benefício duas igrejas, que apresenta e de que tem os dízimos, a saber, São Miguel de Creixomil, subúrbio desta vila, e São Paio de Moreira dos Cónegos, termo da mesma vila, que ambas renderão, em cada um ano, novecentos e tantos mil réis, pouco mais ou menos. E o reverendo tesoureiro-mor tem outras duas igrejas anexas ao seu benefício, que ele também apresenta, a saber, Santa Maria de Matamá e Santa Eulália de Nespereira, ambas também no termo desta vila, e renderão, pouco mais ou menos, em cada um ano, seiscentos e tantos mil réis. E o reverendo mestre-escola tem mais uns foros, que pertencem à capela de São Tiago, situada na Praça, que renderão, pouco mais ou menos, cada um ano, cinquenta mil réis. Há mais, nesta Colegiada, seis coreiros para o serviço do clero, que apresenta o reverendo chantre, como presidente do mesmo reverendo Cabido e coro. E também há um sacristão que é da apresentação in solidum do reverendo tesoureiro-mor, a quem paga o ordenado que com ele ajusta, que tem mais, de rendimento, as ofertas dos defuntos e o rendimento dos sinos que lhe mandam tocar e o folar da Páscoa, isto por arrecadar e lançar a água benta nessa ocasião. Tem mais esta Colegiada um benefício simples, chamado arcediago de Santa Maria do Souto de Sobradelo, que renderá, em cada um ano, quinhentos mil réis, pouco mais ou menos, e é apresentação sua vacatura de Sua Majestade Fidelíssima e outra do reverendo Cabido, e as apresentações dos mais benefícios desta Colegiada, são a saber, o chantre do reverendo Cabido in solidum, e as mais prebendas são de apresentação simultânea o Dom Prior, com o reverendo Cabido, alternativamente com o Papa, oito meses deste e quatro do reverendo Cabido, com o seu Dom Prior. Tem o mesmo reverendo Cabido igrejas e beneficiados simples, a que chamam raçoeiros, que apresenta in solidum que constarão melhor dos apresentados, que tudo são no arcebispado e nos seus interrogatórios responderão. Os padres chamados da coraria, antes declarados, que são da apresentação do Dom Prior, são o número de trinta, nos quais doze são títulos assim chamados e entram na isenção da jurisdição desta Colegiada, os quais ocupam desde o coro, e ordens, e sacristia, e o que servir de prioste, que é o seu presidente, e estes vão aos ofícios e enterros de toda a vila, tem legados que satisfazem a fazenda que administram, de caseiros que lhes pagam rendas, que entre si repartem. E renderá a cada padre com missas e mais assistências, cada um ano, sessenta mil réis, pouco mais ou menos, com os incertos. É o que pude alcançar desta Colegiada. Tem mais a confraria de Nossa Senhora da Oliveira, onde sempre pessoa real é juiz, e os mais da mesa dos principais da terra e, como serventuários, pessoas ordinárias com honra. Esta tem missas pelos irmãos defuntos, e também a do Santíssimo Sacramento e as mais irmandades, conforme seus estatutos e termos.
No distrito desta freguesia estão dois conventos de religiosas, a saber, o de Santa Clara, de que é padroeiro o morgado de Torrados e são da jurisdição ordinária suas súbditas, e o de São José do Carmo mais moderno, sem padroeiro, e lhe deu princípio um mercador chamado Francisco Antunes Torres, concorrendo com sua fazenda, e as primeiras religiosas foram de um recolhimento que também está situado nesta freguesia, de recolhidas da Santíssima Trindade, as quais daí foram, e ainda existem na mesma forma. As religiosas do Carmo, acima ditas, também são da jurisdição ordinária e no meu tempo o foram dos religiosos calçados.
Nesta mesma freguesia está a igreja da Misericórdia com seu hospital. Este está no distrito do de São Paio, ele descreverá suas rendas e mais particularidades.
Tem no distrito da freguesia capelas, a saber, a de Nossa Senhora da Graça com irmandade que administra, a de Santa Cruz, com irmandade que administra, a do Salvador, que é do reverendo Cabido, onde têm os padres da coraria legados, a de Nossa Senhora do Pilar, mista a umas casas dos possuidores da comenda em Garfe, a da Senhora da Boa Morte, mista às casas que hoje são de José Luís de Távora, e têm legado os padres da coraria, a da Embaixada, mista às casas onde hoje mora o reverendo arcipreste, com legado de missas, a de Santo Estêvão, com administração de foros e pensões e obrigação de missas, e hoje é administrador, por graça de Sua Majestade Fidelíssima, Luís António da Costa Pego de Barbosa, a de São Tiago, da administração do reverendo mestre-escola desta Colegiada, a do Anjo, com irmandade, que administra, e a do Menino Deus, mista às casas do Lamelas, de Manuel Peixoto, com legados que satisfazem os padres da coraria, e também na de São Tiago satisfazem algum. Misto e pegado à capela do Anjo, há um albergue onde se recolhem os pobres passageiros três dias e lhes dão agasalho os administradores e sua irmandade, que são os sapateiros, dando-lhes, naquele, palha para descansarem. E, falecendo naqueles dias, como também sete mulheres, já de idade, que sempre estão no mesmo albergue recolhidas com suas casas, o reverendo Cabido os vai buscar em comunidade, com o cónego cura e os acompanha até à sepultura, por caridade, e se enterram no claustro desta igreja com o reverendo Cabido e irmandade.
A estas capelas ou ermidas não há concurso ou romagem, só sim alguns chamados clamores à de São Tiago e a esta igreja da Insigne Colegiada, vindo algumas freguesias, com os seus párocos, em vários dias do ano.
Os frutos na freguesia: há algumas terras que ficam nos subúrbios onde se colhem trigo, milho grosso e miúdo, vinho e legumes de hortaliças.
Tem Paço de Concelho junto a esta Insigne Colegiada ,onde se fazem as audiências do juiz de fora, juiz dos órfãos e almotacés, e tem Senado de vereadores e o mais de que se compõe. E tem a vila provedor, corregedor, juiz de fora e dos órfãos e superintendente dos tabacos. É a vila cabeça da comarca e termo, como já disse. E desta têm florescido pessoas notáveis em santidade, letras e armas, o que melhor constará do Estaço, que as escreveu. Nesta freguesia há uma feira chamada de São Gualter, franca, no Domingo primeiro de Agosto até à segunda-feira e juntar de bestas. Tem a vila correio que vem ao Domingo e sai à sexta-feira. Dista esta freguesia da cidade de Braga, cabeça do Arcebispado, três léguas e da de Lisboa sessenta léguas. Tem esta Insigne Colegiada aqueles bem conhecidos privilégios das Tábuas Vermelhas, que sempre os Senhores Reis Fidelíssimos mandaram se guardassem e cada vez mais se ampliam na mesma vila. Há muitas mais antiguidades e coisas notáveis, que não pude alcançar para poder com mais individuação dizer, de que o mesmo Estaço dará cópia.
Não me parece tenha que descrever dos mais interrogatórios, só sim que os muros de que faço menção que circulam a freguesia são antigos e seguros e de cantaria e, no distrito da mesma freguesia, ficam algumas torres e uns e outros não padeceram coisa alguma no terramoto do ano de setecentos e cinquenta e cinco. Tem nesta freguesia mais a fonte de águas que se encaminham da serra de Santa Catarina e lançam na Praça de Nossa Senhora, num grande tanque pegado a esta mesma igreja da Insigne e Real Colegiada. E esta é do padroado do Fidelíssimo Senhor Dom José Primeiro, Nosso Rei, e foi de seus antecessores. E sempre veneraram a mesma Senhora e seus privilégios, lhe concederam com mão liberal rendas e honras, donativos e favores.
E nesta forma satisfiz como pude à ordem de que faço menção no princípio deste. Mais me ocorre é dizer que na igreja desta freguesia da Insigne Colegiada existe ainda, metida na parede da nave direita, com umas grades de ferro, uma pia de pedra tosca, em que foi baptizado o Senhor Dom Afonso Henriques, primeiro Rei deste Reino de Portugal. E nesta forma, na companhia de meu companheiro acima declarado, fiz este extracto que ambos assinámos. Guimarães de Maio 20 de 1758.
Francisco José Vieira de Pina, cónego cura da Colegiada de Guimarães.
Manuel José Reis da Costa Pego, cónego e cura da Colegiada de Guimarães.

Oliveira do Castelo, Guimarães Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, vol. 18, n.º 134, p. 745 a 751.
[A seguir: S. Paio]


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19 de janeiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: São Miguel do Castelo

A Vila Velha (S. Miguel do Castelo) de Guimarães. Reconstituição de Alexandre Reis.

Correspondendo ao aviso de 18 de Janeiro de 1758, do Secretário de Estado dos Negócios Interiores do Reino, o futuro Marquês de Pombal, as autoridades eclesiásticas fizeram circular por todas as freguesias do reino os respectivos questionários impressos. No arcebispado de Braga, o responsável pelo envio dos questionários e pela recepção das respostas foi o provisor da relação, Francisco Fernandes Coelho. Os inquéritos começaram a ser distribuídos em meados de Fevereiro e as respostas começaram a chegar no mês seguinte. Observamos 84 freguesias que então integravam o concelho de Guimarães (as que hoje compreende o seu território e as que constituem o concelho de Vizela, a que se somam as de Cunha e Ruilhe, que então ficavam no meio do território de Barcelos).
São, ao todo, 84 freguesias, de que chegaram até nós 69 as respostas aos interrogatórios de 1758. Suspeitamos que as quinze que estão em falta poderão fazer parte de um volume que poderá andar extraviado, já que são aquelas cujas iniciais se situam, em perfeita sequência, entres as letras M e P, a saber, Marinha da Costa (Santa), Mascotelos (S. Vicente de), Matamá (Santa Maria), Mesão Frio (S. Romão), Moreira de Cónegos (São Paio), Nespereira (Santa Eulália), Oleiros (São Vicente), Paio de Vizela (São), Paraíso (São Miguel do), Pencelo (São João Baptista), Pentieiros (Santa Eulália), Pinheiro (São Salvador), Polvoreira (São Pedro), Ponte (São João), Prazins (Santa Eufémia) e Prazins (Santo Tirso). As respostas conhecidas estão datadas entre 7 de Março (O Salvador de Briteiros) e 2 de Junho (S. João das Caldas de Vizela).
Começaremos esta digressão pelo antigo concelho de Guimarães com aquela que se apresentou como “a verdadeira vila de Guimarães”, a pequena paróquia de S. Miguel ou Santa Margarida do Castelo, que coincidia com a Vila Velha de Guimarães e se situava no topo da colina onde está levantado o castelo da Fundação.
Esta paróquia foi anexada à de Santa Maria da Oliveira (eclesiasticamente em 16 de Dezembro de 1872, civilmente no início de 1896).


S. MIGUEL DO CASTELO
Extracto e verdadeira notícia da sempre régia e antiga freguesia de São Miguel do Castelo, vulgo de Santa Margarida, intramuros da vila de Guimarães, Arcebispado Primaz de Braga.
1.º Fica esta freguesia na amena e aprazível Província de Entre-Douro-e-Minho, no Arcebispado de Braga e, por se achar dentro dos muros da nobre e sempre leal vila de Guimarães, pertence ao termo e comarca dela.
2.º O domínio desta freguesia, ainda que em algum tempo foi da Casa de Bragança, hoje o tem a Casa Real, a quem toda a vila pertence.
3.º Tem esta freguesia muito poucos vizinhos, que, por todos, fazem o número de dezassete fogos, e pessoas de sacramento, entre homens e mulheres, cinquenta e duas, menores quatro, que, por todas, fazem o número de cinquenta e seis.
4.º Está situada num vale ao pé do muro da dita vila, no meio de um olival pertencente ao abade dela.
5.º Não tem lugares, nem compreende aldeias, pois a diminuta quantidade de seus moradores bem indica a sua pequena extensão e circunferência.
6.º Está esta freguesia situada dentro dos muros da dita vila. É suposto fosse ela a verdadeira vila de Guimarães pois, antes de experimentar a sua última ruína, tinha jurisdição dividida da que hoje existe, governando-se uma e outra por diversos ministros. Hoje só conserva o nome de Vila Velha, na qual não há mais do que uma rua, chamada do Castelo ou de Santa Bárbara, cujo nome ainda conserva uma porta da muralha, a qual fica para a parte do Nascente, e, todas as mais que havia, se acham demolidas e repartidas em quintais particulares.
7.º É o titular, ou orago, desta freguesia o Arcanjo São Miguel e se denomina com o título de abadia primaz, como descreve o padre António Carvalho na sua Corografia Portuguesa, tomo primeiro, livro primeiro, página terceira e sequente, na qual se acha a sua descrição, com verdade e clareza.
Na arquitectura desta igreja se vê a sua grande antiguidade e, na capela-mor dela, no meio do altar, está colocada a imagem de um Santo Cristo e junta ao pé da Cruz a imagem da Senhora Santa Ana, a qual deixou Jerónimo Vieira de Lima, professo na Ordem de Cristo, com vinte e uma medidas de pão meado, para os abades dela lhe cantarem uma missa com música e sermão, no dia da sua festa. E, como destas lhe não pagam ao presente mais do que oito, também se lhe não satisfaz o legado, senão com uma missa cantada, por ele assim o determinar em seu testamento.
Divide esta capela-mor do corpo da igreja um arco de pedra, sobre o qual encostam dois altares, um de cada parte. O do Evangelho é de Nossa Senhora da Graça, ao qual se acha anexo o morgado que instituiu Dom Martinho Pais, chantre de Coimbra, que jaz sepultado ao pé do mesmo altar. E, por falta de descendência, se acha hoje na Coroa e são seus administradores obrigados a mandarem dizer nesta igreja, anualmente, duas missas cantadas e quatro rezadas, conforme a intenção do instituidor.
O da parte da Epístola é de Santa Margarida, por quem esta igreja é hoje mais nomeada e conhecida, do que pelo seu orago São Miguel, que existe colocado na capela-mor, da parte do Evangelho, a qual Santa festejam com grandeza todos os anos as fidalgas e mais mulheres casadas da terra, por a haverem tomada por advogada em seus partos. E no dia vinte de Julho se lhe faz a sua festa, onde concorre muito povo até às dez horas da noite e, nos mais dias do ano, a buscam com seus novenários todas as mulheres pejadas, por ser esta uma santa que em todos os partos obra especialíssimos milagres. Neste mesmo dia da sua festa, vai o ilustríssimo e reverendíssimo Cabido da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira a esta igreja, onde, por legado, cantam um nocturno com sua missa rezada, pelas almas de Afonso Enes do Castelo e sua mulher.
Tem bastante grandeza o corpo da igreja, a qual foi sagrada pelo Excelentíssimo e Reverendíssimo Arcebispo de Braga Dom Silvestre, no ano de mil duzentos e trinta e seis e, no de mil cento e oito, foi baptizado por São Geraldo, Arcebispo de Braga, o nosso primeiro Rei o venerável Dom Afonso Henriques. E a pia em que se lhe administrou este sacramento se acha hoje depositada e metida na parede da igreja da Real Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira desta vila, da parte da Epístola, junto à capela de Nossa Senhora da Conceição.
Os pórticos são de arquitectura lisa e antiquíssima. No pavimento se acham muitas sepulturas com diversas armas e algumas figuras. Na parede, pela parte de fora, tem antigos monumentos e, no exterior da porta travessa, se conserva, ainda hoje, uma pia de pedra grossa, que era a medida por onde se aferiam todas as desta província e de presente o é desta vila, termo e comarca.
8.º O pároco dela é abade, cuja apresentação e colação, depois de feito o exame sinodal em Braga, pertence ao ilustríssimo e reverendíssimo Dom prior e cabido desta vila, simultaneamente. E terá de renda, entre certo e incerto, cem mil réis diminuta renda para uma igreja tão régia.
11.º Tem um hospital antiquíssimo e de pobre arquitectura, com a invocação de São Miguel Arcanjo, para nele se recolherem cinco pobres e necessitadas mulheres, com cinco quartos ou cubículos em que se acha repartido. São administradores dele os abades da dita igreja, aos quais se paga anualmente, por diversos caseiros, dez mil trezentos e dez réis, para satisfação de cinco missas cantadas e reedificação do dito hospital, sendo necessário, e, não o sendo, se satisfaz o produto da dita quantia em missas rezadas pelas almas dos que deixaram os ditos foros.
Cobrava estes foros uma confraria do Arcanjo São Miguel, a qual se acha hoje extinta e fazem as suas vezes os abades administradores dela. Na véspera de Natal, se lhe paga de renda um carro de lenha para os pobres dele repartirem entre si.
13.º Tem uma capela dentro de um castelo (cuja descrição se fará em seu lugar), com a invocação de São João Baptista, para ouvirem missa os presos que nele se acham encarcerados e dela se lhes administram os sacramentos. Tem obrigação, por legado a comunidade da coraria que existe na Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, a mandar-lhe dizer missa todos os Domingos e dias Santos do ano. E pertence a dita capela ao alcaide-mor desta vila.
15.º Os frutos que dos quintais em que se acha dividida esta freguesia se colhem são algum milho grosso, pouco vinho e algum azeite do olival pertencente ao abade dela.
21.º Dista esta freguesia da cidade de Braga, capital deste arcebispado, três léguas, e de Lisboa, capital do reino, sessenta.
22.º Os privilégios ou antiguidade que ainda hoje conserva esta paróquia e freguesia são os seguintes:
Todos os anos, na terceira dominga de Julho, em que neste Reino se soleniza o Anjo Custódio dele, costuma a câmara desta vila fazer-lhe uma procissão, saindo da colegiada com o ilustríssimo e reverendíssimo cabido, na qual vão os vereadores em corpo de câmara, acompanhados do juiz de fora, procurador, escrivão e misteres. E assim entram na dita freguesia ou Vila Velha e sua paróquia, na qual o ilustríssimo e reverendíssimo Cabido reza certas orações com a circunstância, porém, que, quando sai a procissão, leva o juiz de fora um pendão de damasco encarnado, em que se divisa a imagem do Arcanjo São Miguel, e, quando volta, o traz o vereador mais velho, para mostrar que, como diz o padre António Carvalho na sua Corografia Portuguesa, não podia entrar um ministro com vara em lugar onde não tinha jurisdição, pois, como fica dito, era a desta Vila Velha distinta da que hoje existe, antes de se unirem.
Por concessão do Ilustríssimo e Reverendíssimo Dom Lobo da Silveira, Dom Prior da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira desta vila, e do abade Francisco de Sousa, habitaram nesta igreja os reverendos padres capuchos da Província da Piedade e dela usaram enquanto se lhes não acabou o seu convento, que em muito pouca distância dos muros desta freguesia está fundado e erecto. Entraram nela em doze de Novembro do ano de mil e seiscentos e sessenta e quatro e saíram, com uma procissão solene, acompanhados do Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido, comunidades, Câmara e mais povo da terra, aos vinte e nove de Julho do ano de mil e seiscentos e sessenta e oito.
25.º É esta Vila Velha cercada de uma muralha bruta, pouco alta e sem ameias, a qual se comunicou e uniu aos muros da nova vila, vindo a fazer ambas uma só. Tem, entre o Norte e Nascente, sobre uma fortíssima penha, um castelo, o qual mandou fazer a Condessa Mumadona, para defesa do convento que mandou edificar no burgo junto a esta vila, de religiosos e religiosas de São Bento, que hoje é a Insigne e Real Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira. Está servindo de contra-muralha a este castelo, pela parte do Norte, a muralha velha, ficando entre uma e outra um terreno com bastante largura. E, pela parte do Sul, não tem contra-muralha, por lhe ficar servindo de defesa e guarda a mesma vila.
No meio deste castelo lhe está servindo de penhasco a torre da Vila Velha que, pela sua grande altura e fortaleza, se faz inconquistável, vindo a ficar este castelo com três torres e só com duas portas, uma para o Norte e outra para o Sul, cada uma delas guardadas com dois baluartes fortíssimos. E, suposto fosse este castelo edificado para defesa daquele convento, hoje serve de cadeia para os presos que forem da vila e termo.
Tem, da parte do Poente, um palácio. Porém, dele não existem ao presente mais que as paredes, o qual foi morada do conde Dom Henrique, quando em Guimarães assentou sua corte e berço do nosso primeiro rei de Portugal, o venerável Dom Afonso Henriques.
Em pouca distância deste castelo e casa onde nasceu o primeiro Rei deste Reino, mandou fabricar um sumptuoso palácio Dom Afonso, filho natural de el-rei Dom João o primeiro, o qual casou com Dona Brites Pereira, filha única e herdeira do grande Conde Dom Nuno Álvares Pereira e sua mulher Dona Leonor de Alvim, Conde de Arraiolos, Ourém, Barcelos e outras muitas terras.
A arquitectura desta obra é regular, dividida em quatro quartos de sumptuosa grandeza, tendo no meio deles um claustro de quatro naves feito de arcarias, com varandas por cima, que fazem entrada para a capela, da qual, como de todo o mais palácio, não existem hoje mais que as paredes. No pórtico desta capela se admiram seis colunas de excelente jaspe, divisando-se em cada quarto uma multiplicidade de casas, que muitas delas sobem a demasiada altura. A fachada que fica ao Sul tem bastante comprimento, com onze janelas de excessiva grandeza, partidas cada uma com cruzes de pedra.
Aos lados desta fachada se levanta o edifício noutro andar, a modo de torreões, tendo cada um três janelas da mesma sorte, e, subindo-se por escadas entre as paredes, tem por cima vistosas varandas, de onde se descobre uma dilatada e aprazível vista. Não se chegou acabar esta máquina, por faltar a vida ao seu fundador.
Para a parte do Norte, porém, se cobriram algumas casas onde assistiu até à morte a venerável Dona Constância de Noronha, filha de Dom Afonso de Gijón e de Noronha, filho natural de el-rei Dom Henrique, o segundo de Castela, casado com Dona Isabel, filha natural de el-rei Dom Fernando.
Foi esta venerável senhora segunda mulher de Dom Afonso, fundador deste palácio, e jaz sepultada na capela-mor do convento de São Francisco desta vila. E algumas destas casas que ainda hoje existem cobertas, servem para recolher as rendas que as sereníssimas rainhas de Portugal têm no almoxarifado desta vila.
26. Nenhum destes sumptuosos palácios padeceu ruína no terramoto que houve no ano de mil e setecentos e cinquenta e cinco, somente o corpo da igreja paroquial que se acha da parte do Evangelho, junto à porta travessa, fendido por duas partes até ao meio, ameaçando bastante ruína. Porém, como a renda é diminuta e os fregueses limitados e muito pobres, não há com que se possa reparar.
Enquanto aos mais interrogatórios, não há, nem tenho de que dar satisfação, pois o referido é o que pude averiguar, por não haver nesta freguesia monte, serra, nem rio, como na ordem se procura saber. Guimarães, de Abril 10 de 1758.
O abade António Machado de Oliveira
O pároco José Luís Ferreira.
O pároco Francisco Dantas Coelho.

São Miguel do Castelo, Guimarães”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, vol. 18, nº 134b, p. 763 a 774.


[A seguir: Santa Maria da Oliveira]





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